#018: Por que ainda estou no "armário"?

Tenho me mantido “no armário” por tanto tempo por temer abalar a fé daqueles que me cercam e que tanto amo. Essas pessoas, entretanto, mal podem imaginar que a cada dia roubam um pedaço de nós, roubam um fôlego, uma esperança. Elas não imaginam que a cada dia podem matar um pouco de nós, se não o nosso desejo de viver, ao menos a nossa fé e confiança.

Hoje ouvi, sem querer, da pessoa que mais me ama neste mundo, um diálogo simplificado a seguir:

– Ele já até é assumido.
– Tudo está desandando, é o fim dos tempos!
– E não se pode falar nada, tem que aceitar.
– Porque qualquer coisa, que se diz, é preconceito.

Aquela frase* “Antes de dizer o ‘amém’ na igreja, lembrem-se que uma criança está te ouvindo” não poderia ter sido mais autêntica, mais real. Senti e ouvi, mais uma vez, esse “amém” tenebroso ecoando em mim.

Essas pessoas que me cercam (e não falo de pessoas que propagam ódio, não, pois a estas tenho ignorado, mas falo de pessoas que amam e servem a Deus em muita sinceridade) não podem compreender o peso que tem o “amém” que falam, não só na igreja, mas no dia a dia, a todo instante. Elas não imaginam que, do lado delas, pode haver uma “criança” ouvindo aquele “amém” irracional.

Há um tempo venho querendo escrever um texto de mais confiança, de mais ânimo, um texto que resolvesse nossos questionamentos, nosso desespero e luta por aceitação, por compreensão. Que resolvesse ao menos nosso anseio para sermos ouvidos. Não consigo, perdoem-me.

Porém eu sempre posso lhes dizer que, para cada peso que colocam sobre mim, eu sinto um refrigério de Deus que me dá paz. Eu queria poder fazer com que todos, héteros e homossexuais, pudessem sentir essa paz! E tudo que eu posso dizer é que encontrei essa paz lendo a Bíblia, mas rejeitando os pré-conceitos que eu tinha. Eu não pude achar um verso se quer que condenasse os que amam a Deus e as pessoas, e que têm os frutos do Espírito, que se resumem na mansidão e amor.

A Bíblia não condena essas pessoas, mas diz que elas são salvas. Aliás, todo e qualquer discurso de ódio ou intolerância que ouvirmos, podemos ter muita certeza de que não está apoiado, legitimamente, na Bíblia. Jesus desconstruiu esses discursos de hipocrisia e marginalização do diferente, e qualquer “amém” que não seja com entendimento, e para agregar, não pode ser chamado “culto racional”.

É por isso que sinto uma paz e confiança imensa e, ao ouvir esse “amém”, já não choro por mim, mas por lembrar que, diariamente, há “crianças” ouvindo discursos que as aniquilam, pouco a pouco.

Foi “em nome de Deus” que conseguiram instaurar discursos mortíferos, assim como Paulo perseguia e matava cristãos em nome de Deus. Ele tinha muito zelo, mas nenhum entendimento. Os cristãos se escondiam e refugiavam nas cavernas, eu me escondo no “armário”, ao menos por um pouco mais de tempo, rogando forças e luz para agir em defesa do nome de Deus. Confesso, contudo, que na maioria das orações, simplesmente suplico: Ora, vem, Senhor Jesus.

Refugiem-se em Cristo, é ele que sempre nos defende. Se você nota possuir obras do Espírito Santo (aquelas de amor, tolerância e misericórdia para com todos), não seja aniquilado pelos discursos de intolerância, ainda que sejam proferidos em nome de Deus, pois, como está escrito: eles têm zelo de Deus, mas sem nenhum entendimento.

PS: quando digo “estou no armário por temer abalar a fé das pessoas”, não estou a dizer que os assumidos (como eu serei em breve) não respeitam essa mesma fé. No armário ou não, somos incompreendidos pelos cristãos tradicionais. Só permaneço sem me assumir para ter voz entre aqueles que nunca me ouviriam se soubessem sobre minha sexualidade. O texto não responde a pergunta do título, mas esta é uma indagação do tipo: vale a pena estar no armário?

*Frase do filme: Orações para Bobby (2009).
Um filme sobre um jovem cristão gay e sua mãe devota.
Recomendado a todo cristão de fé irracional, pois fé e razão não deveriam se opor.

#017: O homossexual deve viver sozinho?

Já ouvi conselhos em Reuniões de Mocidade, dizendo: Se você, moço, não gosta de moça, não se case com uma. E outros mais, dizendo: se você percebe que o seu desejo sexual não é o “natural”, contenha-se, pois Deus te ama mesmo assim, esteja entre nós, e contenha-se, contenha-se. E, também: o casamento que aceitamos é o entre um homem e mulher, como é desde o princípio.

Eu, no entanto, recorro a essa mesma lógica, de usar as coisas como eram no princípio, e relembro que, no princípio, Deus criou o homem para ser vegano e adepto do nudismo, além de, parece-me, solitário, já que no princípio não havia quem estivesse “como que diante dele”, pois Deus fez os animais, o macho e sua fêmea, e determinou que Adão lhes desse nomes e, por isso, por algum tempo, houve apenas Adão.

Essa ideia, de que o homem deveria se despojar de tudo, até mesmo das relações afetivas, é defendida por Paulo, que recomenda aos cristãos de Coríntios guardarem a virgindade, evitando o casamento*. Ele defende isso argumentando que o solteiro cuida melhor das coisas do Senhor e, assim, pode se dedicar inteiramente à Deus. É claro que essa regra deveria estar inserida em um contexto que fizesse muito sentido, possivelmente alguma perseguição que inviabilizasse a manutenção e união das famílias.

Entretanto, respondendo aos coríntios, que ficaram tão preocupados com o celibato proposto (é, muitos cristãos heterossexuais ficaram apavorados com essa ideia de não fazer sexo, nem constituir família, afinal, quem é que pode conter os desejos sexuais por amor ao Senhor?), Paulo dizia:

– Ora, se vocês não podem receber este mandamento, não o recebam, pois eu apenas queria poupar vocês de algumas tribulações, mas não é bom que, por não ser casado e ter necessidade disto, um homem cristão ande inflamado, desejando as mulheres que vê pelas ruas desta cidade promíscua, e onde há diversas prostitutas cultuais que inflamam os desejos carnais. Se for para andar assim, inflamado, desejando relações sexuais porque não se é casado, é melhor que se case e, saibam, não há nenhum pecado nisto, mesmo que eu havia dito: “não se case”.

Novamente, relembro que, ao olhar para o solitário Adão, Deus disse a si mesmo: não é bom que o homem esteja só, farei para ele uma mulher, uma companheira que seja como ele e que o complete. É verdade que Ele criou Adão e, depois, Eva. Mas, junto desse casal, criou toda a diversidade que contemplamos na humanidade. Inseriu no código genético desse casal tudo aquilo que nos define.

A recomendação ao celibato, de Paulo, por ser algo impossível e terrível para muitos, caiu em desuso para que os cristãos não vivessem inflamados com a sensualidade, por não poderem nunca se entregarem aos desejos, mesmo que dentro da moralidade de um casamento.

Igualmente, embora Deus no início criou apenas o homem, logo viu que não era bom o homem viver sozinho, mas que deveria ter uma companhia que o entendesse, que estivesse com ele em todos os momentos e para “serem, ambos, dois em uma só carne”. E, sobre isto, é claro que não significava sexo, mas que ambos se completariam emocional e espiritualmente (como já ouvi em diversas Reuniões de Mocidade).

Nós, gays cristãos, no entanto, ainda que somos criaturas de Deus, em semelhança a Adão, tendo as mesmas necessidades sexuais, afetivas e emocionais que os demais cristãos, somos impedidos tanto de conter nossos desejos sexuais, pois nos proíbem o casamento (o que contribui para que vivamos inflamados em nossos desejos) e, como se não bastasse isso, somos doutrinados a viver na solidão, mesmo Deus havendo dito, desde o princípio: Não, não é bom que o homem esteja sozinho.

Creio que no momento em que Deus disse isso, ele olhasse para o coração de muitos de nós, gays cristãos, impedidos de todas as formas de ter, à vista de todos, uma relação sincera de afeto e carinho. Não, não é bom que o homem viva sozinho, foi o que Deus disse, desde o princípio.


*É interessante como uma recomendação bastante clara, como essa, passe “despercebida” hoje em dia, ainda que a ela seja dedicado todo um capítulo (1 Coríntios 7), enquanto que apenas dois versos de Levíticos (que já deveriam estar em desuso, conforme explicado na carta aos Gálatas) ou dois capítulos descontextualizados (Gênesis 19 e Romanos 1) ainda oprimam a tantos de nós! A esperança é uma vida com Cristo, independente da fé das demais pessoas, produzindo os frutos de amor para com todos!


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