#032: Há mais gays porque estamos no fim dos tempos?

Eu até comecei a frequentar os Cultos para Jovens [1] , logo que iniciaram, em 2017. Desisti muito rápido, eu sei. Já no segundo ou terceiro que participei. Era em minha cidade; um dos Anciães da cidade atendia; tudo ia bem. Sem muita interação, mas ia bem: cantamos alguns hinos, oramos, o irmão deu alguns conselhos…

Meu antigo Cooperador de Jovens – hoje Cooperador da Comum em que eu ainda sou Auxiliar de Jovens (embora pouco tenho frequentado as RJM  e há tempo que não congrego nos cultos oficiais de lá) – levantou, na frente do Ancião, pois precisava dizer algo. Precisava, sim. [2]

Eu me lembrava de que ele era bem rígido, e já fazia algum tempo que não congregava com ele. Imaginei que viria alguma doutrina “pesada”.

Temos de voltar a ser como antigamente – dizia ele.

Não entendi imediatamente, mas, enérgico e autoritário, ele prosseguiu: Temos de voltar a ser intolerantes com o pecado, como até mesmo o mundo era intolerante, antigamente.

Eu quis fingir não entender, mas não consegui imaginar outra coisa senão os “bons costumes” e a “boa moral” que, à força e hipocritamente, eram “defendidos” há algumas décadas. Não posso afirmar que ele se referia à ditadura. Não falou isso abertamente. Remeteu a um autoritarismo, com certeza.

Ele dizia que deveríamos voltar, nós cristãos, a ser intolerantes com o pecado.

Cristãos intolerantes.

Aos meus ouvidos soa incompreensível, mas deve fazer algum sentido para muitos, infelizmente.

Não julgo.

Até porque, por exemplo, a mim faz sentido “gay cristão” e sei que, para muitos, isso é uma grande incoerência.

— Temos de voltar a ser como antigamente – dizia ele. — Não tolerar o pecado.

Eu também sei que, para justificar essa intolerância “cristã”, alguns podem usar daquela máxima “ódio ao pecado, amor ao pecador”, mas, como eu já escrevi alguma vez, isso soa para mim como defender “odeiem os latidos, a baba, os pelos do cão, mas amem o cachorrinho”.

Incoerente, ao menos para mim e no que se refere ao homossexual.
Esse discurso de que antigamente tudo era melhor, de que o mundo vai de mal a pior… fica legitimado quando pessoas como esse Cooperador ou como minha mãe (que ainda não sabe que sou gay) veem tantos viados lindos desfilando de mãos dadas por aí.

É como ela disse, certa vez: o mundo vai de mal a pior, é o fim dos tempos mesmo!
– se referindo ao “aumento” “absurdo” de gays.

Não há sabedoria alguma em dizer que o mundo vai de mal a pior, ou em acreditar que antigamente as coisas eram melhores, ou em se apoiar em um saudosismo, na “lembrança” de tempos supostamente melhores que se foram ou na saudade do que, de fato, não se viveu.

É como está escrito:

Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta. (Eclesiastes 7:10)

O mundo não está pior, nem é evidência do “fim dos tempos” haver tantos homossexuais expostos à luz do dia.
Se há alguma evidência do fim dos tempos é o fato de o amor de muitos estar se esfriando, ao ponto de não conseguirem amar os próprios filhos por serem homossexuais, ou de pessoas ditas cristãs rejeitarem ter qualquer comunhão com uma pessoa de “boa índole” e de “testemunho impecável”, mas que “dá pinta”…

A evidência do fim dos tempos não é haver gays querendo ser, a todo custo, cristãos, mas em haver cristãos querendo ser, a todo custo e em nome de Cristo, intolerantes.

É como está escrito:

Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz; porventura não a percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no ermo. (Isaías 43:18-19)

Não tenhamos saudade dos tempos passados, nem acreditemos em discursos de que antigamente, quando nós gays éramos enrustidos e silenciados, as coisas eram melhores. Não há sabedoria nisto!

Acreditemos, porém, que a luz de Jesus brilha sobre nós também, pois Deus fez uma coisa nova, que não estava explícita antigamente; criou um caminho no deserto e rios no ermo, proclamando salvação onde (antigamente e ainda hoje) querem dizer: só há condenação. Criou um caminho que se chama amor de Deus por todos – Cristo. E todo aquele que trilhar esse Caminho será chamado filho de Deus, porque não há ninguém que ame e não seja nascido de Deus, ainda que seja homossexual e “dê pinta”.


[1] Os Cultos para Jovens, no interior de SP, tiveram início em 2017. São cultos voltados para os jovens, com caráter diferente das Reuniões de Mocidade e das Reuniões de Jovens e Menores (RJM).
[2] Cooperador de Jovens e Menores, Cooperadores e Anciães são cargos ministeriais, relativos, entre outras responsabilidades, à exortação da Palavra. São equivalentes, de maneira simplificada, ao cargo de Pastor em outras denominações.


Gay, lésbica, homossexual, LBGT, crente, cristão, evangélico, CCB, Congregação Cristã no Brasil.

#024: Gays, o pavor do inferno e o dom de línguas

Por muito tempo eu tive medo do inferno. Pavor. Enquanto criança nunca pensava sobre isso, mas, tão logo completei 12 anos, tive uma sequência de sonhos relativos ao fim do mundo apocalíptico que o inferno começou a me assombrar. Por isso, aos 12 anos fui batizado, pois, embora não compreendesse o Deus amor, tinha certeza de que eu não queria sofrer a danação eterna.

Depois, eu vivi 2 anos intensos, indo às visitas com mocidade, frequentando as RJM[1], orações na madrugada com meus cooperadores de jovens… Eu havia perdido o medo do inferno, e ainda não entendia o amor de Deus. Até então, eu não compreendia minha homoafetividade – que sempre esteve manifestada – e, muito menos, minha homossexualidade que começava a aflorar.

Contudo, por volta dos 14 anos – quando percebi que, de fato, minha atração não era àquela a que fui orientado, a “normal”, e quando minha sexualidade se manifestou mais intensamente – eu percebi que, sim, deveria temer o inferno. Passei a desacreditar da minha salvação. Toda vez que desejava homens[2], depois, eu caía aos prantos em oração e suplicava a Deus que não me condenasse, que não me deixasse ceder àquele sentimento.

Confesso que, nas minhas orações solitárias, sempre alcançava algum alento, algum conforto divino. Porém, como o sentimento homoafetivo é intrínseco, eu sempre retornava àquele estado de miséria espiritual: duvidava de que eu seria salvo, já que homossexual – ainda que não praticasse o ato em si, mentalmente o idealizava[3].

E isso foi um ciclo em minha vida: idealizava mentalmente situações de práticas homoafetivas, me achava indigno de ser salvo, caía em um desgosto profundo por não “agradar a Deus”[4], chorava aos pés de Deus rogando-lhe misericórdia e que me suportasse, encontrava consolo e sentia a virtude[5] e presença de Deus em mim, e logo idealizava práticas homoafetivas[6].

O que quero explicar é que eu só sentia a virtude quando me considerava um impuro, uma abominação, e chorava aos pés de Deus, clamando por sua misericórdia. Eu ainda temia o inferno e não entendia o amor de Deus por mim – ainda que, repetidas vezes, ele me dizia: Eu te amo.

Eu era muito fervoroso[7], chorava sempre na igreja, me alegrava e emocionava sentindo a presença de Deus, pois encontrava esse consolo de que eu seria salvo, sim, e as Palavras[8] me faziam compreender que Deus entendia minha condição natural e que me aceitava assim, como sou.

Em 2007, aos meus 19 anos, eu estava em uma RJM e senti a virtude muito fortemente. Na RJM da semana seguinte, Deus dizia: Semana passada você sentiu grandemente a virtude, e hoje você vai sentir ainda mais!

Confesso que eu não senti nada, definitivamente. Eu estava em paz e não senti a presença de Deus naquela RJM. Chegando em casa, porém, encontrei uma situação desagradável: uma pessoa estava possuída por um sentimento maligno e prestes a causar, mais uma vez, uma desgraça em nossa família.

Eu, então, comovido com a situação, comecei a chorar. Primeiro chorei de desespero, tentando evitar que minha irmã, ainda mocinha, percebesse aquela manifestação maligna, diabólica. Depois, comecei a chorar mais, mas um choro diferente, proveniente da alma, do coração. Foi quando eu comecei a falar em línguas[9] pela primeira vez. Eu falava em línguas e entendia algumas coisas que falava. Fisicamente eu era bem fraquinho, mas segurei aquele homem, que nos causava males emocionais, com tanta força que vi que não era minha. Falando em outra língua, eu o abracei e, depois de um tempo, ainda o abraçando e falando em línguas, aquele espírito contrário e maligno se ausentou. Houve paz.

Uma prima minha, que também estava em casa na ocasião e que há muito tempo não falava em línguas, depois, me abraçou e voltou a falar em línguas. Minha irmã, ao me abraçar, sentiu a visitação de Deus. Abraçado à minha mãe, que chegou depois e em grande desespero, anunciava-lhe em línguas e eu entendia a mensagem que eu lhe dizia.

Eu, gay, com medo e pavor do inferno, com dúvida da minha salvação (porque me sentia impuro por ser homossexual) recebi, naquele domingo, o dom de línguas e vi Deus fazer outras obras lindas.

Aquela força que recebi ao falar em línguas e sentir Deus bem de perto, durou alguns dias. Esqueci o pavor do inferno e tive paz por alguns dias. Depois disso, passei 9 meses sem falar em línguas novamente. Logo, o medo do inferno foi se manifestando. No fim daquele ano, em uma RJM, o cooperador de jovens durante a reunião, me apontou e disse a mim que abraçasse um moço, que era auxiliar de jovens junto comigo e que havia sido “selado”[10] com o dom de línguas fazia pouco tempo. Eu nunca gostei muito disso, confesso, mas o abracei e voltei a falar em línguas, pois senti a presença de Deus de maneira muito forte em mim.

A partir desse dia, eu falava em línguas mais constantemente. Agora, quando me sentia um verme, uma abominação, e orava a Deus, o consolo vinha com sua presença e com a manifestação do dom de línguas. E eu só manifestava esse dom quanto estava nesse estado espiritual de me achar indigno de salvação.

Alguns pensam que para falar em línguas tem que estar puro, ser santo e irrepreensível. Ou, ainda, que quem manifesta o dom de línguas está consagrado e perfeito diante de Deus. Minha experiência diz o contrário. Sempre que eu manifestei o dom de línguas (ou que eu sentia aquela paz e alívio espiritual) era no momento em que me percebia mais sujo, mais abominável, mais pecador.

De 2013 até 2015 eu fiquei sem manifestar o dom de línguas. Em 2015 manifestei poucas vezes, uma ou duas. Coincidentemente ou não, foi a época em que tive crises depressivas fortes e, também, a época em que eu estive mais distante de Deus – ainda que, semanalmente, eu ia à igreja mais de quatro vezes, pouco meditava nele e em seu amor.

Em 2016, um pouco antes de iniciar o blog, e quase que imediatamente após me entender e me aceitar gay, eu comecei a sentir a presença de Deus de uma maneira muito intensa e a todo o tempo. Aquela paz que eu sentia apenas por alguns instantes enquanto falava em línguas ou um pouco depois de haver falado – às vezes algumas horas, outras um ou dois dias –, passou a ser constante em minha vida. Aquele medo e pavor do inferno, de ser condenado por ser “imperfeito”, também se esvaneceram.

Eu passei a sentir aquelas virtudes – que eram momentâneas e apenas em situações de miséria espiritual, quando me sentia um verme – o tempo todo. Todo dia. Em situações inesperadas[11]. Fora da igreja. Eu deixei de me sentir um cão miserável e passei a me sentir amado por Deus. Isso trouxe-me uma enorme paz. Deu-me certeza de salvação, não por qualquer mérito meu[12], mas por exclusivo mérito de Cristo.

Hoje, eu falar em línguas não se faz tão necessário (ainda que acho uma linda manifestação), pois acredito que a finalidade deste dom, na minha vida, era me dar paz. Eu estou em paz em relação à minha salvação. Eu estou certo de que Cristo me salvou. Eu já não duvido do poder de Cristo para me salvar e o amo intensamente por fazer isso sem que eu mereça, sem que ninguém mereça.

Sim, gays falam em línguas, e são participantes de todos os dons do Espírito Santo. Quero, contudo, que saibam que nem todos falarão em línguas. E, ainda, que não falar em línguas não significa não ser selado com o Espírito. Todos que cremos em Cristo como nossa salvação somos selados pelo Espírito para nossa redenção!

Aos gays cristãos e a todos que estão com duras cargas, devido à incerteza de salvação, proponho que, em lugar de buscar este ou aquele dom, busquem a compreensão de que a salvação se recebe exclusivamente por meio do mérito de Cristo. Quando conseguirem entender isto, alcançarão uma paz e certeza de salvação que mal nenhuma chegará a tenda dos corações de vocês: estarão no reino de Deus, no “paraíso”, ainda nesta vida terrena!

Busquem os dons de Deus, sim, mas procurem aquele caminho mais excelente: o amor fraternal e incondicional como o de Cristo.

Texto escrito em resposta a um pedido anônimo que recebi no blog.

[1] Reunião de Jovens e Menores é uma reunião da Congregação Cristã no Brasil, geralmente realizada nos domingos de manhã, exclusiva às crianças e jovens.
[2] Um eufemismo para a prática da masturbação.
[3] Idem. Masturbação é um tabu.
[4] Ou seria “aos homens”?
[5] A virtude é a manifestação da presença de Deus dentro de si. Comumente, relacionada a uma emoção (choro, alegria etc.) e, ao meu entender, tem finalidade de animar, dar forças espirituais ou fazer crer estar ligado com Deus.
[6] Esse ciclo se perpetuou por 14 anos, fui liberto apenas aos 28 anos – quando, então, comecei a os textos do blog.
[7] Fervoroso é alguém que sente a presença de Deus facilmente, ao menos é nesse sentido que usei o termo.
[8] Palavra na Congregação Cristã no Brasil (CCB) é a exortação de uma passagem da Bíblia, o discurso dos pregadores, que entendemos ser inspirado por Deus – ao menos deveria ser.
[9] Falar em línguas ou o dom de línguas é uma manifestação do Espírito Santo que faz com que a pessoa, sem saber, fale em outras línguas. Em minha cidade, no interior de São Paulo, há um irmão indouto, sem estudo, e que recebeu o dom de línguas em inglês arcaico – entende-se o que ele fala. Não se trata apenas de sons inteligíveis como alguns pensam. Há de se considerar que, sim, há imitações desse dom, tanto na CCB como em outras denominações e que acabam por o banalizar. Há outras manifestações, como interpretar outras línguas, expulsar demônios, curar enfermidades…, mas a maior manifestação é o amor fraternal e incondicional.
[10] É comum dizermos “ser selado pelo Espírito Santo” para se referenciar a alguém que fala em línguas. Ser selado, entretanto, é algo mais amplo e todo o cristão, todo crente em Deus, é selado (ainda que não fale em línguas).
[11] Como descrevi no texto 21 do blog http://www.tbsoucristao.blogspot.com
[12]Entenda, ninguém merece, nem nunca merecerá, o “céu”. O estado de paz que alcança quem entra no reino de Deus não é por nenhum mérito, mas por graça. É um favor, porque ninguém merecia isso. Cada um de nós somos ruins o suficiente para entrarmos no “céu”, mas somos justificados por Cristo, que é justo e justificador. Nenhum esforço próprio nosso pode nos colocar no “céu” e é por isso que precisamos entender e aceitar que o mérito é de Cristo. Isso não significa que podemos “deitar e rolar” no que é imoral (como desafetos, inimizades, porfias, malignidades e outros frutos do desamor), mas que quando pecarmos teremos um advogado que intercede por nós e ao nosso favor: Cristo. Se dissermos que não pecamos, tornamos Cristo mentiroso – e nos fazemos hipócritas.

Tags: LGBT, lésbica, gays, homossexual, homossexualidade, cristão, crente, CCB

#021: Gays e anjos

Eu fui batizado aos 12 anos. Batizei-me, pois senti a virtude pela primeira vez e não resisti. Sentia que eu precisava me batizar, pedi como sinal um hino que não tocou antes do batismo, mas tão logo saí das águas.
Não muito tempo depois, poucos meses, eu voltava da igreja a pé com minha mãe e uma dúvida enorme, um medo e pavor de ser condenado – por pensar que eu poderia não permanecer na fé devido aos meus sentimentos – me assombravam. O culto havia sido maravilhoso, mas eu não tinha certeza da minha salvação. Como criança que eu ainda era, pedi um sinal. Com o pensamento em Deus eu meditei: “Se eu serei salvo, se Tu me ama, permita que ainda esta noite eu veja um cometa“. Ao mesmo tempo que pensava eu me propunha ficar a noite acordado olhando para as estrelas a fim de ver se receberia esse sinal, se eu veria algum cometa. Porém, instantaneamente avistei o risco de um no céu. Eu contive a alegria.
Infelizmente a gente não fica criança a vida toda e as lutas vão se transformando. Aceitei-me gay, gay cristão. Fiz o blog, comuniquei-me com outros moços e moças LGBTs. Tentei ajudar alguns a se entenderem e a me entender também. E novamente uma dúvida me amedrontava: estaria indo contra os preceitos de Deus?
Com esse medo, e pensando em recuar com tudo o que eu já havia feito, em janeiro de 2018 pedi um sinal. Havia perdido minha carteira na segunda-feira no final da tarde, em São Paulo, numa rua movimentada e cheia de andarilhos e, na manhã da terça-feira seguinte eu senti a falta dela. Voltando ao mercado (onde eu a havia usado pela última vez) pedi: “Senhor, sei que não mereço e que sou indigno de pedir qualquer coisa, mas se eu de fato não estou lutando contra sua Obra, permita que eu encontre essa carteira antes de entrar no serviço”. Não a achei. Fui para a empresa e, ao entrar na recepção o telefone tocou e era alguém me procurando: haviam encontrado minha carteira e queriam devolvê-la. Um homem, com roupa surrada, uma enorme mochila nas costas veio trazê-la a mim, na porta da empresa, tendo a encontrado cerca de 2 km dali. “Deus é comigo!”, entendi.
Que fraco que sou. Poucos dias depois eu desfaleci nessa fé. Em fevereiro eu conversava com uma moça lésbica da CCB e lhe dava alguns conselhos. Mas os conselhos que eu havia dado não eram bem aqueles que ela ouviria na igreja. Eu me atribulei por isso e pensei: como é que eu posso estar indo tão contra o discurso que eu aprendi ser o certo?
Eu não lhe dizia que ela poderia se relacionar como e com quem bem quisesse, mas afirmava que Deus a amava como ela era, e que não precisaria mudar seus sentimentos para ser aceita.
Eu também estava querendo namorar, o que seria uma ruptura muito grande em minha vida, pois se quer era assumido.
Ela e eu, segundo tudo o que aprendi em quase 30 anos, deveríamos mudar nossas vidas, nossas atitudes, nossas opções sentimentais (como se fosse possível). Deveríamos mudar para estarmos no padrão que, dizem, Deus determinou.
Realmente fiquei bastante preocupado com o que eu havia dito e pensei, não muito refletidamente, que deveria parar com todo esse discurso que vai de encontro com o que eu aprendi na igreja: Será que eu realmente deveria me enquadrar, deveria rejeitar meus sentimentos?
Fui aonde eu deveria ir (já com duas semanas de atraso) e, ao sair daquele estabelecimento, um homem no portão, com roupa surrada e sem olhar para mim, assim que fiquei de costas a ele, disse-me: Você é evangélico, né?
Se ele tivesse falado qualquer outra coisa eu não teria dado muita atenção, talvez lhe desse alguma moeda, no máximo (embora eu não tivesse nenhuma). Mas, por um instante eu pensei em toda minha vida cristã e não soube responder, a mim mesmo, aquela pergunta tão difícil.
Não tinha certeza se eu era “evangélico”, eu não me sentia enquadrado em nenhuma igreja. Sinto-me bem e tenho apreço pela Congregação. Contudo, eu não sabia dizer se era “evangélico” ou não, porque me sentia diferente, já que tantas vezes ouvi dizer “gay é abominação”. 
Timidamente, respondi: Sim. 
E, então, ele pediu que eu lhe fizesse uma oração, ao que perguntei sem entender: Aqui?
Confesso que se ele me pedisse que fosse ali eu faria a oração, sim. Ele, no entanto, disse coisas que me fizeram chorar, que me emocionaram: “Você é da Congregação, né? Estou aqui em São Paulo há 14 dias e hoje vim aqui, nesse portão, nem sei o que é aqui. Já era para você ter vindo aqui bem antes, né? Mas você não sabe porque deixou para vir apenas hoje! Você tem um brilho diferente. Não muda. Não muda!”.
Eu não acredito muito que ele fosse um anjo celestial, mas todas as circunstâncias me fazem crer que, sim, ele foi um anjo, um mensageiro de Deus. E a mensagem que ele me trouxe foi: Não mude.
Ele disse isso quando qualquer pessoa cristã tradicional, a quem eu expusesse minha vida, minha sexualidade, me diria: “muda, se prive” ou “volte atrás e pare com tudo isso, fique quieto em seu canto que quem sabe Deus terá misericórdia de você!” etc.
Contudo, “Deus é comigo!”, eu entendi.
Eu ainda não tenho respostas, mas creio nos sinais, nas pequenas coisas que Deus faz e move para me fazer saber que sou por aceito Ele e que tudo está sob as ordens dele.
Preciso, entretanto, lembrar-me que não devo mudar, jamais, pois devo amar a Deus e a todas as pessoas, sentimento e virtude que senti naquele dia ao ser abraçado por aquele anjo.
— 
Leia também o texto 4: Um anjo de Deus em minha vida
https://tbsoucristao.blogspot.com.br/2017/06/um-anjo-de-deus-em-minha-vida.html


#004: Um anjo de Deus em minha vida.

Desde meus 17/18 anos moro fora da minha cidade natal. Mudei-me para estudar, e há 11 anos moro fora, embora sempre estou em minha cidade natal e minha comum congregação também seja ali. 
Eu havia acabado de me oficializar como violinista, mas logo no início de 2009, eu ia até a rodoviária da cidade onde estudava para embarcar no ônibus para ir à minha cidade natal, congregar, num sábado. Saindo da rodoviária, do ônibus vi um moço por quem me afeiçoei e, a partir daí, fui chorando e “reclamando” com o Senhor, pelo fato de eu ser diferente dos demais irmãos, por desejar “coisas” diferentes, por (embora ter um testemunho impecável aos olhos de todos) sentir aquilo que (aos olhos de muitos, senão todos) era a maior abominação imaginável.

Eu queria, durante todo aquele trajeto, desistir de ser músico e pensava comigo que seria bom se eu fosse à igreja apenas para congregar, sentar no último banco sem ser visto nem percebido por ninguém. Esse era meu desejo, me tornar invisível em lugar de um “moço exemplar” (como até hoje sou visto, já que ainda ninguém sabe sobre minha homoafetividade).

Desci do ônibus, ao chegar na rodoviária da cidade vizinha à minha (eu precisava fazer baldeação), com o propósito de parar de tocar e de me tornar o mais invisível possível.  Enquanto eu esperava para pegar a mala do bagageiro, em frações de segundos, alguém (um homem ou um irmão, não sei) passou por mim, tocou em meu ombro e, sem parar de andar, disse apenas estas palavras “Músico do Senhor Jesus!”. Ele entrou rapidamente no ônibus sem entregar passagem alguma, e dizendo algo como que em línguas (ao menos não consegui discernir o que ele falava e, tão pouco, ver o rosto dele).
Eu nunca poderei contar este testemunho na igreja. Também não posso afirmar que foi um anjo (embora eu creio muito nisso). Mas, instantaneamente, senti a virtude, uma alegria bastante grande, tive que me conter para não falar em línguas, e também para não chorar ali em meio às pessoas que transitavam entre os ônibus.

Isso me deu forças de modo que nunca parei de tocar. Também ensinei a música a diversos irmãos, encaminhei para a oficialização musical alguns deles. Cresci na graça e conhecimento do Senhor e do mistério de Cristo.

Deus já falou inúmeras vezes, “cara a cara”, pela Palavra comigo a este respeito. Em nenhuma delas me lançou fora, ao contrário, sempre me abraçou e, embora demorei para entender, sempre me mostra que há um propósito!
Deus tem um propósito muito grande, um plano de salvação muito maior do que o que podemos imaginar. Não critico os irmãos por não compreenderem, entre tantas coisas, a homoafetividade (ou homossexualidade). Mas creio que a diversidade (não apenas em relação à sexualidade, mas toda a diversidade, inclusive de crenças e pensamentos) faz parte de um propósito divino. Afinal, se todo o corpo fosse olho, onde estaria a audição? E se todo o corpo fosse ouvido, como enxergaríamos? 
Precisamos aprender a ser tolerantes, e a amar o que é diferente de nós. Assim, um dia, poderemos desfrutar, em plenitude, o amor infindável de Deus.


Tags: CCB; gay; homossexual; homoafetivo; cristão; crente; Congregação Cristã no Brasil; homo ccb.