#028: Gays reconciliados em Cristo

Eu sei que para alguns são apenas coincidências, para outros a prova efetiva de que Deus fala conosco. Logo que me batizei, por exemplo, e já com meus quase 13 anos, após um culto, voltando a pé para casa com minha mãe e irmã, propus no meu íntimo que Deus me desse um sinal de que era na minha (emocionalmente conturbada) vida: pedi que, ainda naquela noite, eu visse uma “estrela cadente”. Eu pretendia ficar acordado até tarde da noite observando o céu, mas, assim que firmei esse propósito em meu coração, prontamente, uma estrela desenhou um breve risco no céu. Talvez, apenas uma pequena coincidência, para meu coração, grande alívio.

Já faz quase 19 anos que me batizei, e por um bom tempo coincidências assim têm me ajudado a acreditar que, de algum modo, Deus estava no meu caminho.

Eu não tenho propriedade para afirmar que algo é ou não pecado, nem para afirmar que alguma prática pode ou não lançar, decisiva e definitivamente, no “inferno”. Quem é que pode afirmar algo assim? Quem pode afirmar que algo pode separar do amor de Cristo? Ninguém!

Eu poderia dizer: está claro na Bíblia que os adúlteros não herdarão o reino de Deus! – e, por isso, poderia tentar afirmar que quem comete adultério será lançado no “lago de fogo e enxofre”. Porém, também está escrito: quanto aos adúlteros, Deus os julgará.

Não quero dizer (tão pouco acredito) que seja uma atitude cristã, no sentido de amar a Cristo, viver adulterando à espera de um juízo brando de Deus. Só quero dizer que não está escrito “Quanto aos adúlteros, Deus os condenará”, antes que “Deus os julgará”.

Eu não posso dizer a ninguém: ser homossexual não é pecado. Também não posso dizer: Deus não abomina um casamento entre homossexuais. Tenho convicção dessas duas afirmações, com base em interpretações da Bíblia, como tento expor em meus textos – e como foi difícil chegar a essas compreensões: foram 28 anos pensando estritamente semelhante ao que aprendemos na [1]Congregação!, e foi relendo sobre predestinação (em Efésios, Romanos etc.) que pude compreender que Cristo é nossa predestinação e que nele não há judeu nem grego, não há heterossexual nem homossexual…, mas ele é tudo em todos!

Já tive muitos sinais (que poderiam também ser entendidos como coincidências) sendo [2]auxiliar de jovens e menores, quer em [3]visitas com a mocidade, quer em [4]Reuniões de Jovens e Menores… Nos últimos dois anos tenho tentado me afastar um pouco desse cargo, em parte devido à correria do trabalho e do dia a dia, mas também por não me achar digno dele, já que minha compreensão (não só, mas principalmente) quanto à homossexualidade diverge daquela implícita nos discursos e conselhos que ouvimos nos diversos serviços realizados na CCB.

Mesmo acreditando que a homossexualidade (até mesmo “na prática”), não seja pecado (embora eu não possa comprovar isso a ninguém!), quando vou aos cultos e, em especial, às RJM, minha [5]oração de comunhão sempre foi algo muito simples, também muito profundo, como: Senhor, me perdoa, sou pecador.

Hoje o peso que recai em mim nem é o fato de eu ser homossexual, mas o de ser homossexual e estar com um cargo em uma Igreja que não aceita (porque não consegue ou não quer entender) a homossexualidade como natural. Essa minha oração poderia, então, ser entendida como: sou pecador diante desta igreja, me perdoe, Senhor. Ou como: Senhor, estou em paz contigo, mas em breve não estarei com esses irmãos, tão logo souberem sobre minha sexualidade, perdoa-me escandalizá-los.

Na última RJM que fui, eu tinha certeza de que não deveria estar ali com a mocidade, tive certeza de que não deveria ter liberdade alguma na igreja, e receei [6]recitar. No entanto, ao receber o verso (Salmos 25:11) e abrir a Bíblia para conferir o texto, li: Por amor do teu nome, Senhor, perdoa a minha iniquidade, pois é grande.

Era exatamente minha oração. Coincidência, claro. Motivou-me, no entanto. Recitei.

É a minha oração e, para mim, homossexual que sou, a “iniquidade” que me veio à mente, no mesmo instante, claro, foi a minha homossexualidade. Não por acreditar estar desagradando a Deus por ser gay (não creio nisso, não mais!), mas por estar fora do padrão compreendido pela igreja como o “único aceito por Deus”.

Pergunto-me se fosse algum heterossexual que tivesse recebido esse verso, qual seria a iniquidade que viria à mente dele? Por que assumimos, nós homossexuais, que nossa sexualidade (natural e intrínseca!) é um pecado, uma abominação? Realmente acreditamos nisso ou fomos condicionados a acreditar? Nos sentimos assim, excluídos do Amor de Cristo, quando Deus nos “visita” e nos dá “sinais”? Nos sentimos rejeitados quando Deus fala, dentro de nós, “te amo”? E se nos sentimos (ao menos eu me senti diversas vezes e ainda sinto) amados por Deus, porque damos mais crédito ao que nos dizem (aberração! abominação! escândalo!) do que ao que Deus insistentemente nos afirma em Cristo (eu amo você! eu amo você! eu amo você!).

É claro que alguns vão dizer: Ele te ama, sim, mas somente se você…

Não! O evangelho não tem “se”! Temos de aprender isso ou anularemos a Graça de Deus e tornaremos em vão todo o vitupério de Cristo!

Deus prova o seu amor para conosco porque Cristo morreu por nós, mesmo nós ainda sendo pecadores e, agora, somos justificados pelo Seu sangue (conforme Romanos 5). Todas as pessoas são pecadoras, e isso não tem a ver com sexualidade. Não éramos justos (e nunca teremos condições de ser), mas por meio da Sua boa notícia de amor, ele pôde nos justificar!
É isso o evangelho de Cristo: o amor incondicional de Deus que nos amou primeiro, mesmo que nenhuma pessoa merecesse! Não existe salvação por mérito, a não ser por mérito de Cristo. Não há nada que possamos fazer para pagar nossa salvação: ela é de graça e por graça! 
Todavia, quando recebemos algo impagável e de graça, tudo que podemos fazer é sermos imensamente gratos e agradar àquele que nos agraciou. Logo, se cremos haver recebido misericórdia, resta-nos sermos misericordiosos e se cremos seguir um mestre chamado Amor Perfeito, amorosos.

Aqueles que andam odiosos, rancorosos, querendo empregar o reino de Deus apenas aos que se dizem “perfeitos” (e não são, mas mentem), na verdade, sequer entraram nesse reino, pois pouco entenderam do Amor Predestinado, Cristo. Não entram, e tentam impedir que outros entrem. Se, de fato, nós cremos em Cristo como justo e justificador e, por isso, temos condição de entrar no reino de amor, no reino dos céus, no reino de Deus… demonstremos toda a gratidão que temos pela obra redentora de Cristo e, como Ele fez, amemos a todos sem distinção, oferecendo misericórdia e perdão, tal como recebemos.

Deus amou o mundo (todo o mundo!) de tal maneira que enviou seu Filho, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna, assim, Deus enviou a salvação, não a condenação (João 3:16-17). Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não levando em conta as transgressões das pessoas, e nos encarregou da mensagem da reconciliação (1 Coríntios 5:19).

Não há nenhuma coincidência em Cristo haver padecido por todos nós!

Novo e-mail: tambemsoucristao@gmail.com
Instagram: @tambemsoucristao_gaycb
[1] Congregação Cristã no Brasil (CCB), igreja tradicional evangélica. Site oficial: congregacaocristanobrasil.org.br
[2] Jovem solteiro que auxilia nas Reuniões de Jovens e Menores, e tem cuidado pelas crianças e demais jovens visando agregá-los e, de algum modo, orientá-los fazendo uma ponte com o Cooperador de Jovens e Menores (o equivalente ao “Pastor” de outras denominações e que é responsável pelas crianças e jovens de uma determinada localidade).
[3] Reuniões de moços e moças da CCB, acompanhados de Cooperadores de Jovens e Menores, que se faz na casa de uma pessoa com intuito de cantar Hinos e de orar.
[4] Reuniões de Jovens e Menores (RJM), como o nome já diz, são reuniões com crianças e jovens solteiros, geralmente realizadas aos Domingos pela manhã.
[5] Oração particular que se faz ao chegar na igreja, sempre em silêncio e para meditação com Deus (“comunhão”) elevando apenas o pensamento em oração (não se pronuncia palavras audíveis).
[6] Nas RJM cada criança e jovem solteiro tem liberdade de recitar um verso da Bíblia, todos recitam em conjunto um verso de um mesmo capítulo, fazendo uma sequência de recitativos.
TAGS: CCB, Congregação Cristã no Brasil, LGBT, gay, lésbica, assexual, transexual, cristão.

#026: Um gay pode confiar que também é salvo?

Após me compreender e me aceitar como gay (e inicialmente isso significou pretender abandonar a fé – eu já não suportava me reprimir nem me enganar e, até então, acreditava que só poderia ser crente em Deus se me reprimisse) um sentimento de culpa e medo, pavor, me sondou por mais alguns meses. Eu sempre tive o costume de anotar algumas Palavras[1] e, há pouco, lia algumas dessas minhas anotações. Relembrei que a certeza de salvação que hoje tenho foi confirmada, não poucas vezes, em pregações.

Não é que eu não vacile na fé. Não é que eu não me questione se meus passos têm “agradado” a Deus. Essa certeza de salvação significa que sei que em Cristo, e só por ele, sou amado por Deus.

Transcrevo, a seguir, uma pregação que Deus deu a um irmão ancião, em um culto no interior de São Paulo, em abril de 2017, a respeito da leitura de Atos capítulo 27, e que falou muito comigo em um dia de grande incerteza, de turbulência espiritual em que me encontrava por me haver aceito gay. Relendo essa pregação senti conforto, e espero que ela possa confortar alguns outros corações.

” […]
Mesmo que você se sinta como aprisionado [em algum sentimento], fale da Palavra de Deus! Você chegará onde o Senhor te prometeu, ainda que tenha de remar contra o vento. Ninguém que o Senhor ama morrerá, mesmo que tenha que ir à nado, ou segurando em alguma coisa frágil.
[…] Sua visão está turva e faz tempo que você não vê com clareza, mas você passará a enxergar com nitidez.
Parece que está tudo errado, você diz que o Senhor não pode estar na sua vida, mas isso que você passa é justamente para que você e os outros vejam que Deus está na sua vida, sim!
O vento parece forte, você sente sua vida abalada por algumas situações, mas elas não te destruirão e nada tirará seu objetivo de servir a Deus.
Você gostaria que tudo desse “certo”, mas tudo parece estar errado [2]; saiba que o Senhor está na sua vida e que nada de mal vai acontecer a você.
Parece que algo [de ruim] acontecerá, mas coma [da Palavra] porque o que você tiver que fazer você fará e nada deste mundo vai te impedir de chegar onde você precisa chegar!
Você não é capaz, mas Deus pode parar essa tempestade. O vento passou na sua vida e tirou algo de que você gosta, mas agora Deus começa uma construção nova e a consertar o que o vento destruiu. E o que falta, Deus vai trazer.
Tem coisas quebradas que só Deus conserta, mas ele conserta. Fique firme na fé em Deus, porque ainda que você quebrou algo, não quebre a fé e esperança de entrar no céu.
[…]
Você precisa chegar na terra onde tenha firmeza, mas está chegando o tempo em que você terá essa firmeza. Não desista, fique nesse intento e nesse desejo, se é o de servir melhor a Deus, de ir para o céu […].
Você não consegue dominar alguma coisa, assim como o vento também era mais forte do que o navio [em que se encontrava Paulo], mas dentro de você tem o que é mais forte que o adversário.
Você tenta e se esforça, mas não tem mais forças. Hoje Deus pega na sua mão e te ajuda a remar. Você clamou e buscou, bateu e nada aconteceu, [e disse:] “Mesmo me esforçando não dá! Senhor, não consigo mais!”, mas Deus está na sua vida. Não fique temeroso porque Deus puxa sua mão para que você chegue ao porto [da salvação].
Tem coisas que o Senhor preparou para você, que você precisa anunciar.
Há muitos ventos contrários que te levam para onde você não quer ir, mas o vento do Espírito Santo entrará na tua vida e, então, trará firmeza, certeza, segurança, novidade.
O Senhor renovará tuas forças, teu ânimo. Tua “vida” não afundou, o Senhor é contigo, tenha bom ânimo. Continue clamando a Ele.
O Senhor te diz: Não quero que ninguém pereça, mas que tenha a vida.
O Senhor renovará tudo na tua vida. Quando passa a tempestade vem o renovo e logo tudo está consertado.
[…]”

Ressalto que “os ventos contrários” não significaram minha sexualidade, mas a “tempestade” era minha dúvida do amor de Deus por mim (era isso, e não minha sexualidade, que me fazia desanimar na fé) e minhas frustrações por não conseguir mudar a minha própria natureza homossexual. Hoje já não duvido, e tenho a firmeza na fé prometida por meio dessa e de outras pregações.

Eu continuo remando contra o vento, indo de encontro a muitas coisas que aprendi e que acreditei piamente serem verdades. Estou segurado em frágeis destroços da embarcação em que eu estava e em que me sentia confortável, é verdade. Porém, em meio às turbulências, posso dizer que vejo com clareza que Deus é muito mais amor do que qualquer pessoa possa ter imaginado: enxergo o porto da minha salvação.

Quem tem ouvidos, ouça: Deus nos ama, e não quer que ninguém pereça na fé, mas que todos vivam na certeza da salvação.

É possível ser salvo, mesmo remando contra o vento, mesmo diante dos preconceitos devido à falta de conhecimento dos irmãos. Não é fácil nem confortável, mas possível e com destino seguro: o porto desejado, a nossa salvação.


[1] Palavra é a pregação, exortação de um trecho da Bíblia com uma mensagem ao ouvinte.
[2] Na ocasião, eu ainda desejava de algum modo ser “normal”, pois ser gay ainda me soava como “absurdamente errado”.

#025: A morte é uma saída para o gay cristão?

Acredito que mesmo os LGBTs que não frequentam a igreja desde pequenos sofreram ou sofrem com o preconceito “divinalizado”. Tudo que ouvimos, todos os discursos homofóbicos, de discriminação, de desprezo, de ódio… todos têm a ver, de algum modo, com a crença (fundamentada em fundamentos rasos e leituras superficiais da Bíblia) de que homossexualidade é uma abominação, categoricamente rejeitada por Deus, ou de que no céu não haverá homossexuais […].

Qual é a saída para o gay cristão? Eu sei que muitas vezes a morte parece ser. Vou falar um pouco sobre isso com exemplos de casos de homens de Deus que desejaram a morte.

Havia um homem, na terra de Uz, cujo nome era Jó. Ele era rico, reto e temente a Deus, mas, no decorrer de sua vida, o acusador questionou a retidão de Jó com o seguinte argumento: ele tem tudo para servir a Deus, assim é muito fácil!

Que pensamento raso desse acusador!

Bem, Jó então perdeu tudo, absolutamente – exceto a vida, o bem mais precioso. Seus amigos, sem compreenderem o que estava acontecendo na vida de Jó – nem mesmo este entendia! – começaram a dizer: Jó, onde é que você pecou para tudo isso acontecer em sua vida?

Jó sabia que amava a Deus demasiadamente e não encontrava razões para aquela condenação aparentemente divina – parecida com aquela acusação que fazem aos gays, não?

Afinal, por que Deus colocaria Jó naquelas condições?

Mesmo Jó sabendo do amor absoluto que tinha por Deus, de tanto ser acusado por seus amigos, acreditou estar em pecado e, com isso, desejou a morte. Desejou que o dia do seu nascimento nunca tivesse existido. A morte parecia a melhor saída para aquele caro servo de Deus do qual todos diziam: ele pecou gravemente.

Ele desejou e pediu a Deus:

Ah! Quem me dera que Deus me desse o que eu espero e cumprisse o desejo do meu coração!

Não, Deus não cumpriu o desejo do coração de Jó, porque o que ele desejava era a morte [1], e Deus tinha uma sorte diferente e muito melhor para esse justo e bondoso homem.

Teve outro homem de Deus do passado chamado Elias. Este profeta amava tanto ao Deus único e de amor supremo! (um Deus completamente diferente dos deuses pagãos, idealizados pelos homens que acreditavam que o divino era exatamente como o humano e, por isso, esses chamados deuses aceitavam as mais terríveis abominações, como o sacrifício de humanos). Elias amava tanto a Deus que combateu sozinho centenas de profetas do chamado deus Baal.

Elias foi vitorioso, pois Deus lhe deu um maravilhoso sinal aos olhos de todos: fogo desceu do céu e consumiu toda a oferta de Elias.

A opressão, contudo, era tanta que Elias fugiu. O profeta amado por Deus e que acabou de ver um sinal tremendo, fugiu! Fugiu de uma mulher feita rainha que lhe prometeu acabar com a vida. Elias deve ter pensado: do que adianta eu ver e sentir sinais de Deus em minha vida se me perseguem, se me impedem de servir livremente ao verdadeiro Deus? (é como alguns de nós pode pensar: de que me adianta querer ser crente em Deus se todos dizem que não posso ser, já que, segundo os “santos e irrepreensíveis”, ser gay e cristão é inconcebível?).

Elias, aquele forte homem ­– forte em fé, forte na convicção de que era servo de Deus – deitou-se e desejou a morte. Desejou a morte, mesmo sendo tão forte! Aquele homem de fé tremenda, por ser tão perseguido, desejou a morte. Deus em infinita misericórdia deve ter olhado do céu e falado: Como assim, Elias?!

Nosso Criador, entretanto, sabendo exatamente como nossas emoções e sentimentos são, enviou um anjo que disse a Elias: Levanta e come.

Elias? Ele estava desejando a morte, ora! Comeu, e voltou a pensar em quão pequeno e miserável se sentia, em como não conseguia resolver seus problemas […]. Ele não conseguiu olhar para aquele milagre (a comida e água preparadas por Deus) e deitou-se novamente.

O anjo com paciência e misericórdia – assim são os seres ligados a Deus, creio –, disse-lhe: Elias, cria jeito e olha para a ação de Deus na sua vida e o quanto Ele te ama, mesmo que te digam o contrário, ou que te persigam… O seu caminho é muito longo, pois Deus tem muitas coisas para fazer na sua vida!

Só mais um. Jonas. Lembram-se?

Jonas até parece um pouco egoísta, mas era um caro servo de Deus, também. Ele tinha uma mensagem para pregar, mas ele sabia que Deus era bom demais para cumprir aquela profecia de destruição de uma cidade inteira. Ele deve ter pensado: Poxa vida, eu vou lá pregar que Deus vai destruir geral, o povo vai se arrepender, Deus vai perdoar e eu vou ficar com que cara?

Mesmo que forçado e sem vontade, ele pregou, o povo se arrependeu, Deus não destruiu ninguém – afinal, tinha tanta gente, muitos animais, e crianças ali, e o que o Criador queria mesmo era o arrependimento e conversão, já que Ele não tem prazer nem mesmo na morte do ímpio.

Choramingando debaixo da aboboreira que Deus mesmo havia preparado numa noite, Jonas reclamou de um bichinho que estragou a planta e, com o sol ardendo na cabeça disse: Melhor é morrer do que viver!

Ah! Jonas! Deus te ama e ama aqueles pecadores também e quer que todos se salvem! Vai lá e se alegra na bondade de Deus para com aquelas pessoas, mesmo que você não desejava que se salvassem!

Tem muita coisa que podemos compreender com esses homens. Você percebe?

Uma delas é que crentes em Deus desejam a morte por diversos motivos, e isso não lhes faz inferiores nem fracos, não! Eu não lembro se tem mais algum exemplo na Bíblia de pessoas que desejaram a morte, deve ter, sim. Veja, porém, que esses três homens são exemplos de fé, citados por Jesus, inclusive.

São exemplos de fé, mas que, no momento de suas provações e aflições, desejaram amargamente a morte. Deitaram-se na rua da cidade, na caverna, sob a aboboreira… e ficaram esperando Deus findar,por meio da morte, o sofrimento deles.

Eu acredito que quem chega ao ponto de desejar a morte como saída é alguém muito forte, assim como Jó, como Elias e como Jonas. É que só deseja a morte quem está carregando um fardo muito pesado, de infâmia, de perseguição, de incompreensão.

Esses três homens de Deus têm mais uma coisa em comum, além do desejo da morte no momento mais árduo de suas provas: nenhum deles compreendia o amor de Deus, por mais que amassem a Deus e soubessem – como Jonas declara – que Deus é misericordioso e amoroso, muito mais do que qualquer pessoa possa imaginar!

Então, você gay, lésbica, travesti, transexual… que é cristão, tem todos os motivos para desejar a morte, sim!

Eu sei que o fardo que carregam é pesado demais, pois eu também carreguei por muito tempo, e ainda carrego às vezes, quando minha fé vacila um pouco.

Tem muitas razões para desejarmos o fim da nossa vida: é discurso ignorante e intolerante propagado em nome de Deus, é ódio proclamado na boca que deveria falar de amor, é rancor e juízo vindo do coração que deveria ter misericórdia…

Não, não é fácil e é natural você desejar a morte, muitas vezes em sua vida. Só não é natural você acreditar que, de fato, é a morte a saída.

A saída, a solução, está preparada desde a eternidade e se chama Cristo, o amor sem acepção, que te amou imensamente, mesmo que digam o contrário.

Eu testifico e garanto que, se em vez de ver a morte como uma saída, você passar a tentar compreender que Deus ama – e essa é a mensagem de Cristo! – você conseguirá sentir o amor de Deus dentro de si mesmo. Com isso, você não só deixará de desejar a morte como verá que a morte não tem mais nenhum sentido para você, porque o crente em Deus passa desta vida para a vida eterna! Não digo isto me referindo à vida que teremos na eternidade, mas na vida eterna que já começa aqui, nesta nossa vida terrena, pois as riquezas do reino de Deus – paz, regozijo, alegria e muitos sentimentos sublimes como esses – se desfrutam aqui também (ao menos àqueles que conseguem hoje mesmo entrar no paraíso de Deus, compreendendo Seu amor, podem desfrutar dessas virtudes e paz de espírito).

Sim, é a morte uma saída para o LGBT cristão: aquela morte que nos deu vida, aquela ressurreição que nos deu esperança, aquele Cristo que nos deu vida com Deus, vida com abundância. Porque nessa morte ficou demonstrado o quanto Deus nos ama, como somos [2].

Seja LGBT, mas seja cristão e viva com Deus, no paraíso de Deus aqui nesta vida terrena. As coisas melhorarão, pode ter certeza. Se quiser ter dúvida, duvide dos discursos que te fazem desejar a morte.

[1] Em Jó 6:8, muito conhecido, lê-se “Quem dera se cumprisse o meu desejo e Deus me desse o que eu espero”. Mas as pessoas que não leem a Bíblia param aí e muitas sequer entendem o desejo de jó. “Que Deus quisesse quebrantar-me … e acabasse comigo …” (Jó 6:9-10). [2] É importante entender que quem segue Cristo e crê na sua obra redentora anda como ele: em passos de amor, tolerância, misericórdia, respeito, compreensão, benevolência, humildade… se essas e outras virtudes semelhantes não fizerem parte da vida da pessoa, por mais que ela se esconda em padrões visíveis, ela ainda não compreendeu o Deus amoroso ao qual serve. Você que compreendeu, ame essas pessoas, como Cristo amou você.
 
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#024: Gays, o pavor do inferno e o dom de línguas

Por muito tempo eu tive medo do inferno. Pavor. Enquanto criança nunca pensava sobre isso, mas, tão logo completei 12 anos, tive uma sequência de sonhos relativos ao fim do mundo apocalíptico que o inferno começou a me assombrar. Por isso, aos 12 anos fui batizado, pois, embora não compreendesse o Deus amor, tinha certeza de que eu não queria sofrer a danação eterna.

Depois, eu vivi 2 anos intensos, indo às visitas com mocidade, frequentando as RJM[1], orações na madrugada com meus cooperadores de jovens… Eu havia perdido o medo do inferno, e ainda não entendia o amor de Deus. Até então, eu não compreendia minha homoafetividade – que sempre esteve manifestada – e, muito menos, minha homossexualidade que começava a aflorar.

Contudo, por volta dos 14 anos – quando percebi que, de fato, minha atração não era àquela a que fui orientado, a “normal”, e quando minha sexualidade se manifestou mais intensamente – eu percebi que, sim, deveria temer o inferno. Passei a desacreditar da minha salvação. Toda vez que desejava homens[2], depois, eu caía aos prantos em oração e suplicava a Deus que não me condenasse, que não me deixasse ceder àquele sentimento.

Confesso que, nas minhas orações solitárias, sempre alcançava algum alento, algum conforto divino. Porém, como o sentimento homoafetivo é intrínseco, eu sempre retornava àquele estado de miséria espiritual: duvidava de que eu seria salvo, já que homossexual – ainda que não praticasse o ato em si, mentalmente o idealizava[3].

E isso foi um ciclo em minha vida: idealizava mentalmente situações de práticas homoafetivas, me achava indigno de ser salvo, caía em um desgosto profundo por não “agradar a Deus”[4], chorava aos pés de Deus rogando-lhe misericórdia e que me suportasse, encontrava consolo e sentia a virtude[5] e presença de Deus em mim, e logo idealizava práticas homoafetivas[6].

O que quero explicar é que eu só sentia a virtude quando me considerava um impuro, uma abominação, e chorava aos pés de Deus, clamando por sua misericórdia. Eu ainda temia o inferno e não entendia o amor de Deus por mim – ainda que, repetidas vezes, ele me dizia: Eu te amo.

Eu era muito fervoroso[7], chorava sempre na igreja, me alegrava e emocionava sentindo a presença de Deus, pois encontrava esse consolo de que eu seria salvo, sim, e as Palavras[8] me faziam compreender que Deus entendia minha condição natural e que me aceitava assim, como sou.

Em 2007, aos meus 19 anos, eu estava em uma RJM e senti a virtude muito fortemente. Na RJM da semana seguinte, Deus dizia: Semana passada você sentiu grandemente a virtude, e hoje você vai sentir ainda mais!

Confesso que eu não senti nada, definitivamente. Eu estava em paz e não senti a presença de Deus naquela RJM. Chegando em casa, porém, encontrei uma situação desagradável: uma pessoa estava possuída por um sentimento maligno e prestes a causar, mais uma vez, uma desgraça em nossa família.

Eu, então, comovido com a situação, comecei a chorar. Primeiro chorei de desespero, tentando evitar que minha irmã, ainda mocinha, percebesse aquela manifestação maligna, diabólica. Depois, comecei a chorar mais, mas um choro diferente, proveniente da alma, do coração. Foi quando eu comecei a falar em línguas[9] pela primeira vez. Eu falava em línguas e entendia algumas coisas que falava. Fisicamente eu era bem fraquinho, mas segurei aquele homem, que nos causava males emocionais, com tanta força que vi que não era minha. Falando em outra língua, eu o abracei e, depois de um tempo, ainda o abraçando e falando em línguas, aquele espírito contrário e maligno se ausentou. Houve paz.

Uma prima minha, que também estava em casa na ocasião e que há muito tempo não falava em línguas, depois, me abraçou e voltou a falar em línguas. Minha irmã, ao me abraçar, sentiu a visitação de Deus. Abraçado à minha mãe, que chegou depois e em grande desespero, anunciava-lhe em línguas e eu entendia a mensagem que eu lhe dizia.

Eu, gay, com medo e pavor do inferno, com dúvida da minha salvação (porque me sentia impuro por ser homossexual) recebi, naquele domingo, o dom de línguas e vi Deus fazer outras obras lindas.

Aquela força que recebi ao falar em línguas e sentir Deus bem de perto, durou alguns dias. Esqueci o pavor do inferno e tive paz por alguns dias. Depois disso, passei 9 meses sem falar em línguas novamente. Logo, o medo do inferno foi se manifestando. No fim daquele ano, em uma RJM, o cooperador de jovens durante a reunião, me apontou e disse a mim que abraçasse um moço, que era auxiliar de jovens junto comigo e que havia sido “selado”[10] com o dom de línguas fazia pouco tempo. Eu nunca gostei muito disso, confesso, mas o abracei e voltei a falar em línguas, pois senti a presença de Deus de maneira muito forte em mim.

A partir desse dia, eu falava em línguas mais constantemente. Agora, quando me sentia um verme, uma abominação, e orava a Deus, o consolo vinha com sua presença e com a manifestação do dom de línguas. E eu só manifestava esse dom quanto estava nesse estado espiritual de me achar indigno de salvação.

Alguns pensam que para falar em línguas tem que estar puro, ser santo e irrepreensível. Ou, ainda, que quem manifesta o dom de línguas está consagrado e perfeito diante de Deus. Minha experiência diz o contrário. Sempre que eu manifestei o dom de línguas (ou que eu sentia aquela paz e alívio espiritual) era no momento em que me percebia mais sujo, mais abominável, mais pecador.

De 2013 até 2015 eu fiquei sem manifestar o dom de línguas. Em 2015 manifestei poucas vezes, uma ou duas. Coincidentemente ou não, foi a época em que tive crises depressivas fortes e, também, a época em que eu estive mais distante de Deus – ainda que, semanalmente, eu ia à igreja mais de quatro vezes, pouco meditava nele e em seu amor.

Em 2016, um pouco antes de iniciar o blog, e quase que imediatamente após me entender e me aceitar gay, eu comecei a sentir a presença de Deus de uma maneira muito intensa e a todo o tempo. Aquela paz que eu sentia apenas por alguns instantes enquanto falava em línguas ou um pouco depois de haver falado – às vezes algumas horas, outras um ou dois dias –, passou a ser constante em minha vida. Aquele medo e pavor do inferno, de ser condenado por ser “imperfeito”, também se esvaneceram.

Eu passei a sentir aquelas virtudes – que eram momentâneas e apenas em situações de miséria espiritual, quando me sentia um verme – o tempo todo. Todo dia. Em situações inesperadas[11]. Fora da igreja. Eu deixei de me sentir um cão miserável e passei a me sentir amado por Deus. Isso trouxe-me uma enorme paz. Deu-me certeza de salvação, não por qualquer mérito meu[12], mas por exclusivo mérito de Cristo.

Hoje, eu falar em línguas não se faz tão necessário (ainda que acho uma linda manifestação), pois acredito que a finalidade deste dom, na minha vida, era me dar paz. Eu estou em paz em relação à minha salvação. Eu estou certo de que Cristo me salvou. Eu já não duvido do poder de Cristo para me salvar e o amo intensamente por fazer isso sem que eu mereça, sem que ninguém mereça.

Sim, gays falam em línguas, e são participantes de todos os dons do Espírito Santo. Quero, contudo, que saibam que nem todos falarão em línguas. E, ainda, que não falar em línguas não significa não ser selado com o Espírito. Todos que cremos em Cristo como nossa salvação somos selados pelo Espírito para nossa redenção!

Aos gays cristãos e a todos que estão com duras cargas, devido à incerteza de salvação, proponho que, em lugar de buscar este ou aquele dom, busquem a compreensão de que a salvação se recebe exclusivamente por meio do mérito de Cristo. Quando conseguirem entender isto, alcançarão uma paz e certeza de salvação que mal nenhuma chegará a tenda dos corações de vocês: estarão no reino de Deus, no “paraíso”, ainda nesta vida terrena!

Busquem os dons de Deus, sim, mas procurem aquele caminho mais excelente: o amor fraternal e incondicional como o de Cristo.

Texto escrito em resposta a um pedido anônimo que recebi no blog.

[1] Reunião de Jovens e Menores é uma reunião da Congregação Cristã no Brasil, geralmente realizada nos domingos de manhã, exclusiva às crianças e jovens.
[2] Um eufemismo para a prática da masturbação.
[3] Idem. Masturbação é um tabu.
[4] Ou seria “aos homens”?
[5] A virtude é a manifestação da presença de Deus dentro de si. Comumente, relacionada a uma emoção (choro, alegria etc.) e, ao meu entender, tem finalidade de animar, dar forças espirituais ou fazer crer estar ligado com Deus.
[6] Esse ciclo se perpetuou por 14 anos, fui liberto apenas aos 28 anos – quando, então, comecei a os textos do blog.
[7] Fervoroso é alguém que sente a presença de Deus facilmente, ao menos é nesse sentido que usei o termo.
[8] Palavra na Congregação Cristã no Brasil (CCB) é a exortação de uma passagem da Bíblia, o discurso dos pregadores, que entendemos ser inspirado por Deus – ao menos deveria ser.
[9] Falar em línguas ou o dom de línguas é uma manifestação do Espírito Santo que faz com que a pessoa, sem saber, fale em outras línguas. Em minha cidade, no interior de São Paulo, há um irmão indouto, sem estudo, e que recebeu o dom de línguas em inglês arcaico – entende-se o que ele fala. Não se trata apenas de sons inteligíveis como alguns pensam. Há de se considerar que, sim, há imitações desse dom, tanto na CCB como em outras denominações e que acabam por o banalizar. Há outras manifestações, como interpretar outras línguas, expulsar demônios, curar enfermidades…, mas a maior manifestação é o amor fraternal e incondicional.
[10] É comum dizermos “ser selado pelo Espírito Santo” para se referenciar a alguém que fala em línguas. Ser selado, entretanto, é algo mais amplo e todo o cristão, todo crente em Deus, é selado (ainda que não fale em línguas).
[11] Como descrevi no texto 21 do blog http://www.tbsoucristao.blogspot.com
[12]Entenda, ninguém merece, nem nunca merecerá, o “céu”. O estado de paz que alcança quem entra no reino de Deus não é por nenhum mérito, mas por graça. É um favor, porque ninguém merecia isso. Cada um de nós somos ruins o suficiente para entrarmos no “céu”, mas somos justificados por Cristo, que é justo e justificador. Nenhum esforço próprio nosso pode nos colocar no “céu” e é por isso que precisamos entender e aceitar que o mérito é de Cristo. Isso não significa que podemos “deitar e rolar” no que é imoral (como desafetos, inimizades, porfias, malignidades e outros frutos do desamor), mas que quando pecarmos teremos um advogado que intercede por nós e ao nosso favor: Cristo. Se dissermos que não pecamos, tornamos Cristo mentiroso – e nos fazemos hipócritas.

Tags: LGBT, lésbica, gays, homossexual, homossexualidade, cristão, crente, CCB

#020: Gays cristãos estão sozinhos?

Devido a correria no trabalho e a tantas coisas que ocorreram não consigo escrever um texto novo há um tempo. Eu já não tenho me questionado tanto, já não penso em como será meu futuro, já não duvido se sou aceito por Deus. Estou em paz embora há sempre as tribulações corriqueiras.
Desde minha vinda para São Paulo – no dia 7 de setembro do ano passado em que, finalmente, conheci pessoalmente o primeiro moço gay da CCB, e depois com a minha mudança para esta capital – eu não percebi o quão grato eu devo ser! Não, eu não havia percebido que já não estou sozinho nessa caminhada e que tenho feito tantas boas amizades e conhecido pessoas maravilhosas, moços e moças que frequentam a CCB, que têm fé em Deus, e que são gays.
Eu já escrevi um texto sobre meus amigos cristãos. Agora posso escrever um sobre meus amigos gays cristãos.
Eu morei por 11 anos numa cidade do interior de São Paulo, a estudo e trabalho. Desse tempo, relembro de vários moços da CCB e que, cedo ou tarde, soube que eram gays. Na época eu não pude os ajudar porque nem eu mesmo me entendia. Todos eles já não congregam e acredito que, infelizmente, alguns já não creem em Deus.
Gostaria imensamente de escrever um texto trazendo boas novas e noticiar que fomos finalmente mais compreendidos pelos irmãos e aceitos por eles, ou anunciar que não mais ouviremos discursos de ódio e de preconceito dissimulados nos discursos de zelo que saem dos púlpitos – deliberada ou inconsciente e irrefletidamente – e que muito nos ferem. Ou, mais ousadamente, dizer que sim, podemos ter uma relação homoafetiva, nos casar com alguém que amamos completamente e que isso é de fato aceito por Deus – eu não tenho legitimidade para dizer isso, embora creio muito que sim, por tantos sinais que de Deus já recebi.
Mas eu tenho uma boa notícia: nós não estamos sozinhos.
Por muito tempo eu pensava comigo: não vejo ninguém dentro da CCB na mesma condição que a minha, estou sozinho e sofrerei com isso.
Hoje, porém, gostaria que cada moço e moça que se sente desprezado por sua condição homossexual, que cada jovem gay cristão que está iniciando sua puberdade e que será tão turbulenta, gostaria que cada lágrima de solidão suas fossem enxugadas, pois não estamos sozinhos e há pessoas que zelam e oram por nós. E não só isso, gostaria que soubessem que há muitas pessoas nas mesmas condições que a nossa e que podem nos abraçar fraternalmente.
Eu iniciei os textos do blog porque eram meu único escape, era a única forma de não me sentir sozinho. E hoje – após congregar com um amigo gay, ouvir uma Palavra sublime de amor, perdão, piedade e misericórdia divinos – eu finalmente percebi que não estou sozinho e isso é maravilhoso.
Ontem também conheci duas pessoas fantásticas, um moço e moça gays da CCB e que me inspiraram ainda mais. Tanto eles como a Palavra de hoje me fizeram perceber que tudo passa. A nossa solidão e tribulação vai passar. É uma luta, existem momentos de desespero, de incompreensão, mas posso dizer que hoje – quando olho a minha caminhada e relembro o quanto já chorei – percebo o quanto me sinto feliz e abraçado por Deus e por bons amigos!
Eu não posso retornar ao passado para abraçar aqueles jovens gays e evitar que eles se percam na fé. Eu espero reencontrá-los e poder dizer-lhes: voltem a confiar em Deus, porque ele nos ama, sim. Porém eu posso dizer a cada jovem: vai passar e tudo vai ficar bem. E também isso: você não está sozinho.
De alguma maneira ou de outra, do modo que nós sonhamos ou não, tudo vai ficar bem, porque não somos únicos, não estamos sozinhos, há laços de fraternidade cristã que nos unem e Deus está ao nosso lado.
Eu agradeço a Deus pelas pessoas que tem colocado em meu caminho, moços e moças gays cristãos, por me mostrar que não estou sozinho e por ter me concedido paz com Ele.
Não se sintam sozinhos, porque vocês são fortes e já venceram o maligno. Vocês são fortes e já venceram todo o desprezo e, em breves momentos, sentirão isso e viverão em paz. Busquem a Deus, porque ele é amor, misericórdia e piedade e nos amou na cruz assim, como somos.
blogdoleonardoalves@gmail.com
Tags: Gay, CCB, Congregação Cristã no Brasil, LGBT, cristão, homossexual

#014: Curou-me

Eu me lembro bem dos dias em que diziam que gay era indecente.
Dos dias que negro não era gente.
Dos que a perseguição era contra o crente.
Daqueles que a intolerância
era notícia recente.
Lembro-me bem
que ela matou, estuprou,
torturou, queimou e humilhou
o diferente.
Lembro-me bem
que, em nome de Deus, em nome da honra, da família,
em nome do patriotismo, do nacionalismo,
e da extrema ignorância ou hipocrisia
destruímos o coração
inocente,
Mas, por graça, Deus enviou a cura
que o abraça e que o reestrutura.
Lembro-me bem
que Cristo me fortaleceu,
curou meu coração quebrantado
e meus pensamentos transtornados,
revelando que me ama
imensamente.
Por isso, eu sempre lhes direi:
Também sou cristão!
Ainda que, repetidas vezes,
me chamarão
doente, indecente.
Tags: CCB; gay; homossexual; homoafetivo; cristão; crente; Congregação Cristã no Brasil; LGBT; homo ccb.

#011: Novas de alegria

É com muita alegria que compartilho com todos vocês a minha seguinte percepção: a igreja (enquanto organização religiosa) está passando por mudanças, por boas mudanças! Lentas, mas mudando para abraçar a todos!

Quem acompanha os posts e textos que publico pode perceber que, embora eu seja gay, não sou assumido e estou “fora do meio”: sou um cristão com porte bastante tradicional.

No entanto, ainda que ninguém saiba que eu sou gay (porque não manifesto meus sentimentos, ainda), muitos que conversam comigo (amigos próximos, alguns familiares, auxiliares de jovens, cooperadores de jovens etc.) quando estamos tratando da leitura de temas da Bíblia, do amor de Deus etc. sempre têm demonstrado interesse pela questão da salvação dos homossexuais.

Eles têm percebido que não é uma mera escolha nossa, que em muitos casos (senão todos? não sei!) as pessoas nascem assim, simplesmente. Até alguns mais radicais dizem isso: não é escolha dessas pessoas!

Nas conversas que tenho com eles (sempre tentando compreender o amor de Deus, a predestinação, a missão dos cristãos, e outros temas gerais), eles sempre tendem à questão da homossexualidade e isso não para nos condenar, mas para nos entender. E eles mesmos sempre chegam à conclusão razoável: se nascem assim, não é legítimo que não tenham condições de entrar no céu (como muitos criam ou ainda creem).

Acredito que Deus escolha as coisas que parecem “loucas” para confundir as que parecem “sábias”. Acredito que fazemos parte do plano de Deus em revelar o mistério de Cristo: o amor sem distinção. Acredito que, pouco a pouco, vamos todos chegando a esse conhecimento.

É triste que alguns (muitos!) tenham que sofrer até que esse conhecimento se concretize, mas tenho por certo que não esperamos a recompensa apenas aqui nesta vida, mas teremos grande regozijo nos céus, quando a plenitude do reino de Deus se manifestar em todos os corações.

Enquanto isso, tenho certeza também de que todos podemos estar, ainda hoje, no “Paraíso” de Deus, pois, assim como eu tenho plena convicção da minha salvação, tenho certeza que cada cristão sincero sentirá o mesmo. Essa convicção não se dá pelas minhas obras, ainda que aos olhos de todos elas pareçam boas, mas pela paz e amor imenso que sinto em mim, fruto da graça de Deus: sou salvo pela grande misericórdia de Deus.

Convém, porém, que quem sente essa paz e esse amor, resplandeça a luz de Cristo em tudo, fazendo com que o reino de Deus, que é essa paz divina e amor sempiterno, se manifeste a todos, afinal, o desejo Dele é que todos se salvem.

Deus abençoe e revele Cristo em nossos corações e por meio de nós, que também somos cristãos!

Tags: CCB; gay; homossexual; homoafetivo; cristão; crente; Congregação Cristã no Brasil; LGBT; homo ccb.

#008: Deus nos elegeu para si

Devemos acreditar: a eleição de Deus não é a escolha de alguns indivíduos especiais. A eleição de Deus não é Sua determinação de que alguns homens e mulheres (exterior e aparentemente mais perfeitos que os demais) fossem salvos. A eleição de Deus é feita sem acepção de pessoas. Deus elegeu a TODOS nós para Si, e isso não por meio de nossas obras (pois ninguém se salvaria assim), mas por meio de Jesus, o Cristo, a nossa salvação.


Nós precisamos sim, confirmar a nossa salvação e demonstrar que somos salvos. Não se trata de querer demonstrar que somos salvos. Mas o salvos sempre estão combatendo (não para serem salvos, mas porque são salvos). Não é uma luta contra alguém, mas os salvos sempre estão combatendo contra todos aqueles sentimentos contrários ao sentimento de Cristo: o amor sem distinção.

Os salvos, aqueles que compreenderam a sua eleição, fazem a caminhada como Jesus fez: focado naquele amor que seria revelado em Cristo.

Os salvos, que entenderam a sua própria eleição, não esmorecem nesse sentimento sublime que é o amor em Cristo. 

Os salvos, que vivem a eleição, serão vitoriosos e viverão com Deus, não só na eternidade dos céus, mas desde já, aqui na vida terrena, pois o Reino de Deus já é chegado a nós e podemos estar, ainda hoje, no “Paraíso”, sentindo o amor, a graça e a luz de Deus em nós.

Eu já estou no Paraíso, eu já desfruto da glória do reino de Deus, porque eu sinto em mim um amor por todos que não é de mim, mas de Deus, que me amou em Cristo e que me estimula a amar como Cristo. 

Deus nos elegeu para Si (Hino 368, Hinário 5 – Congregação Cristã no Brasil)
♫ Não duvidemos, Deus nos elegeu para Si, em Jesus;
♫ Confirmará a nossa salvação com poder, graça e luz.
♫ Salvo não será quem não combater,
♫ Quem, na caminhada, esmorecer;
♫ Os vitoriosos reinarão e com Deus viverão.

Tags: CCB; gay; homossexual; homoafetivo; cristão; crente; Congregação Cristã no Brasil; LGBT; homo ccb.