#023: Aos Romanos, aos gays e aos cristãos

Quando escrevi minha primeira carta a um irmão ancião[1] o contexto de Romanos 1 me deixava intrigado. Eu questionava o irmão, às lagrimas, sobre as desvirtudes descritas nesse capítulo da carta de Paulo, tradicionalmente relacionado à homossexualidade, e que eu sabia não fazer parte do meu caráter, embora fosse gay.

De fato, esse ainda parece ser o texto bíblico[2] que mais dá munição tanto aos discursos homofóbicos dos que se dizem cristãos como para a tentação do blá-blá-blá-diabólico que diz: Você sabe que Deus não te ama, e que Deus te despreza, e que você é uma abominação?

Eu nunca poderei dizer a ninguém que Deus tolera uma relação homossexual. Jamais. Igualmente nunca poderei afirmar que Ele não a tolere. Na verdade, os que estão convictos quanto ao posicionamento de Deus em relação à sexualidade natural de suas criaturas, baseiam a aversão à homossexualidade em poucos textos bíblicos: Gênesis 19, Levíticos 1 e 20, Romanos 1. Além desses, há os versos isolados de 1 Coríntios 6:10 e 1 Timóteo 1:10 também utilizados para matar a fé e a alma de homossexuais cristãos.

Contudo, eu apresento outros dois contextos que escapam dos que não querem homossexuais em suas igrejas e, muito menos, no seu céu: Deuteronômio 23:17-18 e 1 Reis 14:24; 15:12; 22:47.

Na versão da Bíblia utilizada na Congregação Cristã no Brasil[3],nos versos citados de Deuteronômio, lemos:

Não trarás salário de rameira dentre as filhas de Israel, nem haverá sodomita dentre os filhos de Israel, não trarás salário de rameira nem preço de cão à casa do Senhor teu Deus por qualquer voto: porque ambos são igualmente abominação ao Senhor teu Deus.

Rameira é prostituta e sodomita ou cão também deveriam ser entendidos como prostitutos. Não só isso, prostitutos cultuais, como traduzem outras versões da Bíblia[4]. O dinheiro obtido por meio das rameiras ou dos sodomitas não deveria entrar no templo do Senhor. Se sodomita e homossexual são de fato sinônimos, como muitos querem afirmar, gays, não deem coletas!

Exagero à parte, convido a ler o contexto que mencionei de 1 Reis 14. Note que no verso 23  desse capítulo descreve-se a idolatria de Israel (altos, estátuas e imagens do bosque) e, ainda, que haviam rapazes escandalosos na terra. Esse termo – rapazes escandalosos –, por um descuido dos homofóbicos de língua portuguesa[5], não foi traduzido como sodomitas – poderia ser mais um verso para decorarem e matarem os gays com suas duras palavras –, entretanto tem o mesmo sentido de Deuteronômio 23: prostitutos cultuais[6]. O contexto de 1 Reis pode ajudar a perceber essa relação entre sexo e idolatria, o sexo dos cultos pagãos proibido em Deuteronômio 23 e praticado pelos povos anteriores a Moisés, como o escriba de 1 Reis 14 relata: “[havia idolatria em Israel, inclusive o sexo cultual] conforme a todas as abominações das nações que o Senhor tinha expulsado de diante de Israel”.

Em Romanos, o texto utilizado para condenar os homossexuais está concentrado[7] a partir do verso 18 do capítulo 1. Peço que releia o capítulo 1 e 2 de Romanos antes de seguir com a leitura deste meu texto.

Note que o contexto de tal epístola trata da idolatria e depravação daqueles que tendo conhecido a Deus não o glorificaram como Deus, tão pouco Lhe deram graças e, ainda, mudaram a glória de Deus reduzindo-O à semelhança da imagem de homem terreno ou de aves e outros animais. Alguns romanos crentes (eles conheceram a glória de Deus!) retornaram ao ritual pagão, servindo mais à criatura e à mentira e mitologias do que ao Deus da verdade e justiça.  Deus, que já havia se revelado a eles, não os impediu que retornassem à mentira, ao sexo cultual[8].

Os versos 25 e 27 parecem fazer menção a homens e mulheres heterossexuais que perverteram sua natureza, deixando o uso natural[9] que tinham (a mulher do homem, e vice-versa) para se inflamar em sua sensualidade.

Observe que o verso 28 afirma que essas pessoas não se importaram em ter conhecimento de Deus. Praticavam toda sorte de sexo – inclusive aquele que não lhes era natural , isto é, com pessoas de mesmo sexo – e pouco se importavam com a moralidade cristã, com o sexo por afeto, com respeito e dentro de uma relação emocionalmente saudável. Eles promoviam orgias em louvor aos deuses pagãos ou para alimentar a sua própria perversidade, a ponto de mudar sua natureza heterossexual no culto à carnalidade.

Na sequência, Paulo descreve também o caráter dessas pessoas e demonstra o quanto romperam com a doutrina cristã – o amor fraternal, ao qual devem ter se sujeitado em algum momento –, pois não se importaram com ela, já que não se importaram em conhecer o Deus da verdade e de amor e chegaram ao ponto de se tornarem homicidas, infiéis, cheios de contenda e de maldade, inventores de males e, destaco, sem afeição natural, irreconciliáveis e sem misericórdia.

Romanos 1 nos adverte que dos céus se manifesta a ira de Deus sobre qualquer impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça. Ora, se sufocar o desejo de servir a Deus e a fé de um gay cristão for um ato de piedade dos que se dizem cristãos, e se dizer que um gay não pode ser cristão não for uma deturpação da suprema verdade – que é: Cristo salva e ama a todos que se achegam a ele – em injustiça, precisaremos redefinir o significado que atribuímos à longanimidade, à benignidade, à afeição fraternal, à misericórdia e a todos os demais frutos do Espírito.

Pode ser que não estejamos voltados à idolatria ao ponto de construir estátuas ou altos do bosque, porém se a imagem que construímos de Deus é a do Deus que não salva ou não ama o gay abatido que vive O buscando, chorando e implorando por uma “cura” inalcançável, ou a do Deus que ouve a oração desses homossexuais que tanto já desejaram ser cristãos livres dessa “abominação” e não os “cura”, ou a do Deus que, podendo, não os livra desse “espírito diabólico”, creio que estamos reduzindo o Deus verdadeiro à imagem do homem corruptível, sem afeição e sem misericórdia, assim como os romanos o fizeram.

Não, não é o Deus da verdade que não ama o homossexual!

Se há algum deus que não ama o homossexual é justamente esse deus construído segundo a imagem preconceituosa dos homens que converteram a verdade em injustiça.

Aos gays cristãos recomendo que se revistam de justiça e de piedade, virtudes divinas, e que vivam de fé em fé crescendo no conhecimento de Deus que os livra da insanidade dos homens que se julgam sábios, mas que se tornaram loucos.

Se de fato há gay cristão, se de fato você se diz cristão, seja justo e piedoso e não perverta o amor incondicional de Deus, sua maior verdade – Cristo –, em injustiça, porque está escrito: Mas o justo viverá da fé.

[1] Texto 2 di blog

[2] Eu já escrevi de maneira superficial o quanto Levíticos não deveria ser posto em prática na atualidade (Texto 15 do meu blog) e como Sodoma e Gomorra não foram destruídas por causa da homossexualidade (Texto 12 do meu blog). Porém alguns entram em contato e me questionam sobre Romanos 1.

[3] João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Corrigida na grafia simplificada

[4] Nova Versão Internacional: Nenhum israelita, homem ou mulher, poderá tornar-se prostituto cultual, não tragam ao santuário do Senhor, o seu Deus, os ganhos de uma prostituta ou de um prostituto…
Nova Tradução na Linguagem de Hoje: Nenhum israelita, mulher ou homem, praticará a prostituição nos templos pagãos…

Tradução Brasileira: Das filhas de Israel não haverá quem se prostitua no serviço do templo, nem dos filhos de Israel haverá quem o faça. Não trará … o aluguel de uma prostituta ou o preço desse cão…

[5] Na versão inglesa King James lê-se sodomites, e na versão da Tradução Brasileira, sodomitas.

[6] As versões da Nova Versão Internacional e da Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduzem “rapazes escandalosos” como “prostitutos cultuais”.

[7] Originalmente a Bíblia não era dividida em versos ou capítulos, ou trechos com subtítulos como temos hoje. O livro de Romanos, por exemplo, é uma carta que deveria ser lida do começo ao fim, como um texto único. Também é importante saber que os títulos dados às seções, que dividem um capítulo, não constam no original e foram elaborados segundo o entendimento de quem leu aquele trecho (há, inclusive, títulos incoerentes como o de Lucas 13:10 que diz “Cura da mulher paralítica” que, na verdade, apenas andava encurvada como explica o texto bíblico). Na Congregação há o ensinamento dado ao Ministério de que não seja lido apenas um verso para exortar a Palavra, mas sim todo um capítulo, afinal, texto fora de contexto é pretexto. No subtítulo de Romanos 1:18 lê-se “a deturpação dos gentios”, porém pelo contexto pode-se compreender que se trata da deturpação daqueles que uma vez foram cristãos e se voltaram às práticas pagãs.

[8] Não sou historiador, mas relembro vagamente das aulas de História e da referência ao sexo nos cultos pagãos da mitologia greco-romana. Salvo engano, entre outros, os deuses Baco e Afrodite podem ilustrar as orgias pagãs. O termo bacanal, por exemplo, surgiu dos rituais ao deus Baco.

[9] Se esse “uso natural” se referir ao sexo para procriação, é preciso reorientar muitos casais heterossexuais cristãos quanto à prática do coito anal dentro do seu legítimo casamento heterossexual. Eu não imaginava essa prática entre casais heterossexuais, contudo, ultimamente tenho ouvido diversos relatos havendo inclusive alguns cristãos tradicionais que o consideram como natural (apenas entre o homem e a mulher, já que lhes convém!). Se o “uso natural” se referir ao sexo original, para procriação, é necessário esclarecer aos casais héteros que a boca naturalmente é um órgão do sistema digestivo e, por isso, o sexo oral também não é natural. Eu não conseguia dar crédito a relatos que que diziam que heterossexuais se “aproveitam” da situação fragilizada de alguns jovens homossexuais e mantêm alguma relação com esses, porém os relatos são tão recorrentes que, talvez, seja a essa perversão da natureza (um heterossexual buscar prazer com alguém do mesmo sexo) que a Palavra condene, já que é um sexo por diversão ou por curiosidade e que, na maioria das vezes, o apenas o homossexual é escrachado após a relação. Ainda, é preciso considerar que é uma brutalidade um homossexual ser orientado a reverter sua natureza homossexual. Se eu sendo gay mantiver uma relação de “fachada” apenas para me enquadrar na heteronormatividade eu não estaria indo contra a minha natureza? Em se tratando de sexo, qual é o “uso natural” para um homossexual? A moralidade não deveria, jamais, tornar-se hipocrisia. Eu também sou cristão, sim.

#019: O fariseu, o publicano e o gay

Que eu sempre fui gay, não é novidade. Eu sempre soube, embora demorei para aceitar (se é que já aceitei).

Foi mais ou menos assim: brincava mais com meninas (a proporção de primas era maior que a de primos, não tive muita escolha), me dava muito bem com elas. Depois, queria muito um amigo, bem amigo. Aí percebi que achava os meninos muito mais bonitos que as meninas. Na verdade, achar menina bonita parecia errado. Já “mocinho”, batizado, e muito ativo na igreja, rejeitava e fugia de qualquer ideia de namoro com alguma irmãzinha (ainda tenho que fugir, na verdade, as pessoas não se cansam em querer arranjar casamento, mas tenho me frustrado menos com isso, até me divirto.)

Bom, quando moço não teve jeito, vi que realmente eu gostava mais de moço, que eles me atraíam muito mais. Eles me atraíam na verdade, enquanto as moças eram boas amigas e só.

Acontece que fui hipócrita por muito tempo, e isso porque eu era extremamente ignorante, não tinha nenhum conhecimento. Ao tentar me entender, como moço crente “exemplar” que eu era (e talvez ainda eu seja), era impossível conciliar minha sexualidade “anormal” com minha religiosidade, absolutamente, “normal”.

Primeiro eu rejeitei minha sexualidade (como se as forças carnais fossem suficientes para isso). Depois que vi que não tinha como rejeitar (afinal, nasci assim), passei a tentar entender o que Deus poderia querer de mim, já que Ele havia depositado uma fé enorme em eu coração e, também, uma sexualidade divergente do padrão sexual aceito entre cristãos.

A primeira ideia que me veio à cabeça, embora eu não pudesse acreditar completamente nela, era a de que eu nunca me relacionaria e, assim, poderia “julgar” os que se entregaram à “carnalidade”.

Eu pensava assim, perdoem-me.

Eu pensava que Deus “precisava” de mim para que, no último dia, Ele pudesse dizer aos gays que se relacionaram: Olhem, esse meu servo sentia o mesmo que vocês, mas por amor a mim, rejeitou sua sexualidade e, por isso, vai se alegrar no meu reino.

É vergonhoso, muito, mas eu pensei assim. Não acreditava muito, mas era a única forma que eu conseguia conciliar minha sexualidade com minha religiosidade.

É como se eu batesse em meu peito, olhasse para o céu e falasse: Deus, meu Senhor, graças te dou porque eu não sou como os demais pecadores, os demais homossexuais, não me entrego à carnalidade.

Eu dou graças a Deus que hoje, por meio de uma situação esmiuçou essa minha hipocrisia, eu tenho orado: Tem misericórdia de mim, porque sou pecador.

E oro assim não porque eu sou gay. Não. Oro porque percebi que ninguém, jamais, é digno do reino de Deus. Percebi que ninguém pode bater no peito e dizer: não sou pecador.

É verdade que em Jesus não somos pecadores, mas isso não significa que seremos perfeitos.

Percebo que minha sexualidade, fora do “padrão”, não veio para que eu condenasse os demais gays, mas para que eu me fizesse humilde, amasse o diferente e, graças a Deus, pudesse desfrutar do Seu reino desde essa minha vida terrena.

Eu não consigo imaginar o crente religioso que eu seria, se fosse exatamente quem sou, mas heterossexual. Eu só pude entender que Deus ama o diferente, porque eu mesmo provei desse amor, mesmo sendo homossexual.

Foi minha condição sexual que me fez mudar de uma oração como a do fariseu*, para uma oração como a do publicano, tão odiado e desprezado dos judeus que se sentiam superiores, pois confiavam em si mesmos, crendo que eram justos. Jesus disse a estes: o publicano em sua humilhação, por Deus será exaltado, enquanto que o fariseu, por seu orgulho, será humilhado.

É claro que há gays que exaltam-se a si mesmos, ou heterossexuais que são humildes. Não é a sexualidade que determina isso, claro que não.

Mas eu posso dizer que Deus ama a todos, com muita certeza, porque eu mesmo sei que ele me ama (ele me disse e me confirmou muitas vezes, continua me confirmando, sempre). Sei que ele me ama, mesmo eu sendo o que sou, porque Ele eliminou meu orgulho e resplandeceu em mim o seu amor.

Minha oração tem sido essa: tem misericórdia de mim, pois não sou justo. E mais esta: permita que todos oprimidos e cansados, que são perseguidos e desamparados espiritualmente apenas porque sentem exatamente o que eu mesmo sinto, possam conhecer o teu grande amor, que possam se achegar a ti, independentemente do que os religiosos dirão, e estejam, enfim, contigo em teu reino. Amém.

Deus rejeita os soberbos, orgulhosos, mas dá graça aos humildes.

Humildade nada tem a ver com sexualidade. Sejamos, portanto, humildes para receber a preciosa graça de Deus.
*Texto baseado em Lucas 18:9-14
Nos textos há poucas referências à comunidade LGBT, falo mais em “gays” porque é o que eu passo. Espero que todos possam entender, no entanto, o quão amados são por Deus, e que essa compreensão possa gerar bons frutos de humildade e de outros características de quem tem o Espírito Santo em si. 

#015: Homossexualidade é a abominação de Levíticos?

A Bíblia possui uma história libertadora, embora a distorçam com pretexto de culto ao divino, por completa ignorância ou por falta de imaginação para apreender a bondade e o amor de Deus, tema central e fundamental da Bíblia.

Temos em Levíticos diversas recomendações e proibições e, muitas delas, parecem claras em seus fins: livrar o oprimido. Por exemplo, no capítulo 18, há a recomendação de não seguir o caminho da idolatria de nações como o Egito e Canaã, terra da qual o patriarca Abraão saiu para atender ao chamado do Deus.

É interessante que aqueles primitivos, contemporâneos de Abraão, não conheciam o Deus de amor. Nem mesmo Abraão o conhecia e, foi justamente por não o conhecer, que precisou ser provado, tendo que oferecer seu filho Isaque em sacrifício. Deus na verdade não queria provar a fé de Abraão, mas provar a este patriarca que Ele era diferente de todos os outros deuses, criações humanas para oprimir, pois ele é, em essência, amor.

Isso se revela quando Deus diz a Abraão: “Não faças tal!”, pois é como se Deus demonstrasse ser o Deus misericordioso, justo e bom, que Abraão ainda não conhecia. Ele também revelou, com isso, que jamais aceitaria as loucuras dos homens, que oprimem os fracos e inocentes, em nome do ego, dos prazeres ou do sacro, santo e divino.

Por isso, neste mesmo capítulo de Levíticos, há expressa essa proibição: a de nunca oferecerem em holocausto os filhos, como os povos ofereciam a Moloque.

Em Levítico 17 também há uma proibição interessante: a de nunca derramar sangue em sacrifícios aos demônios, por meio da prostituição cultual. Sacrifícios e sexo estavam relacionados nos cultos pagãos.

Entre as práticas de sexo cultual, pode-se destacar a pederastia, que é o coito anal como forma de aquisição de conhecimento espiritual, prática comum no tempo dos hebreus que durou milênios, sendo assimilada por diversas culturas*. Na pederastia, simplificando muito, um jovem (ainda sem pelos, portanto quase criança) assumia o papel sexual de passivo, enquanto o homem mais velho, o sacerdote pagão, dito mais sábio e mais cheio de conhecimento, seria o “bondoso” ativo que lhe transmitiria, pelo coito anal, o conhecimento. Essa era uma das formas da prostituição cultual, e prostitutos e prostitutas cultuais foram chamados, em algumas traduções, de rameiras ou sodomitas, ou como “rapazes escandalosos”.

É possível imaginar a crueldade à qual os jovens (héteros ou não) eram submetidos, sendo o passivo com algum homem mais velho, sem afeto, apenas porque os deuses queriam assim?

Não se tratava de amor, de afetividade, tão pouco de homoafetividade. Se não chegasse a ser um estupro era, no mínimo, um abuso sexual público em nome do divino (porque é difícil acreditar que todos os jovens sentiriam prazer com tal prática, cultural e religiosamente forçada).

Claramente, Deus se enojava disto, e é fácil imaginar o porquê! Deus jamais aceitaria tais práticas em Seu bom Nome! E Ele, bondoso que é, teria que impor um meio para livrar o povo, os jovens, as crianças, os fracos e inocentes de práticas como essas.

É verdade que isso não está escrito, que o motivo das proibições não estão registrados na bíblia, mas, convenhamos, a humanidade precisou ser lapidada para abandonar algumas práticas de perseguição ao mais fraco. E ainda precisa ser muito lapidada!

Mas essa minha “imaginação”, de que a sodomia estivesse associada aos prostitutos cultuais, aos que praticavam coito anal em cultos pagãos, pode ser embasada pela própria Bíblia. Em 1 Reis, no capítulo 14, há a descrição da idolatria de Judá: haviam altares a Asera e também os prostitutos cultuais (traduzido como rapazes escandalosos) e que praticavam o coito anal para adorar aos deuses. Em 1 Reis 15, o rei Asa extirpa do meio do povo toda a idolatria: tirando os rapazes escandalosos (ou sodomitas, isto é, prostitutos cultuais) e os ídolos que os pais dele fizeram (leia também em 1 Reis 22 sobre isso).

Nenhum verso da bíblia deveria ser lido ou interpretado fora do contexto. Alguns contextos se perderam na história, mas a tônica de toda a Bíblia é o de amor divino! O contexto de toda a Bíblia é a revelação do plano de Deus de salvar os homens das suas atrocidades.

É uma crueldade associar essa prostituição cultual, e toda a opressão que dela poderia resultar, ao  amor homoafetivo. É uma crueldade dizer que homossexualidade (amor entre pessoas do mesmo sexo) seja a abominação de Levíticos.

Paulo lista os frutos do Espírito, os quais são: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra essas coisas ele afirma não haver nenhuma lei. Os que andam em Espírito as seguem e são seguidos por elas. Eu, sendo gay, consigo perceber esses frutos brotando em mim. Como posso não ter o Espírito fazendo morada em meu coração? Como posso ser uma abominação e ter frutos do Espírito? Como posso ser uma abominação e amar, a ponto de chorar pelos marginalizados ou por aqueles que percebo estarem tão longe de Deus, desejando que eles se acheguem aos braços do Pai celestial? Como posso ser uma abominação e dormir e acordar, diariamente, lembrando de Deus e do seu grande amor, dando a ele graças pela paz sempiterna que reina no meu coração?

Recomendo a todos, independente da sexualidade, que amemo-nos fraternalmente, pois todo o ser humano que conseguir amar é nascido de Deus e Deus vive nele (ao menos João ensinou isso na sua carta). E vivamos em Espírito, compreendendo que propagar o ódio, legitimar preconceitos e oprimir em nome de Deus foram, em Levíticos, abominações insuportáveis para Deus. E creio que ainda sejam.


*Recomendo a leitura do artigo: Revisão histórica e psicossocial das ideologias sexuais e suas expressões, de Dilcio Dantas Guedes, 2010.

Observação: O contexto de Romanos 1 também revela o caráter de idolatria das práticas sexuais “não naturais” (porque em serviço ao culto pagão), mas quero falar disso em outro texto.


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#012: Sodomitas não entrarão no reino dos céus?

Quando se ouve falar sobre a Torre de Babel, muitos ainda podem ter a fantasia de que aqueles homens queriam construir uma torre que chegasse até os céus. Alguns vão além, dizem que eles queriam chegar até o trono de Deus.

Essa história, assim meio distorcida, se perpetua porque apenas repetimos o que ouvimos, mas não lemos ou conferimos o texto.

Aqueles homens, ainda apavorados com o dilúvio, só queriam construir um obelisco enorme a fim de não se dispersarem para que, fossem aonde fossem, sempre pudessem retornar àquele local. Assim, unidos, seriam um povo forte.

É mais ou menos essa ideia, simples e sem fantasia, que está relatada em Gênesis: “eia, façamos uma torre muito alta, para que nunca sejamos espalhados por toda a terra”.

É fácil aceitar isso, pois ao ler a passagem qualquer um tem que entender: não está escrito que eles queriam chegar ao céu, ao trono de Deus, apenas que eles não queriam ser espalhados pela terra.

Da mesma maneira, não está escrito que o pecado de Sodoma e Gomorra era a homossexualidade. Ao contrário, não há indício algum de que aqueles homens eram homossexuais ou simpatizantes. Na verdade, lendo a passagem, só podemos concluir que aqueles homens eram maus, tão maldosos a ponto de querer humilhar os estrangeiros, estuprando-os publicamente.

E podemos ter certeza disso, de que os cidadãos sodomitas não queriam fazer amor, mas queriam fazer mal, pois eles mesmos dizem a Ló: “Ora, você sendo estrangeiro quer ser nosso juiz? Então faremos mais mal a você do que aos seus convidados!”.

A intenção dos sodomitas, claramente, era a de fazer mal, em oposição a qualquer forma de fazer amor ou de agir com hospitalidade.

Ora, ainda assim alguém pode dizer: não está escrito que era um estupro que aqueles homens queriam fazer! Mas, convenhamos, sexo à força é estupro! E nem os anjos e, tão pouco, as filhas de Ló, deveriam ter desejado aquele sexo “proposto” pelos sodomitas, e que seria feito com todos os homens da cidade, jovens e velhos.

Este é outro fato descrito!

Veja bem, a passagem diz que todos os homens da cidade, de todos os bairros, desde o moço até o velho, desceram ali, à casa de Ló, para ter relações com aqueles homens. Isso não se parece com homossexualidade. É impossível que todos os homens, jovens e velhos, de uma comunidade inteira, se apaixonassem ao ponto de desejarem o carinho daqueles estrangeiros e, de comum acordo, por um amor coletivo, decidirem ter relações, todos, com aqueles estrangeiros, uns após os outros.

Isso não tem a ver com homossexualidade. Isso é perversidade, isso é malignidade. Isso é o desejo de humilhar o diferente. O desejo de envergonhar o fraco, e de exterminar cruelmente as minorias. Isso é ser sodomita: desejar humilhar e maltratar, em vez de tratar com cordialidade e hospitalidade. E mais isto: o desejo de rebaixar e violentar o mais fraco.

A relação sexual que aqueles sodomitas queriam praticar não tinha nada a ver com qualquer tipo de amor, nem mesmo tinha a ver com a perversão e promiscuidade que se nota no meio homossexual da atualidade (pois hoje, por mais libertinagem que haja nessa homossexualidade pervertida de muitos, assim como há na heterossexualidade, as partes concordam e se desejam mutuamente, ainda que apenas por um momento).

Aquilo que os sodomitas iriam praticar, se Deus não intervisse, era uma violência física, sexual, emocional e simbólica, pública e coletivamente. Isso não poderia ser chamado nem de estupro, pois minimizaria o que aqueles cidadãos sodomitas fariam: dois homens que seriam violados e violentados por todos os homens de uma comunidade, desde os jovens até os velhos e, caso ainda estivessem vivos, depois dessas “relações” seriam mortos, por certo. E tudo isto apenas pelo fato de eles serem diferentes.

Isso é ser sodomita: violentar o indefeso, o marginalizado, o diferente e o oprimido. Violência que pode ser verbal, física, emocional, sexual, simbólica e outras tantas que a crueldade humana possa imaginar.

É por isso que é muito verdade o que dizem: sodomita não pode, jamais, entrar no reino dos céus, porque ser sodomita é ser absolutamente contrário a qualquer sentimento de paz, de amor, de união e de afeição. E Cristo, aquele amado Cristo que foi revelado em Jesus, tem esse mistério consigo: de tornar a reunir todas as coisas, desde as que estão nos céus, como as que estão na terra.

Se Cristo carrega esse ministério, de tornar a unir, qualquer coisa que trabalhe contrariamente a isso não pode ter entrada no céu. É por isso que o sentimento e ações de um sodomita são contrários ao reino de Deus. Todo tipo de violência é contrária ao reino de Deus, e aqueles que a praticam, jamais podem ter permanecente nele a Vida.

Convertemo-nos das nossas violências contra o próximo, amando-nos uns aos outros, não como nos amamos, muito mais! Amemo-nos como Cristo nos amou!

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