#034: Posso ser meio viadinho?

4 de novembro de 2015, 22 h 37 min.

Jardim Lutfalla, São Carlos.

28 °C – Foi um dia quente!

Minha mãe está morando comigo, meu pai, em outra cidade devido ao trabalho.

Eu saúdo ela com “a Paz de Deus” e me tranco em meu quarto.

Visto uma camiseta surrada, pois mais confortável para dormir.

A calça do pijama é azul-claro, minha mãe quem coseu. Está calor, mas desde que me batizei só usava calças, mesmo para dormir!

Não vejo a rua, as janelas já estão fechadas. Sinto-me ranzinza. Há muitos anos que eu não consigo dizer “eu te amo” ou “eu te amo também”. Há anos que eu não consigo abraçar expressando meu amor. Minha mãe não recebe demonstrações de meu afeto.

Viado enrustido, eu inconscientemente assimilei que não poderia demonstrar carinho nem qualquer outro sentimento! Temia que, ao me abrir emocionalmente, descobrissem que eu era assim, “meio gayzinho”.

Embora eu fosse a pessoa mais calma do mundo, não tinha nenhuma paciência para manter uma conversa com as pessoas. Queria sempre fugir de qualquer pergunta. De perguntas sobre minha vida particular, ainda que eu não praticasse nada além do casa-igreja-casa.

A repressão era tamanha que eu não conseguia dizer “amo você” à pessoa que mais importa na minha vida. Minha mãe deixou de ouvir “amo você” a partir do momento em que eu entendi que eu gostava de homens e que isso era errado (segundo dizem aqueles que detém a verdade). Desde os 11 ou 12 anos. Reprimi-me absolutamente.

Eu estou bem. Mas, ao me lembrar disso, choro fortuitamente.

Como pôde “Deus” requerer que eu me reprimisse (pois parece que demonstrar ser gay é tão errado quanto sê-lo) ao ponto de, junto, reprimir o amor que eu sinto por minha mãe?

Como pôde “Deus” se alegrar de me ver congregando, domingo a domingo, em alguns dias três vezes, se isso era também uma fuga, uma maneira de me esquivar de mim mesmo e dos meus sentimentos, de me anular de tal modo a dissimular o carinho que eu sinto pelos meus familiares, por minhas avós, minha irmã, mãe… ?

[…]

4 de novembro de 2019, 22 h 24 min.

Bela Vista, São Paulo.

26 °C – Foi um dia quente.

Passeei pela av. Paulista com um gay, muito simpático, e pouco me importando com o que pensariam de mim se me vissem junto dele. No fundo no fundo, eu queria mesmo era que algum conhecido me visse.

Chego em casa. Olho pela janela e vejo a rua Augusta, maravilhosa. Está querendo chover e a lua, linda. Tiro a camiseta e visto uma bermuda leve, após o banho. Eu também me sinto leve.

Livre.

Meus amigos mais íntimos sabem que eu sou gay e foi um alívio lhes contar.

Há anos o irmão ancião Arquimedes dizia, em certa Reunião de Mocidade: Moço, se sua atração não é por moça, procure um profissional, um psicólogo.

Eu, há alguns poucos meses, comecei a fazer sessões remotas com um psicólogo do Rio. Há duas sessões, consegui perceber com mais clareza o que eu penso sobre o sexo. Na última, consegui perceber como eu me reconheço na igreja, ou melhor, como reconheço a igreja em minha vida.

Levei uma caneca com um coração de arco-íris escrito LOVE e a deixei no trabalho, sobre minha mesa (algumas pessoas de lá começavam a me instigar a “arrumar” uma namorada – como me frustra a presunção de que as pessoas são heterossexuais!).

Também comprei umas roupas mais justas, umas camisetas meio de viadinho, sabe? Embora, não, isso nada tem a ver com homossexualidade, foi com elas que alguns amigos começaram a me zoar, a perceber que eu estava “meio pra frente” e, a partir disso, eu comecei a “sair do armário” para eles.

Eu me sinto livre, me sinto mais leve, me sinto mais em paz… só com essa pequena “saidinha do armário” que já dei.

Eu também me sinto muito mais próximo de Deus. Sábado, por exemplo, acordei com uma questão, uma inquietação a respeito de um trecho bíblico. Senti de orar de joelhos, de olhos fechados etc. (porque minhas orações têm sido conversas com Deus em pensamentos, em qualquer momento do meu dia a dia, sem protocolos). Orei. Lembrei que o saudoso irmão Francescon teve a revelação sobre o batismo por imersão (que acarretou no rompimento dele com a igreja Presbiteriana a qual pertencia – sim, as pessoas rompem com a igreja quando não concordam com ela em algum ponto!) ao ler a Bíblia ajoelhado e fiz isso também. Peguei a minha, abri-a a esmo e li o livro de Jonas. Obtive respostas que me amainaram.

– Isso não é nenhum sinal de que Deus está contigo! – alguns fervorosos podem dizer, corretamente.

– Isso é bastante subjetivo! – outros poderão dizer, acertadamente.

– E daí? – digo.

A fé destes também é subjetiva!

Sinto-me livre e perto de Deus, com liberdade com Ele! Ponto.

Não só isso, pela segunda vez em menos de uma semana consegui dizer “mãe, amo você”.

Choro novamente.

Não posso acreditar que acreditei haver “Deus” na repressão que me condicionava a me anular fazendo-me amargo, áspero, sisudo e que me impedia dizer “amo você” àqueles a quem eu tanto amo.

Se é para amar, seja quem você é, mesmo que você seja bem viado!


Tags: gay cristão, gay ccb, homossexual, LGBT, lésbica, transexual, travesti, bissexual, homossexualidade, bissexualidade, transgênero, religião.

8 comentários sobre “#034: Posso ser meio viadinho?

  1. Lendo o seu texto me alegrei em ver a sua evolução espiritual e pessoal e que vc não deixou de ser vc mesmo, o mais importante disso tudo é vc e os demais gays cristãos nunca deixarem de amar o Senhor, porque Ele nos ama incondicionalmente, e tem nos dado prova desse amor sem importar com a nossa opção sexual, nunca esqueçamos que Deus é e sempre será Deus e o que o homem fala no púlpito ou fora dele devemos criamos uma blindagem porque nenhum homem morreu o morrera por ninguem no madeiro da cruz. Aprendamos a fingir demência e ignorar estas falas preconceituosas…

    Curtido por 1 pessoa

  2. Gentee que coisa linda! Amei muito esse texto… me identifiquei muito!
    Fiquei feliz com seu crescimento espiritual.
    Deus jamais nos deixará desamparados o amor que Ele tem por nós supera tudo!

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  3. Confesso que fiquei assustado, me identifiquei com muita coisa. Não dizer mais te amo, por exemplo. E ainda, quando minha mãe me diz, respondo ‘ama nada’ em tom de brincadeira. No fundo, não é. Sinto que realmente amam esse personagem que venho sendo, e não quem eu sou legitimamente. Parabéns pelo relato

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    • Oi, meu querido leitor!
      A identificaçãocom o relato demonstra que vc não está sozinho nessa. Mande email ou mensagem no instagram sempre que quiser conversar. Aliás, eu adoro ouvir a história de vcs leitores!
      Deus lhe abençoe imensamente.

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