#025: A morte é uma saída para o gay cristão?

Acredito que mesmo os LGBTs que não frequentam a igreja desde pequenos sofreram ou sofrem com o preconceito “divinalizado”. Tudo que ouvimos, todos os discursos homofóbicos, de discriminação, de desprezo, de ódio… todos têm a ver, de algum modo, com a crença (fundamentada em fundamentos rasos e leituras superficiais da Bíblia) de que homossexualidade é uma abominação, categoricamente rejeitada por Deus, ou de que no céu não haverá homossexuais […].

Qual é a saída para o gay cristão? Eu sei que muitas vezes a morte parece ser. Vou falar um pouco sobre isso com exemplos de casos de homens de Deus que desejaram a morte.

Havia um homem, na terra de Uz, cujo nome era Jó. Ele era rico, reto e temente a Deus, mas, no decorrer de sua vida, o acusador questionou a retidão de Jó com o seguinte argumento: ele tem tudo para servir a Deus, assim é muito fácil!

Que pensamento raso desse acusador!

Bem, Jó então perdeu tudo, absolutamente – exceto a vida, o bem mais precioso. Seus amigos, sem compreenderem o que estava acontecendo na vida de Jó – nem mesmo este entendia! – começaram a dizer: Jó, onde é que você pecou para tudo isso acontecer em sua vida?

Jó sabia que amava a Deus demasiadamente e não encontrava razões para aquela condenação aparentemente divina – parecida com aquela acusação que fazem aos gays, não?

Afinal, por que Deus colocaria Jó naquelas condições?

Mesmo Jó sabendo do amor absoluto que tinha por Deus, de tanto ser acusado por seus amigos, acreditou estar em pecado e, com isso, desejou a morte. Desejou que o dia do seu nascimento nunca tivesse existido. A morte parecia a melhor saída para aquele caro servo de Deus do qual todos diziam: ele pecou gravemente.

Ele desejou e pediu a Deus:

Ah! Quem me dera que Deus me desse o que eu espero e cumprisse o desejo do meu coração!

Não, Deus não cumpriu o desejo do coração de Jó, porque o que ele desejava era a morte [1], e Deus tinha uma sorte diferente e muito melhor para esse justo e bondoso homem.

Teve outro homem de Deus do passado chamado Elias. Este profeta amava tanto ao Deus único e de amor supremo! (um Deus completamente diferente dos deuses pagãos, idealizados pelos homens que acreditavam que o divino era exatamente como o humano e, por isso, esses chamados deuses aceitavam as mais terríveis abominações, como o sacrifício de humanos). Elias amava tanto a Deus que combateu sozinho centenas de profetas do chamado deus Baal.

Elias foi vitorioso, pois Deus lhe deu um maravilhoso sinal aos olhos de todos: fogo desceu do céu e consumiu toda a oferta de Elias.

A opressão, contudo, era tanta que Elias fugiu. O profeta amado por Deus e que acabou de ver um sinal tremendo, fugiu! Fugiu de uma mulher feita rainha que lhe prometeu acabar com a vida. Elias deve ter pensado: do que adianta eu ver e sentir sinais de Deus em minha vida se me perseguem, se me impedem de servir livremente ao verdadeiro Deus? (é como alguns de nós pode pensar: de que me adianta querer ser crente em Deus se todos dizem que não posso ser, já que, segundo os “santos e irrepreensíveis”, ser gay e cristão é inconcebível?).

Elias, aquele forte homem ­– forte em fé, forte na convicção de que era servo de Deus – deitou-se e desejou a morte. Desejou a morte, mesmo sendo tão forte! Aquele homem de fé tremenda, por ser tão perseguido, desejou a morte. Deus em infinita misericórdia deve ter olhado do céu e falado: Como assim, Elias?!

Nosso Criador, entretanto, sabendo exatamente como nossas emoções e sentimentos são, enviou um anjo que disse a Elias: Levanta e come.

Elias? Ele estava desejando a morte, ora! Comeu, e voltou a pensar em quão pequeno e miserável se sentia, em como não conseguia resolver seus problemas […]. Ele não conseguiu olhar para aquele milagre (a comida e água preparadas por Deus) e deitou-se novamente.

O anjo com paciência e misericórdia – assim são os seres ligados a Deus, creio –, disse-lhe: Elias, cria jeito e olha para a ação de Deus na sua vida e o quanto Ele te ama, mesmo que te digam o contrário, ou que te persigam… O seu caminho é muito longo, pois Deus tem muitas coisas para fazer na sua vida!

Só mais um. Jonas. Lembram-se?

Jonas até parece um pouco egoísta, mas era um caro servo de Deus, também. Ele tinha uma mensagem para pregar, mas ele sabia que Deus era bom demais para cumprir aquela profecia de destruição de uma cidade inteira. Ele deve ter pensado: Poxa vida, eu vou lá pregar que Deus vai destruir geral, o povo vai se arrepender, Deus vai perdoar e eu vou ficar com que cara?

Mesmo que forçado e sem vontade, ele pregou, o povo se arrependeu, Deus não destruiu ninguém – afinal, tinha tanta gente, muitos animais, e crianças ali, e o que o Criador queria mesmo era o arrependimento e conversão, já que Ele não tem prazer nem mesmo na morte do ímpio.

Choramingando debaixo da aboboreira que Deus mesmo havia preparado numa noite, Jonas reclamou de um bichinho que estragou a planta e, com o sol ardendo na cabeça disse: Melhor é morrer do que viver!

Ah! Jonas! Deus te ama e ama aqueles pecadores também e quer que todos se salvem! Vai lá e se alegra na bondade de Deus para com aquelas pessoas, mesmo que você não desejava que se salvassem!

Tem muita coisa que podemos compreender com esses homens. Você percebe?

Uma delas é que crentes em Deus desejam a morte por diversos motivos, e isso não lhes faz inferiores nem fracos, não! Eu não lembro se tem mais algum exemplo na Bíblia de pessoas que desejaram a morte, deve ter, sim. Veja, porém, que esses três homens são exemplos de fé, citados por Jesus, inclusive.

São exemplos de fé, mas que, no momento de suas provações e aflições, desejaram amargamente a morte. Deitaram-se na rua da cidade, na caverna, sob a aboboreira… e ficaram esperando Deus findar,por meio da morte, o sofrimento deles.

Eu acredito que quem chega ao ponto de desejar a morte como saída é alguém muito forte, assim como Jó, como Elias e como Jonas. É que só deseja a morte quem está carregando um fardo muito pesado, de infâmia, de perseguição, de incompreensão.

Esses três homens de Deus têm mais uma coisa em comum, além do desejo da morte no momento mais árduo de suas provas: nenhum deles compreendia o amor de Deus, por mais que amassem a Deus e soubessem – como Jonas declara – que Deus é misericordioso e amoroso, muito mais do que qualquer pessoa possa imaginar!

Então, você gay, lésbica, travesti, transexual… que é cristão, tem todos os motivos para desejar a morte, sim!

Eu sei que o fardo que carregam é pesado demais, pois eu também carreguei por muito tempo, e ainda carrego às vezes, quando minha fé vacila um pouco.

Tem muitas razões para desejarmos o fim da nossa vida: é discurso ignorante e intolerante propagado em nome de Deus, é ódio proclamado na boca que deveria falar de amor, é rancor e juízo vindo do coração que deveria ter misericórdia…

Não, não é fácil e é natural você desejar a morte, muitas vezes em sua vida. Só não é natural você acreditar que, de fato, é a morte a saída.

A saída, a solução, está preparada desde a eternidade e se chama Cristo, o amor sem acepção, que te amou imensamente, mesmo que digam o contrário.

Eu testifico e garanto que, se em vez de ver a morte como uma saída, você passar a tentar compreender que Deus ama – e essa é a mensagem de Cristo! – você conseguirá sentir o amor de Deus dentro de si mesmo. Com isso, você não só deixará de desejar a morte como verá que a morte não tem mais nenhum sentido para você, porque o crente em Deus passa desta vida para a vida eterna! Não digo isto me referindo à vida que teremos na eternidade, mas na vida eterna que já começa aqui, nesta nossa vida terrena, pois as riquezas do reino de Deus – paz, regozijo, alegria e muitos sentimentos sublimes como esses – se desfrutam aqui também (ao menos àqueles que conseguem hoje mesmo entrar no paraíso de Deus, compreendendo Seu amor, podem desfrutar dessas virtudes e paz de espírito).

Sim, é a morte uma saída para o LGBT cristão: aquela morte que nos deu vida, aquela ressurreição que nos deu esperança, aquele Cristo que nos deu vida com Deus, vida com abundância. Porque nessa morte ficou demonstrado o quanto Deus nos ama, como somos [2].

Seja LGBT, mas seja cristão e viva com Deus, no paraíso de Deus aqui nesta vida terrena. As coisas melhorarão, pode ter certeza. Se quiser ter dúvida, duvide dos discursos que te fazem desejar a morte.

[1] Em Jó 6:8, muito conhecido, lê-se “Quem dera se cumprisse o meu desejo e Deus me desse o que eu espero”. Mas as pessoas que não leem a Bíblia param aí e muitas sequer entendem o desejo de jó. “Que Deus quisesse quebrantar-me … e acabasse comigo …” (Jó 6:9-10). [2] É importante entender que quem segue Cristo e crê na sua obra redentora anda como ele: em passos de amor, tolerância, misericórdia, respeito, compreensão, benevolência, humildade… se essas e outras virtudes semelhantes não fizerem parte da vida da pessoa, por mais que ela se esconda em padrões visíveis, ela ainda não compreendeu o Deus amoroso ao qual serve. Você que compreendeu, ame essas pessoas, como Cristo amou você.
 
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