#015: Homossexualidade é a abominação de Levíticos?

A Bíblia possui uma história libertadora, embora a distorçam com pretexto de culto ao divino, por completa ignorância ou por falta de imaginação para apreender a bondade e o amor de Deus, tema central e fundamental da Bíblia.

Temos em Levíticos diversas recomendações e proibições e, muitas delas, parecem claras em seus fins: livrar o oprimido. Por exemplo, no capítulo 18, há a recomendação de não seguir o caminho da idolatria de nações como o Egito e Canaã, terra da qual o patriarca Abraão saiu para atender ao chamado do Deus.

É interessante que aqueles primitivos, contemporâneos de Abraão, não conheciam o Deus de amor. Nem mesmo Abraão o conhecia e, foi justamente por não o conhecer, que precisou ser provado, tendo que oferecer seu filho Isaque em sacrifício. Deus na verdade não queria provar a fé de Abraão, mas provar a este patriarca que Ele era diferente de todos os outros deuses, criações humanas para oprimir, pois ele é, em essência, amor.

Isso se revela quando Deus diz a Abraão: “Não faças tal!”, pois é como se Deus demonstrasse ser o Deus misericordioso, justo e bom, que Abraão ainda não conhecia. Ele também revelou, com isso, que jamais aceitaria as loucuras dos homens, que oprimem os fracos e inocentes, em nome do ego, dos prazeres ou do sacro, santo e divino.

Por isso, neste mesmo capítulo de Levíticos, há expressa essa proibição: a de nunca oferecerem em holocausto os filhos, como os povos ofereciam a Moloque.

Em Levítico 17 também há uma proibição interessante: a de nunca derramar sangue em sacrifícios aos demônios, por meio da prostituição cultual. Sacrifícios e sexo estavam relacionados nos cultos pagãos.

Entre as práticas de sexo cultual, pode-se destacar a pederastia, que é o coito anal como forma de aquisição de conhecimento espiritual, prática comum no tempo dos hebreus que durou milênios, sendo assimilada por diversas culturas*. Na pederastia, simplificando muito, um jovem (ainda sem pelos, portanto quase criança) assumia o papel sexual de passivo, enquanto o homem mais velho, o sacerdote pagão, dito mais sábio e mais cheio de conhecimento, seria o “bondoso” ativo que lhe transmitiria, pelo coito anal, o conhecimento. Essa era uma das formas da prostituição cultual, e prostitutos e prostitutas cultuais foram chamados, em algumas traduções, de rameiras ou sodomitas, ou como “rapazes escandalosos”.

É possível imaginar a crueldade à qual os jovens (héteros ou não) eram submetidos, sendo o passivo com algum homem mais velho, sem afeto, apenas porque os deuses queriam assim?

Não se tratava de amor, de afetividade, tão pouco de homoafetividade. Se não chegasse a ser um estupro era, no mínimo, um abuso sexual público em nome do divino (porque é difícil acreditar que todos os jovens sentiriam prazer com tal prática, cultural e religiosamente forçada).

Claramente, Deus se enojava disto, e é fácil imaginar o porquê! Deus jamais aceitaria tais práticas em Seu bom Nome! E Ele, bondoso que é, teria que impor um meio para livrar o povo, os jovens, as crianças, os fracos e inocentes de práticas como essas.

É verdade que isso não está escrito, que o motivo das proibições não estão registrados na bíblia, mas, convenhamos, a humanidade precisou ser lapidada para abandonar algumas práticas de perseguição ao mais fraco. E ainda precisa ser muito lapidada!

Mas essa minha “imaginação”, de que a sodomia estivesse associada aos prostitutos cultuais, aos que praticavam coito anal em cultos pagãos, pode ser embasada pela própria Bíblia. Em 1 Reis, no capítulo 14, há a descrição da idolatria de Judá: haviam altares a Asera e também os prostitutos cultuais (traduzido como rapazes escandalosos) e que praticavam o coito anal para adorar aos deuses. Em 1 Reis 15, o rei Asa extirpa do meio do povo toda a idolatria: tirando os rapazes escandalosos (ou sodomitas, isto é, prostitutos cultuais) e os ídolos que os pais dele fizeram (leia também em 1 Reis 22 sobre isso).

Nenhum verso da bíblia deveria ser lido ou interpretado fora do contexto. Alguns contextos se perderam na história, mas a tônica de toda a Bíblia é o de amor divino! O contexto de toda a Bíblia é a revelação do plano de Deus de salvar os homens das suas atrocidades.

É uma crueldade associar essa prostituição cultual, e toda a opressão que dela poderia resultar, ao  amor homoafetivo. É uma crueldade dizer que homossexualidade (amor entre pessoas do mesmo sexo) seja a abominação de Levíticos.

Paulo lista os frutos do Espírito, os quais são: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra essas coisas ele afirma não haver nenhuma lei. Os que andam em Espírito as seguem e são seguidos por elas. Eu, sendo gay, consigo perceber esses frutos brotando em mim. Como posso não ter o Espírito fazendo morada em meu coração? Como posso ser uma abominação e ter frutos do Espírito? Como posso ser uma abominação e amar, a ponto de chorar pelos marginalizados ou por aqueles que percebo estarem tão longe de Deus, desejando que eles se acheguem aos braços do Pai celestial? Como posso ser uma abominação e dormir e acordar, diariamente, lembrando de Deus e do seu grande amor, dando a ele graças pela paz sempiterna que reina no meu coração?

Recomendo a todos, independente da sexualidade, que amemo-nos fraternalmente, pois todo o ser humano que conseguir amar é nascido de Deus e Deus vive nele (ao menos João ensinou isso na sua carta). E vivamos em Espírito, compreendendo que propagar o ódio, legitimar preconceitos e oprimir em nome de Deus foram, em Levíticos, abominações insuportáveis para Deus. E creio que ainda sejam.


*Recomendo a leitura do artigo: Revisão histórica e psicossocial das ideologias sexuais e suas expressões, de Dilcio Dantas Guedes, 2010.

Observação: O contexto de Romanos 1 também revela o caráter de idolatria das práticas sexuais “não naturais” (porque em serviço ao culto pagão), mas quero falar disso em outro texto.


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#014: Curou-me

Eu me lembro bem dos dias em que diziam que gay era indecente.
Dos dias que negro não era gente.
Dos que a perseguição era contra o crente.
Daqueles que a intolerância
era notícia recente.
Lembro-me bem
que ela matou, estuprou,
torturou, queimou e humilhou
o diferente.
Lembro-me bem
que, em nome de Deus, em nome da honra, da família,
em nome do patriotismo, do nacionalismo,
e da extrema ignorância ou hipocrisia
destruímos o coração
inocente,
Mas, por graça, Deus enviou a cura
que o abraça e que o reestrutura.
Lembro-me bem
que Cristo me fortaleceu,
curou meu coração quebrantado
e meus pensamentos transtornados,
revelando que me ama
imensamente.
Por isso, eu sempre lhes direi:
Também sou cristão!
Ainda que, repetidas vezes,
me chamarão
doente, indecente.
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#013: Um gay que não diz "amém"

Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e também é a prova daquilo que não se vê. E, ainda, a fé é morta se não produzir frutos de salvação.
De nada adianta ter fé em Cristo, se as obras produzem frutos de perdição para si mesmo ou, pior, para outros que provam desses frutos. Na verdade, não se tem a fé se assim for.
Arriscaria dizer que todo o gay cristão, que todo o gay que nasceu em um lar cristão tradicional, já desejou amarga e desesperadamente a morte. Eu já a desejei muitíssimo, embora nunca pensei em suicídio, mas sempre roguei e supliquei que Deus findasse o meu viver. Pedia isso porque sabia que ele não me “curaria” ou não expulsaria de mim esse “espírito contrário”.
Eu não sou doente, irmãos. Sou sadio! Também não sou endemoninhado. Sou cristão! Também não sou um “assanhado”. Tenho o temor do Senhor! Tenho o Espírito Santo em meu coração e minhas obras testificam isso, ainda que eu seja bastante imperfeito, elas são de cristão, pois, no que eu posso, produzem e anunciam a salvação. Não posso ser endemoninhado se anuncio a graça e amor de Deus, inclusive, e apenas quando me solicitam por haver necessidade, em cima do púlpito da CCB e em reuniões de evangelização.
Irmãos, amo vocês. Mas não pude falar o “amém” na igreja no feriado passado, no dia da Independência. O irmão dizia: “Se há algum homossexual entre nós, saiba que nós o amamos, e procure o Ministério para conversar, pois você pode se livrar disso, dessa enfermidade demoníaca. Ofendi alguém mocidade? Eu disse algo que ofendesse alguém?”. O primeiro coro de “amém” não foi muito forte. Então o irmão questionou novamente, encorajando um coro de “amém” mais intenso. E houve.
Veja, irmãos queridos, é claro que vocês nos amam, pois o amor do cristão é sem distinção. Se houver diferença, já não é amor, ao menos, não aquele amor cristão.
Irmãos, não critico esse conselho. Sei que foi de bom coração e por zelo da Obra de Deus, à maneira que vocês a compreendem. Mas sim, eu me senti ofendido e não disse o “amém”. Até desejei parar de congregar, ainda que sinto Deus em mim. Desejei imensamente nunca mais estar na igreja, para não ser esse “escândalo” e para que os irmãos possam estar em paz, pastoreando apenas as ovelhas dentro do padrão. Assim, os irmãos não teriam preocupações comigo ou com outros que não podem se colocar neste padrão. Contive as lágrimas por sentir essa rejeição. Só não levei adiante essa tristeza, porque no último hino Deus me visitou. Dizia o hino: “Estou com Jesus, meu Senhor … sei que tudo está sob as ordens do meu rei!”.
Lembrem-se, irmãos amados, que Paulo defendia a Obra de Deus, matando os cristãos. Deus amou a Paulo e ao zelo que ele tinha, certamente. Mas Paulo pelejava com os olhos do entendimento entenebrecidos. E causou ruínas. Até que as escamas, figurativamente, lhe caíram dos olhos.
Os irmãos não podem, perdoem-me dizer, mas não podem aconselhar “venham conversar com o Ministério da igreja que lhes daremos direcionamento”. Irmãos, somos cristãos, dê-nos esse direcionamento a partir do púlpito. E não é por arrogância nossa, não é. Explico: muitos de nós são tímidos, outros temem perder a liberdade na igreja. Estamos escondidos e não queremos nos expor, porque sabemos e temos pavor da perseguição que iremos passar, o desprezo e discriminação que teremos que suportar.
Semana passada, um escreveu sobre isso: Estava feliz e com desejo de voltar a congregar, mas foi barrado pela irracionalidade do preconceito de muitos dentro da igreja. De muitos, não de todos!
Ontem, recebi mensagem de um moço de longe, dizendo que se mataria. Ainda não me respondeu, mas aconselhei que não fizesse isso. Porém, o que são as minhas palavras, um reles amigo virtual, diante de todo o juízo da irmandade que lhe rodeia?
Precisamos sim de orientação, irmãos. Porque se a graça é graça, ela nos abraça também. E nós, parece-me, somos os que mais precisamos dessa graça. Somos as “prostitutas”, “ladrões”, “endemoninhados” e “leprosos” dos tempos modernos.
Vão nos dizer: “façam como as prostitutas da época de Jesus, que pararam de se prostituir”. Ou, ainda: “façam como os ladrões da época de Jesus, que pararam de roubar”. Mas, se somos de fato enfermos ou endemoninhados, como muito ouvimos, precisamos que nos digam o mesmo que Jesus disse aos leprosos amaldiçoados: “Sê limpo”. E que essa “cura” seja imediata, instantânea, como eram as de Jesus.
Eu serei o primeiro a querer provar dessa cura, caso algum irmão possua esse dom, e me garantam que esse dom haverá sempre e eternamente, para curar nas gerações futuras.
No entanto, se a fé dos irmãos não for suficiente para remover essa “enfermidade”, instantaneamente, perdoem-me, mas não poderão dizer, jamais, “não peques mais”, pois seria como dizer a alguém que tem frio “não tenha mais frio, vá e se aqueça” e não lhe dar o vestido, ou ao faminto “não tenha mais fome, vá, tenha fé, farte-se” e não lhe dar o pão. O apóstolo Tiago diz que a fé destes, que dizem “aqueçam-se e se alimentem”, mas não provêm as vestes ou pão, é morta, vã, e inútil.
Não nos digam: “curem-se”. Também não nos digam: “não se entreguem a esse sentimento”. Mas, se de fato é enfermidade, se, de fato, é algo que não é natural, digam-nos: “venham e lhes curaremos instantaneamente pelo poder da fé, da nossa fé”.
Se a fé de vocês não é assim, perfeita e poderosa, não nos digam simplesmente: “parem de sentir o que sentem”. Muito desejamos isso, e não conseguimos. Eu não consegui. Já recebi algum milagre e muitas promessas, mas em nenhuma Palavra ouvi Deus dizer: “eu vou te libertar dessa sua ‘enfermidade’ hoje”. E em nenhum momento se quer senti algum alívio das dores dessa “enfermidade”.
A fé, entretanto, é o meu firme fundamento. Não vejo, mas por ela estou certo de que vivo no reino de Deus. Não vejo, mas desfruto desse reino imensamente, pois, após uma conversão plena, sinto paz em tudo, e com todos.
Deus abençoe os irmãos pela preocupação conosco.

Orem para que Deus nos tire as escamas e vejamos claramente o quanto a homossexualidade, o quanto o amor sincero entre dois “iguais” é uma abominação. Mas, ao menos singelamente, questionem-se também se vocês não possuem, de algum modo, uma visão turva sobre este assunto, pois, saibam, estão matando cristãos.


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