#033: Posso buscar conhecimento fora da bíblia para compreender minha homossexualidade?

É comum ouvirmos, na Congregação Cristã no Brasil (CCB), que devemos rejeitar “leituras estranhas” no que se refere a compreender a vontade de Deus por meio de recursos que não sejam a própria Bíblia (ou os ensinamentos transmitidos na igreja). Por esse motivo, eu evitei buscar qualquer ajuda para me compreender afetiva e sexualmente, pois acreditava piamente no discurso de que a homossexualidade é a maior abominação de todas e que Deus não a tolera em hipótese alguma.

Rejeitei qualquer material secular. Porém vivi toda minha vida lendo avidamente a Bíblia. Sempre foi e ainda é um grande prazer me reunir com amigos ou com um e outro irmão para conversarmos sobre textos bíblicos.

O fato é que, a partir de minha leitura da Bíblia por meio da Bíblia, compreendi que o desejo de Deus é salvar a todas as pessoas [1] e “ressignifiquei” minha compreensão sobre predestinação. Depois, comecei a perceber o quanto eu era condicionado a ler a Bíblia enviesado à compreensão que fazem dela. Pior: direcionado à compreensão que fazem de versos isolados da Bíblia. Cria-se doutrinas, normas e condutas a partir de um pequeno trecho, com meia dúzia de palavras distorcidas e, não, não me refiro à homossexualidade necessariamente.

Um exemplo contextualizado com o que já falei: aquele trecho que diz “a letra mata, mas o espírito vivifica” juntamente do “examinais as escrituras” [2] são amplamente utilizados para afirmar: não se deve “estudar” a Bíblia, mas apenas examiná-la, porque a letra mata. Dito de outra maneira, e quem é da CCB entende muito bem: na igreja há a crença (não oficial, mas bastante inculcada e enraizada) de que não se deve ler a Bíblia como que querendo entendê-la de modo sistemático, estudando-a, mas apenas examiná-la para ver o que Deus, por seu Espírito, quer revelar.

(Eu não estou criticando nem duvidando de que Deus, por meio de um verso isolado, possa falar com alguém; eu seria hipócrita se fizesse isso, pois a mim mesmo foram dadas grandes libertações por meio da leitura de um verso bíblico.)

Por conta desse preconceito em relação às “leituras estranhas” eu jamais havia pesquisado conteúdos que explicassem a homossexualidade e a Bíblia, apenas acreditava no que ouvia por meio da igreja: “homossexualidade é pecado, está na Bíblia, acredite em meu discurso porque eu sou iluminado e detenho a correta e única interpretação das Escrituras!”.

Em certa ocasião, em 2016, li Romanos e Efésios e outros textos bíblicos que falam sobre a predestinação e percebi o imenso amor de Deus: predestinou Cristo para nossa salvação!

A partir dessa percepção, li Gênesis 19 e fiquei atônito por nunca ter percebido que esse texto nada tem a ver com a homossexualidade, mas, assim como Juízes 19, tem a ver com a violência ao estrangeiro e com a humilhação por meio do estrupo coletivo. Li Aos Romanos 1 e percebi que a depravação de que Paulo trata está, na verdade, mais relacionada à idolatria, ao culto sexual, assim como poderia estar em Levíticos 18 e 20 e como é sugerido em 1 Reis 14 e 22. Eu, enfim e graças a Deus, percebi que poderia haver uma interpretação que, assim como toda a Bíblia, estava pautada no amor e na misericórdia de Deus e não no pavor e no terror do inferno.

Continuei evitando “leituras estranhas”.

Por fim, há pouco mais de seis meses, encontrei um livro antigo, disponível em uma prateleira da empresa em que trabalho. Data de 1980 aproximadamente e explora a homossexualidade e a questão cultural e social a qual a Bíblia pode ter sido escrita. Hoje vi outro material: um vídeo de um gay católico resumindo, em 20 minutos, o que eu levei 28 anos para compreender, sozinho.

Ainda que eu aprendi que deveria rejeitar “leituras estranhas”, e ainda que eu tenha rejeitado tais leituras, eu cheguei à mesma percepção dessas pessoas com suas “leituras estranhas”!

Se eu tivesse buscado essa compreensão em materiais “seculares”, talvez eu pudesse ter sofrido menos tempo, talvez pudesse ter me compreendido antes… poderia ter rompido com o pavor do inferno e desfrutado o amor de Deus desde mais cedo!

Afinal, por que não podemos tentar nos compreender sob uma ótica de amor, de misericórdia e da graça de Cristo?

Por que os cristãos heterossexuais usam para si o Espírito misericordioso que vivifica e para nós, gays, a “letra” que mata e que tanto nos priva do amor de Deus (segundo a leitura que eles fazem das Escrituras)? Por que não se submetem, então, à mesma “letra”, às mesmas leis?

Por que não podemos nos espelhar no nosso próprio Senhor Jesus e ler a Bíblia como ele: com olhos de amor, com entendimento de misericórdia, pelo Espírito que vivifica e superando a letra, a dura lei, que mata?

Um diabo, tentando a Jesus, diz-lhe: Faz isso por que está escrito isso a teu respeito!

Jesus, armado do conhecimento das Escrituras, diz ao tentador: E também está escrito isso e isso, seu bobo!

Em outra ocasião, alguns hipócritas fariseus, tentando o Mestre, disseram-lhe: O que fazemos com essa mulher, que foi pega adulterando?

Jesus, armado das Escrituras e do amor de Deus, diz-lhes: Ora, santíssimos e piedosos, o que dizem as Escrituras?

Os santos hipócritas: Que ela seja apedrejada!

Jesus, conhecendo a todos e superando as Escrituras, diz-lhes: Pois bem, quem não tem pecados que cumpra essa lei e todas as outras!

Ninguém atirou pedras, pois o Espírito de Deus os acusou em amor e em defesa daquela mulher, embora tivessem o respaldo da letra que permitia que ela fosse apedrejada, sim.

E outra vez, a mesma classe de hipócritas diz ao Mestre: Você é ignorante? Não conhece as Escrituras e os ensinamentos? Não sabe que está escrito que se deve guardar os sábados?

Jesus, superando a letra que mata, justifica sua cura sabática dizendo-lhes: Pensem bem, queridos hipócritas, qual de vocês que não resgataria uma ovelha no sábado se ela caísse em um precipício?

Pensa bem, querido hipócrita, porque a você graça e misericórdia, perdão e salvação, e ao outro dureza e severidade, rancor e ódio, morte e condenação?

Acredito que devemos rejeitar as leituras e interpretações estranhas, sim! Devemos rejeitar tudo o que for estranho ao amor inefável de Cristo, que superou a malícia, a ignorância e a hipocrisia dos que se achavam sábios ou santos para demonstrar misericórdia aos que se sentiam abatidos e marginalizados, e para demonstrar amor e alívio aos oprimidos por um sistema religioso que discriminava em lugar de abraçar.

Graças a Deus que, por meio de Cristo, já não precisamos acreditar que somos odiados de Deus. Graças a Deus que nos deu seu Espírito, vivificante, e que nos guia em toda a verdade, de modo que, como está escrito, não precisamos ser ensinados por nenhuma pessoa [3], pois esse Espírito está em todos nós: um sentimento amoroso de Deus que ouve nosso clamor, enxuga nossas lágrimas dizendo que nos ama e direciona nossos passos, se o ouvirmos e nele crermos.

É como está escrito: Seja Deus verdadeiro e os homens mentirosos! [4]

Como diz Davi: Ainda que estejamos em erro, é melhor cair nas mãos de Deus, pois grande é sua misericórdia, do que nas mãos dos homens. [5]

Se no tempo da dura lei era melhor estar nas mãos de Deus, muito mais agora, em tempos da revelação de sua graça e de seu amor.

Acreditemos, portanto, em Deus e no seu amor, não nos homens e na sua incompreensão de Cristo.

[1] 1 Timóteo 2:4
[2] Trechos dos versos de II Coríntios 3:6 e João 5:39.
[3] 1 João 2:20
[4] Romanos 3:4
[5] 1 Crônicas 21:13


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#032: Há mais gays porque estamos no fim dos tempos?

Eu até comecei a frequentar os Cultos para Jovens [1] , logo que iniciaram, em 2017. Desisti muito rápido, eu sei. Já no segundo ou terceiro que participei. Era em minha cidade; um dos Anciães da cidade atendia; tudo ia bem. Sem muita interação, mas ia bem: cantamos alguns hinos, oramos, o irmão deu alguns conselhos…

Meu antigo Cooperador de Jovens – hoje Cooperador da Comum em que eu ainda sou Auxiliar de Jovens (embora pouco tenho frequentado as RJM  e há tempo que não congrego nos cultos oficiais de lá) – levantou, na frente do Ancião, pois precisava dizer algo. Precisava, sim. [2]

Eu me lembrava de que ele era bem rígido, e já fazia algum tempo que não congregava com ele. Imaginei que viria alguma doutrina “pesada”.

Temos de voltar a ser como antigamente – dizia ele.

Não entendi imediatamente, mas, enérgico e autoritário, ele prosseguiu: Temos de voltar a ser intolerantes com o pecado, como até mesmo o mundo era intolerante, antigamente.

Eu quis fingir não entender, mas não consegui imaginar outra coisa senão os “bons costumes” e a “boa moral” que, à força e hipocritamente, eram “defendidos” há algumas décadas. Não posso afirmar que ele se referia à ditadura. Não falou isso abertamente. Remeteu a um autoritarismo, com certeza.

Ele dizia que deveríamos voltar, nós cristãos, a ser intolerantes com o pecado.

Cristãos intolerantes.

Aos meus ouvidos soa incompreensível, mas deve fazer algum sentido para muitos, infelizmente.

Não julgo.

Até porque, por exemplo, a mim faz sentido “gay cristão” e sei que, para muitos, isso é uma grande incoerência.

— Temos de voltar a ser como antigamente – dizia ele. — Não tolerar o pecado.

Eu também sei que, para justificar essa intolerância “cristã”, alguns podem usar daquela máxima “ódio ao pecado, amor ao pecador”, mas, como eu já escrevi alguma vez, isso soa para mim como defender “odeiem os latidos, a baba, os pelos do cão, mas amem o cachorrinho”.

Incoerente, ao menos para mim e no que se refere ao homossexual.
Esse discurso de que antigamente tudo era melhor, de que o mundo vai de mal a pior… fica legitimado quando pessoas como esse Cooperador ou como minha mãe (que ainda não sabe que sou gay) veem tantos viados lindos desfilando de mãos dadas por aí.

É como ela disse, certa vez: o mundo vai de mal a pior, é o fim dos tempos mesmo!
– se referindo ao “aumento” “absurdo” de gays.

Não há sabedoria alguma em dizer que o mundo vai de mal a pior, ou em acreditar que antigamente as coisas eram melhores, ou em se apoiar em um saudosismo, na “lembrança” de tempos supostamente melhores que se foram ou na saudade do que, de fato, não se viveu.

É como está escrito:

Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta. (Eclesiastes 7:10)

O mundo não está pior, nem é evidência do “fim dos tempos” haver tantos homossexuais expostos à luz do dia.
Se há alguma evidência do fim dos tempos é o fato de o amor de muitos estar se esfriando, ao ponto de não conseguirem amar os próprios filhos por serem homossexuais, ou de pessoas ditas cristãs rejeitarem ter qualquer comunhão com uma pessoa de “boa índole” e de “testemunho impecável”, mas que “dá pinta”…

A evidência do fim dos tempos não é haver gays querendo ser, a todo custo, cristãos, mas em haver cristãos querendo ser, a todo custo e em nome de Cristo, intolerantes.

É como está escrito:

Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz; porventura não a percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no ermo. (Isaías 43:18-19)

Não tenhamos saudade dos tempos passados, nem acreditemos em discursos de que antigamente, quando nós gays éramos enrustidos e silenciados, as coisas eram melhores. Não há sabedoria nisto!

Acreditemos, porém, que a luz de Jesus brilha sobre nós também, pois Deus fez uma coisa nova, que não estava explícita antigamente; criou um caminho no deserto e rios no ermo, proclamando salvação onde (antigamente e ainda hoje) querem dizer: só há condenação. Criou um caminho que se chama amor de Deus por todos – Cristo. E todo aquele que trilhar esse Caminho será chamado filho de Deus, porque não há ninguém que ame e não seja nascido de Deus, ainda que seja homossexual e “dê pinta”.


[1] Os Cultos para Jovens, no interior de SP, tiveram início em 2017. São cultos voltados para os jovens, com caráter diferente das Reuniões de Mocidade e das Reuniões de Jovens e Menores (RJM).
[2] Cooperador de Jovens e Menores, Cooperadores e Anciães são cargos ministeriais, relativos, entre outras responsabilidades, à exortação da Palavra. São equivalentes, de maneira simplificada, ao cargo de Pastor em outras denominações.


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