#002: Carta a um irmão ancião

Saudações, irmão Fulano. Perdão incomodar o irmão, mas gostaria de saber se eu poderia ligar amanhã de manhã (no horário mais conveniente para o irmão), se assim o Senhor me der forças, para conversarmos 5 minutinhos. Sei que isso é inoportuno e que os irmãos do Ministério são bem instruídos a não dar crédito a mensagens como essa [anônimas, não me identifiquei, embora disse minha região e primeiro nome].

No entanto, não escrevo para o irmão a fim de criticar alguém ou de falar qualquer outra coisa que traga demérito à Obra. Escrevo no desespero e na esperança de que o Senhor possa te dar alguma luz e, assim, me auxiliar com um conselho na caminhada. Também peço que o irmão não compartilhe o conteúdo do que vou escrever a seguir, ao menos não de forma a dizer aos conservos do ministério detalhes (meu nome, região etc.). Embora acredito ser importante todo o ministério saber de casos como esse, para que possa aconselhar a mocidade, pois é um mal que, querendo acreditarmos ou não, assola a mocidade.

Meu nome é J., sou da região tal, embora more e trabalhe fora. Batizei aos 12 anos. Sou auxiliar de jovens há muito tempo e músico oficializado. Fui instrutor de música e sou selado [com o dom de línguas]. Perante a irmandade e o Ministério, no trabalho e em todos lugares, tenho o que se pode entender por um bom testemunho, nunca dei nenhum tipo de escândalo na Obra, em sentido algum. Sempre muito comportado, quieto e tido por muitos como um moço “exemplar”, quer nas coisas de Deus, quer nas demais. De forma alguma digo isso tudo para me vangloriar, mas para que de alguma maneira o irmão possa entender um pouco.

Embora todos me vislumbrem com essas e outras boas qualidades, idealizadas para todos os moços cristãos, não me vejo de maneira alguma digno de levar esse “bom nome”. Também não vejo condições de permanecer com os cargos ou responsabilidades a mim atribuídos [na igreja]. Tenho uma guerra interior, na qual estou praticamente sendo derrotado. Um sentimento que, aos olhos de qualquer um, se eu falasse que possuo, aniquilaria todas as qualidades que a mim me são atribuídas, ainda que em essência eu permanecesse o mesmo. Eu gostaria de ter entregado todos os cargos, ido embora para alguma cidade distante, para que, caso eu “caia”, não cause escândalo à Igreja. E esse é o meu maior temor, causar escândalo e transtornos para a irmandade e ministério. Eu creio em Deus, tenho convicção da fidelidade da Palavra e das promessas, tenho uma boa compreensão da Graça.

Mais uma vez, não falo por vangloria ou vaidade, o irmão nem me conhece (embora já nos saudamos em algumas RM), não faria o menor sentido. Falo segurando o choro, e porque não conseguiria explicar por telefone. É claro que o conselho que poderia vir do irmão seria algo como “Não peque” ou “Fica firme em Deus”. E acredito fielmente nisso. Porém, já não sei mais como o fazer. Creio que todos temos pecados, e sempre tendo a acreditar que não faz sentido algum escalar o grau de pecado. Pecado é pecado, e isso nos coloca e impõe a necessidade da Graça de Deus. A guerra que eu travo todos os dias, o irmão pode ter imaginado, é contra meus afetos, sentimentos contrários à “natureza original”, homem – mulher, mas que não foram escolha minha. Sentimentos relacionados à homossexualidade.

Já chorei inúmeras vezes aos pés do Senhor para que ele me limpasse, me livrasse, me guardasse da tentação, e Ele sempre o fez, até hoje tem o feito. Buscando a Palavra, não poucas vezes Ele disse “Você não quer ser assim, me pede pra te mudar, mas isso é pra minha glória”. [trecho suprimido, algumas obras particulares]. Outra vez, buscando a Palavra questionando se o Senhor me amava, mesmo sendo impuro como me sentia (e me sinto) o Senhor iniciou dizendo “Eu te amo, eu te amo, eu te amo” e continuou a exortação […].

O que quero expor, é que ainda que me sinta em extrema fraqueza e mais perto do pecado, o Senhor continua dizendo que me ama, ou que mesmo que eu caia Ele me levantará.

Embora esses sentimentos que expus para o irmão sempre estiveram presentes, desde minha meninice, também já me apaixonei e afeiçoei por moças/irmãs. […] mas como poderia lhes propor qualquer relacionamento tendo também atrações contrárias a natureza “original”? Tenho 30 anos, não sou casado. A pressão da irmandade, a cobrança de todos quanto a isso, a espera para que eu me case… se eu tivesse sido levado por tudo isso, poderia ter arruinado não só minha vida, como a de alguma moça. Já ouvi diversos conselhos, corretos mas incompletos, do tipo “se o moço não gosta de moça, não case”. Corretíssimo, mas e a pressão da irmandade (e do próprio ministério) àqueles moços que já estão “passando da idade” e não casaram? E que conselho se daria a esses jovens que, sendo moços não sentem atração por moças e também não são “eunucos”, isto é, têm atração homoafetiva.

Irmão, não escrevo para desafiar o irmão e tão pouco o ministério. Não tenho essa intenção e nunca terei. Amo a Obra de Deus em sua essência, e a igreja [como instituição] como a mensageira dessa Obra e Graça. Também não escrevo para que “mudem a doutrina”. Mas irmão, como eu posso permanecer na igreja? Como eu, possuindo um sentimento tão abominado pelo próprio povo, posso continuar a “servi-los” [com os cargos que possuía]?

Sei que deve ser incompreensível para o irmão e a qualquer outra pessoa que não sinta isso, mas o próprio apostolo Paulo disse que “não se contendo, case e não peque”. Mas isso para um homem com mulher e vice-versa. E como eu, não me contendo, posso não pecar sem “casar”.

Pode ser que esse sentimento possa ser causado ora por disfunções biológicas, ora por possessões demoníacas, ora por concupiscências e promiscuidade. Mas também pode ser tão “natural”, tão pessoal, tão real que eu não consiga associá-lo a nenhuma dessas situações. Sou saudável, sou crente e já senti o Espírito do Senhor e ainda sinto, embora pela fraqueza as vezes me distancio. Não sou e nunca quis ser promíscuo, nunca namorei moça alguma (ainda que também possuísse esse sentimento [afetivo, pois sexualmente, não]), nunca fui a uma festa ou qualquer coisa semelhante durante a faculdade. […] Pode ser que me torne promíscuo, e deseje todos que passam à minha frente, querer sair com esse e aquele, mas isso só porque nunca poderia assumir um compromisso [considerado pela igreja] “anormal”.

Irmão, não estou dizendo “despecalizem” a homossexualidade. Normalizem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tornem isso comum e não pecaminoso. […] Por minha vontade, defenderei a doutrina em sua essência e que ela não deve ser mudada até o fim da minha vida. Direi até o fim, ainda que em algum momento eu a fira, que a doutrina é verdadeira e válida e que eu quem sou pecador.

Nem sei porque escrevi tudo isso, também não sei se o irmão ainda está lendo. Não espero um conselho do que eu deveria fazer, se realmente, mais uma vez, mudar de cidade e abandonar tudo, congregar “à paisana” só para ouvir a Palavra e não criar vínculo com a igreja (irmandade) a fim de evitar possíveis escândalos. Sei que seria inadequado e inconveniente o irmão dizer “faça isso” ou “não faça aquilo”, porque assim como eu o irmão não deve ter muitas respostas e, ainda, não poderia dar um conselho a menos que o Senhor te revelasse.

Busquei a Palavra ontem e a resposta foi “ainda que caia, levantarei… porque o justo cai sete vezes, e sete vezes é levantado”. Não tenho certeza se foi comigo, mas chorei muito. Coisa que há tempo não fazia. Chorei por ter esperança, mas também por estar em desespero da desesperança. O Senhor me quer na Igreja? O Senhor me abandonaria às minhas paixões carnais, e ainda assim me aceitaria? O Senhor me entregou às imundícias e me abandonou às paixões infames? Eu não quero ter conhecimento de Deus e por isso ele me entregou a esse sentimento perverso para que eu faça coisas que não convém? Por ter esse sentimento, ser homossexual (ainda que lutando contra ele), estou cheio de iniquidade, fornicação, malícia, avareza, maldade, inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade, sou murmurador, detrator, aborreço a Deus, injurio, sou soberbo, presunçoso, invento mal, desobedeço pais, sou néscio, infiel, sem afeição natural, irreconciliável e sem misericórdia? Conheço o juízo e erro e consinto que os demais também errem? Irmão, sem me vangloriar, mas não me vejo digno de nenhum desses vícios ou desvirtudes.

Como usar esse texto bíblico [Romanos capítulo 1] para condenar todos aqueles que, sendo tentados diariamente, constantemente, não podem casar e também não podem se conter, ainda que sejam cheios de amor para com o próximo e amem a Deus? Amar a Deus acima de todas as coisas é conseguir deixar todos os vícios imediatamente?

Irmão, não espero que digam “vocês podem casar sim, vivam juntos e no temor”. Mudar a doutrina é um escândalo ainda maior que errar nela. Mas que (boa) orientação se poderia dar a esses jovens que, como eu, estão rodeados por uma tão grande tentação? Verdade que Deus dá o escape. Mas, irmão, parece não haver escape. Há horas que parece que o laço está demasiadamente amarrado. Há momentos que se deseja a morte, a fim de que não se desagrade a Deus. Mas Deus não dá a morte como escape. Ainda não deu. E não falo de suicídio, de maneira alguma. De certo o Senhor pode ter um escape melhor.

Jó desejou a morte e Deus não deu o que ele “desejava e esperava”. Deu coisa melhor. Eu não vejo nada melhor para mim. Viver mais 30, 40, 50 ou até 60 anos vazio. Sem poder compartilhar os sentimentos com alguém. Sem poder amar alguém. Eu não sou eunuco, gostaria de me fazer eunuco para o Senhor, mas não consigo.

Ainda que o sentimento sexual me fosse tirado, desejaria ter alguém do meu lado, ter uma família [não viver sozinho]. Como isso poderia me ser dado? Eu já acreditei que, em algum momento, o Senhor fosse me libertar desse sentimento, mas que glória haveria para Deus em mim? E porque ele me libertaria se não libertou diversos outros seus servos com o mesmo “mal”? O que deveria eu fazer? Procurar uma igreja que aceitasse a minha condição?

Eu amo a CCB [Congregação Cristã no Brasil], vivo nela e por ela. Poderia viver sentindo a Graça e misericórdia de Deus sem ir à CCB? Talvez. Mas é lá que aprendi a servi-Lo, a amá-Lo. Amo a irmandade, as crianças, a mocidade. Amo anunciar que Cristo vai voltar, que não é loucura ter fé nisso. Amo dizer que Ele perdoa todo tipo de pecado e que a todos quer salvar. Mas não consigo acreditar que eu, que anuncio esse tão grande amor, possa obter de fato o perdão e a salvação [porque seria rejeitado pela irmandade por não estar nos padrões].*

Ainda que o pecado eu não tenha “consumado”, já tive tantos desejos “sujos”. Tantas imaginações abomináveis. Já me sinto como se o tivesse consumado. Não vejo sentido o Senhor me salvar só porque não consumei e condenar todos os demais que consumaram. Se eu nunca consumar não será por força minha!

Tinha muito mais que falar, muitas coisas que gostaria de conversar. Ou ao menos chorar no ombro de algum irmão cheio de Luz. Não o posso fazer presencialmente, embora tenho muita afeição pelo Ministério da minha cidade, mas creio que eles não estariam preparados para isso. Muito menos para aceitar que eu seja “assim” também. E o escândalo teria se dado. Por isso recorri ao irmão.

Se o Senhor o fizer sentir de dizer algo a mim, bendito seja o Seu nome. Se Ele te der alguma luz ou fizer sentir de levar aos conservos do Ministério, e eu algum dia ouvir boas orientações [ensinamentos] à irmandade e à mocidade, sobre qualquer assunto [em relação a isto], louvado seja Deus.

No entanto, não se preocupe em me responder. Não se preocupe em levar adiante qualquer assunto que expus, amargamente. Não sei porque escrevi ao irmão.

Irmão, perdoe-me.

Deus te abençoe pelo tempo despendido.

Com sinceridade em Cristo Jesus.


Observação: O irmão me respondeu amorosamente, mas, sem dar respostas (compreendo-o). Disse que as respostas para minhas indagações estavam no próprio texto desta “carta”. E também disse que tem orado diariamente por mim. Serviu-me de consolo!

*Pouco tempo depois de haver enviado essa carta, eu compreendi com mais profundidade o amor de Cristo em mim e por mim, por nós. Hoje vivo na plenitude da Graça de Cristo, com a certeza da minha salvação, não que eu seja perfeito, mas compreendi que, por Cristo, fui aceito mesmo sendo homossexual.



Tags: CCB; gay; homossexual; homoafetivo; cristão; crente; Congregação Cristã no Brasil; homo ccb.