#036: Eu sou um cordeirinho

Após algumas crises depressivas fortes e solitárias, com pico em 2013, eu comecei a pleitear com Deus, questionando-O e cobrando que Ele tivesse alguma ação efetiva em minha vida, no que se referia a minha sexualidade, até então, muito mal resolvida.

Eu ainda não era completamente capaz de entender Deus para além da igreja e, ainda, havia muito em mim que acreditasse na Congregação como O caminho para a salvação (em uma terrível idolatria minha, porque atribuía à instituição religiosa aquilo que deveria ser conferido exclusivamente a Cristo).

No meio de 2014, com o retorno de crises depressivas, eu estava decidido mudar-me para longe, onde ninguém me conhecesse, a fim de me permitir viver em paz, sem aquele medo de causar escândalo à igreja caso eu vivenciasse minha sexualidade, porque eu percebia que já não podia suportar escondê-la ou negá-la.

É interessante que meu medo não estava relacionado a Deus, mas ao potencial escândalo que minha homossexualidade poderia causar aos irmãos e à congregação em si. Havia, sim, momentos em que eu vacilava na fé da minha salvação, dias em que eu duvidava poder alcançar a salvação, e era atormentado com os terrores de ir para o inferno. Mas não era exatamente um medo de Deus, nem um medo de Ele me detestar, até porque, sempre que eu me sentia acusado, as Palavras diziam o contrário e me justificavam: elas continuamente afirmavam que era amor e não ódio o que Deus sentia por mim. E eu tinha de crer nisso!

Lembro-me de, ainda muito jovem, ter tido estímulos sexuais por ver um homem em uma revista aleatória que estava em minha avó, o homem sem camisa etc. Por isso, por não querer sentir o que sentia, chorei horrores, com muito desgosto de ser quem eu era e, com o pouquíssimo conhecimento da Bíblia que eu tinha à época, me veio a passagem em que o sumo sacerdote Josué é justificado e purificado com a brasa viva, trazida na tenaz pelo serafim (eu sequer sabia onde estava escrito isso). Coincidência ou não, no culto daquele dia a passagem lida foi justamente essa e eu (viado que já era!) chorei horrores (porque homem não chora! chora sim!) logo na leitura ao perceber o assunto.

O fato é que Deus jamais se ausentou ou se distanciou de mim, se considerarmos que é Ele quem fala por meio das Palavras pregadas na Congregação. Com base nas pregações que eu sempre ouvi, eu jamais me senti excluído [1] porque sempre entendi que Deus me queria ali na igreja, como um de seus cordeirinhos.

Contudo, em 2014, com meus 26 anos, eu comecei a querer fugir, não de Deus, mas da igreja. Minha intenção era me mudar de São Paulo para Santa Catarina, inclusive fui até esse estado para ajustar um trabalho. Assim que voltei do Sul, congregado na central de São Carlos/SP e do lado de fora da igreja (costume que eu jamais poderia supor que eu adquiriria, pois eu sempre chegava cedo para tocar nos cultos…) eu ouvia a Palavra, que me dizia (nas poucas vezes que presumi uma confirmação divina em assunto material) que Deus cercaria meus caminhos e que me faria ir para outro caminho que não o que eu planejava.

Semanas depois, mudei-me para Ribeirão Preto/SP, a trabalho em um emprego que surgiu na mesma semana dessa Palavra que citei. Lá, em vez de me esconder, como pressupunha ser o melhor, a primeira coisa que fiz foi ir a uma Reunião de Jovens. Apesar de já não me sentir um dócil cordeirinho, por estar bastante relutante com o Senhor, em um dos dias mais depressivos que tive nessa cidade, minha “libertação” veio por meio da lembrança da poesia do hino 441 [2], enquanto andava por uma das vias daquela cidade, pois compreendi que mesmo me sentindo sozinho em um deserto eu poderia ter a certeza de que Cristo estava bem perto, porque residia em mim, em meu coração.

Eu tenho evitado escrever textos, pois não gostaria de apenas criticar a igreja, ou suas tradições e práticas, ditas cristãs, mas que excluem os homossexuais, pois os faz se anularem e repugnarem a própria essência, a própria natureza sexual. Esse cuidado, apesar de nele eu falhar miseravelmente, vem do fato de que, embora afastar-se da igreja possa ser necessário para curar as feridas de muitos cordeirinhos homossexuais, esse distanciamento não vem sem lhes causar outras feridas.

É com orgulho que, por muito tempo, dizemos (ou dissemos) o “eu nasci e cresci na Graça!” ou o “eu sirvo a Deus, por graça e misericórdia, na Congregação!”. É comum a igreja tornar-se algo que cada membro, inclusive aqueles que são homossexuais, coloca em lugar de destaque na vida, a ponto de confundir a instituição com o próprio Cristo (explícito no uso do termo Graça como sinônimo da igreja [3], por exemplo). Pertencer à Congregação é motivo de orgulho e, ainda que apanhando com muitos discursos homofóbicos, somos (ou fomos) capazes de encher o peito com prazer ao dizer que somos crentes da Congregação.

Lutamos e nos debatemos muito, com o intuito de conseguir nos moldar às tradições. Ainda que isso nos fira dia após dia, desejamos arduamente permanecer na igreja à maneira como somos ensinados e, no que se refere à homossexualidade, debatendo-se contra ela. Não se trata apenas de não fazer “sexo homossexual”, mas de empregar energia emocional e psicológica tão demasiada que, em algum momento, somos consumidos ou de incontrolável tristeza ou de enorme falta de fé. Mas sair da igreja, abandonar os costumes que em outro tempo nos eram quase divinos, abrir mão de tocar na orquestra ou de outras liberdades que temos, ignorar as próprias crenças… para sofrer menos com a homofobia cristianizada, nem sempre é menos doloroso do que permanecer na igreja.

Apesar de essa homofobia ser incoerente e de ela precisar ser, sim, debatida e criticada à luz do próprio Evangelho e da mensagem de Cristo, acredito que a Congregação possa ser um lugar que sirva de aprisco também para os cordeirinhos homossexuais. É difícil ignorar alguns discursos e mais ainda se lapidar para caber neles, mas os homossexuais que não conseguirem enxergar Cristo para além da igreja (qualquer seja ela!) podem, no mínimo, se apoiar naquilo que há de belo em cada uma. Pode confiar que Jesus é, sim, seu Pastor; pode confiar que, ainda que a homossexualidade fosse, de fato, a abominação que dizem ser, Cristo coloca em seu braço cada cordeirinho gay e os carrega consigo para levá-los a um aprisco de verdadeira paz.

É difícil acreditar que a homossexualidade não é pecado e, presumo, é impossível de se provar isso à maneira como querem (a única prova é a ação do amor de Deus na vida de cada um, mas isso não perece ser suficiente para muitos). Contudo, é indiscutível que Deus ama a todos, pois quer que todos se salvem. Se assim é, seria bastante incoerente Ele não desejar exatamente o mesmo àqueles que O amam, ainda que sejam homossexuais.

O hino Eu sou um cordeirinho é bastante conhecido pelos irmãos da CCB, pois talvez seja o primeiro hino que toda criança aprende a cantar. Por isso mesmo, eu jamais poderia esperar haver alguma libertação nele, no sentido de uma reflexão que promovesse em mim tranquilidade e paz de espírito, pois tornei-o comum. Ao me atentar para a beleza da singela poesia desse hino e perceber a profundidade daquelas palavras, quase ignoradas, encontrei libertação e alívio às minhas tribulações.

É nesse aspecto que recomendo (enquanto não se consegue compreender Cristo para além de qualquer igreja) procurar olhar mais para a beleza que há no meio cristão, pois, apesar de toda a homofobia e incompreensão que a maioria dos frequentadores de igrejas têm, sempre há aquele irmão ou aquela irmã em cujo amor cristão e fé verdadeiros acharemos descanso, carinho e fraternal afeto. É nisso que os verdadeiros cristãos se distinguem do joio: em ter a fé pequena como o grão de mostarda, mas capaz de tornar-se uma enorme árvore em cuja sombra os pássaros encontram alívio e descanso.

Se, ainda assim, tudo na igreja parecer nos rejeitar, devemos crer ao menos na profecia que aprendemos a cantar desde a nossa meninice: “O meu Pastor amado me guia até o fim!”.

Apesar de viadinhos, somos todos cordeirinhos da sua grei!

[1] Embora eu não tenha me sentido excluído ou diretamente acusado em nenhum culto, tive o privilégio de sofrer menos por não ser efeminado e, por isso, ninguém desconfiava de mim para me direcionar pregações nesse contexto (acontecia justamente o contrário, apesar de minha homossexualidade, recebi inúmeras pregações exaltando meu testemunho e me fazendo promessas que jamais fariam para um homossexual, como que Deus prepararia meu matrimônio – quando eu não buscava um -, ou que minha esposa já estava preparada e logo eu a encontraria – quando eu não buscava uma -, ou, até mesmo, que eu faria parte do Ministério, que eu seria pregador etc. – é importante provar os espíritos, e discernir aqueles discursos que vem de Deus e fazem nos achegar a Ele daqueles que vem do homem, ainda que digam ser em nome de Deus!).
Por vezes, já recebi relatos de jovens homossexuais que disseram terem sido acusados diretamente, com o dedo do pregador sendo apontado para eles, figurativa ou literalmente. Eu, em qualquer contexto, sempre desconfio de pregações direcionadas. Talvez não seja à toa que há, inclusive, ensinamentos oficiais da CCB orientando aos pregadores que não façam isso e condenando a prática. Além disso, é como está escrito: “Ai do homem que diz ‘O Senhor te manda dizer’ quando Deus não disse nada!”. A pregação verdadeira não é, jamais, a que nos faz duvidar do amor, misericórdia e compaixão divinos, mas é toda aquela que nos aproxima de Deus, dando-nos certeza e confiança do Seu amor e da salvação!

[2] Hino 441 – Eu sou um cordeirinho

[…] “Sozinho no deserto, jamais eu posso andar.
Jesus está bem perto, a fim de me guardar.
É grande o cuidado que ele tem por mim.
O meu Pastor amado me guia até o fim”

[3] O hino em que cantamos “Graça maravilhosa” ilustra esse fato. Por muito tempo um crente pode cantá-lo imaginando a Congregação em lugar do sacrifício impagável de Cristo, a graça e misericórdia.

#032: Há mais gays porque estamos no fim dos tempos?

Eu até comecei a frequentar os Cultos para Jovens [1] , logo que iniciaram, em 2017. Desisti muito rápido, eu sei. Já no segundo ou terceiro que participei. Era em minha cidade; um dos Anciães da cidade atendia; tudo ia bem. Sem muita interação, mas ia bem: cantamos alguns hinos, oramos, o irmão deu alguns conselhos…

Meu antigo Cooperador de Jovens – hoje Cooperador da Comum em que eu ainda sou Auxiliar de Jovens (embora pouco tenho frequentado as RJM  e há tempo que não congrego nos cultos oficiais de lá) – levantou, na frente do Ancião, pois precisava dizer algo. Precisava, sim. [2]

Eu me lembrava de que ele era bem rígido, e já fazia algum tempo que não congregava com ele. Imaginei que viria alguma doutrina “pesada”.

Temos de voltar a ser como antigamente – dizia ele.

Não entendi imediatamente, mas, enérgico e autoritário, ele prosseguiu: Temos de voltar a ser intolerantes com o pecado, como até mesmo o mundo era intolerante, antigamente.

Eu quis fingir não entender, mas não consegui imaginar outra coisa senão os “bons costumes” e a “boa moral” que, à força e hipocritamente, eram “defendidos” há algumas décadas. Não posso afirmar que ele se referia à ditadura. Não falou isso abertamente. Remeteu a um autoritarismo, com certeza.

Ele dizia que deveríamos voltar, nós cristãos, a ser intolerantes com o pecado.

Cristãos intolerantes.

Aos meus ouvidos soa incompreensível, mas deve fazer algum sentido para muitos, infelizmente.

Não julgo.

Até porque, por exemplo, a mim faz sentido “gay cristão” e sei que, para muitos, isso é uma grande incoerência.

— Temos de voltar a ser como antigamente – dizia ele. — Não tolerar o pecado.

Eu também sei que, para justificar essa intolerância “cristã”, alguns podem usar daquela máxima “ódio ao pecado, amor ao pecador”, mas, como eu já escrevi alguma vez, isso soa para mim como defender “odeiem os latidos, a baba, os pelos do cão, mas amem o cachorrinho”.

Incoerente, ao menos para mim e no que se refere ao homossexual.
Esse discurso de que antigamente tudo era melhor, de que o mundo vai de mal a pior… fica legitimado quando pessoas como esse Cooperador ou como minha mãe (que ainda não sabe que sou gay) veem tantos viados lindos desfilando de mãos dadas por aí.

É como ela disse, certa vez: o mundo vai de mal a pior, é o fim dos tempos mesmo!
– se referindo ao “aumento” “absurdo” de gays.

Não há sabedoria alguma em dizer que o mundo vai de mal a pior, ou em acreditar que antigamente as coisas eram melhores, ou em se apoiar em um saudosismo, na “lembrança” de tempos supostamente melhores que se foram ou na saudade do que, de fato, não se viveu.

É como está escrito:

Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta. (Eclesiastes 7:10)

O mundo não está pior, nem é evidência do “fim dos tempos” haver tantos homossexuais expostos à luz do dia.
Se há alguma evidência do fim dos tempos é o fato de o amor de muitos estar se esfriando, ao ponto de não conseguirem amar os próprios filhos por serem homossexuais, ou de pessoas ditas cristãs rejeitarem ter qualquer comunhão com uma pessoa de “boa índole” e de “testemunho impecável”, mas que “dá pinta”…

A evidência do fim dos tempos não é haver gays querendo ser, a todo custo, cristãos, mas em haver cristãos querendo ser, a todo custo e em nome de Cristo, intolerantes.

É como está escrito:

Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz; porventura não a percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no ermo. (Isaías 43:18-19)

Não tenhamos saudade dos tempos passados, nem acreditemos em discursos de que antigamente, quando nós gays éramos enrustidos e silenciados, as coisas eram melhores. Não há sabedoria nisto!

Acreditemos, porém, que a luz de Jesus brilha sobre nós também, pois Deus fez uma coisa nova, que não estava explícita antigamente; criou um caminho no deserto e rios no ermo, proclamando salvação onde (antigamente e ainda hoje) querem dizer: só há condenação. Criou um caminho que se chama amor de Deus por todos – Cristo. E todo aquele que trilhar esse Caminho será chamado filho de Deus, porque não há ninguém que ame e não seja nascido de Deus, ainda que seja homossexual e “dê pinta”.


[1] Os Cultos para Jovens, no interior de SP, tiveram início em 2017. São cultos voltados para os jovens, com caráter diferente das Reuniões de Mocidade e das Reuniões de Jovens e Menores (RJM).
[2] Cooperador de Jovens e Menores, Cooperadores e Anciães são cargos ministeriais, relativos, entre outras responsabilidades, à exortação da Palavra. São equivalentes, de maneira simplificada, ao cargo de Pastor em outras denominações.


Gay, lésbica, homossexual, LBGT, crente, cristão, evangélico, CCB, Congregação Cristã no Brasil.

#030: Carta aberta enviada ao Conselho de Anciães da CCB

Em 24 de março de 2019, enviei uma carta ao Conselho de Anciães da CCB, via e-mail. Acredito que ela resume meu posicionamento atual, em relação a diversos aspectos sobre a homossexualidade e o sistema religioso em geral, embora minha experiência religiosa seja restrita às práticas da CCB.

Com o tópico de ensinamento 10*, da 84ª Reunião Geral de Ensinamentos da CCB, realizada  em abril de 2019, ficou claro e documentado o quanto necessitamos de orientações de amor e acolhedoras, próprias de cristãos legítimos.

Se você conhecer irmãos do Ministério que, aberta ou implicitamente, no mínimo não nos lancem no inferno sem ao menos refletir um pouco sobre o peso que suas palavras possuem (por serem do Ministério e disseminadores de “verdades” “legítimas”), fique à vontade para enviar essa carta a eles.

Você pode ler a carta baixando o PDF aqui:

Tudo o que Deus fez é bom e nada é recusável, se recebido com gratidão (1 Timóteo 4: 4). Além disso, tudo foi feito por meio d’Ele e para Ele; sem Ele nada subsiste (Romanos 11:36; Colossenses 1:16-17 etc.). Não há condenação para os que estão em Cristo, e a prova de que estamos em Cristo são as obras de amor, aqueles frutos DO Espírito em nós! O amor é a prova da salvação, pois não há ninguém que ame e não seja nascido de Deus (1 João 4:7 etc.).


*texto 31 do blog


Tags: LGBT, homossexualidade, gay, lésbica, transexual, cristão, CCB, Congregação Cristã no Brasil.

#029: Carta a um irmão ancião [2]

Queridos irmãos,

Venho expor, brevemente, um assunto que merece muito tempo de discussão e reflexão. Justamente por ele nunca ser questionado, ouvimos algumas afirmações simplistas, porém que acarretam grandes desastres na vida de muitos. Do púlpito – lugar que estimamos e que, às vezes, chegamos a considerar como sendo de onde procede a voz de Deus – têm saído palavras que corroem e destroem o sentimento e a vida de muitos jovens, moços e moças cristãos. Uma destruição invisível, que passa despercebida ou que é ignorada.

Falar sobre mim talvez seja em vão, ainda possuo vida e, por grande misericórdia de Deus, nunca cheguei a pensar em me matar, ainda que já amargamente desejei a morte a fim de não sair dos padrões e doutrina da igreja.

Aliás, jamais me dirigirei aos irmãos e ao Ministério com intuito de mudar qualquer coisa da compreensão do Evangelho que os irmãos tenham. Não é esse o caso.
Quando nasci minha mãe já congregava e logo se batizou, a família do meu pai já era da CCB, e ele batizou apenas em 2008. Tenho quase 30 anos e, na minha meninice já possuía diversos indícios de que eu escaparia do padrão heteronormativo. Senti a virtude pela primeira vez e também fui batizado aos 12 anos e, desde então, nunca mais usei bermuda, nunca mais andei sem camiseta. Nunca ouvi música “mundana”, nunca idolatrei time de futebol. Dia 18 agora fez 11 anos que recebi o dom de línguas, quando uma perturbação maligna precisou ser expulsa de minha casa. Minha mocidade foi sempre dedicada em servir a Deus e fazia isso ocupando todo meu tempo dentro da CCB: sou auxiliar de jovens há 15 anos, músico oficializado, sempre ajudei nas escolinhas musicais e fui instrutor por alguns anos, auxiliei na Administração e também o Ministério confiou deixar em minhas mãos, com a ajuda de Deus, o atendimento de cultos de evangelização na Fundação CASA e também em diversas Reuniões de Jovens e Menores em que o cooperador de jovens estivesse ausente.
Ainda sou solteiro e a pressão para que eu me case nunca cessa. Com quase 30 anos já estou fora do padrão da igreja, pois é aconselhado aos moços que se casem antes disso. Meu antigo cooperador de jovens me disse, quando eu tinha uns 27 anos: Você está perdendo tempo, com sua idade eu já tinha 2 filhos! Em uma Reunião de Mocidade, já com 28 anos, o ancião dizia: se o moço tem 26, 27 anos e não casou, tem algo errado.

Também em uma Reunião de Mocidade, há algum tempo, um ancião aconselhava: moço, se você não sente atração por mulher, procure um médico, se você tem vergonha vá a uma cidade longe, mas procure orientação de um profissional. Em 2014, eu estava com depressão, sabia o motivo, mas não dizia a ninguém. Sem querer, passei por uma psicóloga e ela me aconselhou: esqueça religião, se você é homossexual, seja você!

Outro irmão, em Reunião de Mocidade dizia: um irmãozinho veio me pedir ajuda, porque ele olhava para moços sem camisa e não conseguia conter seus desejos. E completava: moço se você sente isso, não se case com moça, não arruíne a vida dela. Ele não falou ter ajudado o irmãozinho homossexual, apenas se preocupou em que nós homossexuais não arruinássemos a vida de ninguém, parece pouco importar que nossa própria vida esteja ou que seja arruinada.
Como se não bastasse, recentemente, aqui na capital, um dos anciães mais antigos disse em uma Reunião de Conselhos que nós – homossexuais que tentam ser cristãos – poderíamos nos achegar ao Ministério após o culto para conversar. Disse também que o “homossexualismo” se trata de “uma enfermidade demoníaca e diabólica” que “assola o povo”.
Alguns desses discursos vêm em tom de deboche. Outros enraizados em um preconceito ou até em ódio dissimulado em zelo. Há aqueles que são sinceros, sim, porém sem muito esclarecimento sobre o assunto.
Como se já não fosse difícil ouvir do púlpito que somos “endemoninhados”, doentes, ou sem temor a Deus, em nossos lares esses discursos se repetem e com menos reflexão ou sensibilidade. Minha mãe, sem saber da minha condição enquanto homossexual, disse, certa vez: é o fim dos tempos mesmo, o mundo está “empesteado” de homossexuais. Eu não sei qual é a visão dela em relação à homossexualidade, e nem como ela vai reagir quando souber que o filho amado e dedicado dela é uma “peste”. Mas eu sei bem onde ela aprendeu isso, pois o convívio dela é entre a irmandade e não assistimos TV. Praticamente toda orientação e instrução que ela tem do assunto são provenientes do que ela ouve na igreja.
Tenho mantido contato com moços e moças da CCB e que são homossexuais, aqui na capital, do interior de São Paulo e de alguns outros estados. Não são poucos os relatos de que os familiares os rejeitaram, não porque tivessem relações sexuais ditas imorais, mas apenas e simplesmente porque se viram com sentimentos homossexuais. Nossos conhecidos e familiares cristãos, membros da CCB, por tanto ouvirem que somos uma abominação, nos rejeitam, nos excluem e tentam nos fazer acreditar que somos de fato uma aberração. Somos a pior abominação de todas perante Deus, como um primo (muito crente e espiritual) me disse certa vez, logo que me batizei, e que me causou tormentos e sofrimentos no mínimo até os meus 28 anos.
Como se não bastasse a rejeição de quem nos ama, muitos jovens homossexuais, por também crerem pia e irrefletidamente no que sai dos púlpitos, veem na morte uma saída. No fim do ano passado um moço de 18 anos me contatou e ele estava disposto a se suicidar, pois ele mesmo acreditava que estava possuído de um espírito maligno. Com o tempo ele se entendeu, porém sua mãe continua reforçando e crendo nisto e, por vezes, ele desanima a ponto de, novamente desejar a morte.
Ainda essa semana, uma moça de uns 23 anos, que foi minha aluna em 2012, também homossexual, relatou que seu irmão, um mocinho de cerca de 15 ou 16 anos, se suicidou a pouco tempo, justamente pela repressão que sofria por se entender homossexual.
Cada vez que um jovem me contata para falar suas dores, seus pavores ou anseios pela morte eu me sinto incapaz de salvá-los, de convencê-los a viver, de incentivá-los a viver em Cristo, fonte de vida e paz. Mas essa foi a primeira pessoa que me disse sobre alguém que chegou ao ponto de se matar porque não se enxergou dentro dos padrões da igreja – já que homossexual, ainda que não praticante –, porque não compreendeu que poderia ser digno de salvação por mérito de Cristo e, ainda, porque foi rejeitado pela irmandade e incompreendido pela família.
Como eu disse, estou expondo muito brevemente o assunto e gostaria que ele fosse melhor refletido. Eu sinto o peso da morte desse jovem e o peso da vida amargurada e longe de Cristo – fonte do amor e vida verdadeiros – que outros tantos têm. Eu gostaria que cada um dos irmãos do Ministério sentisse esse peso também. A vida desses jovens e a perda dela está nas mãos de cada um de nós que permitimos que discursos de ódio, de preconceito ou de incompreensão de algo tão delicado sejam proclamados em nome de Deus.
É verdade que há um consenso de que a prática homossexual é pecado e nem questiono isso, pois não é o importante nesse momento.
Na CCB aquele irmão que se ira ou xinga outro não é tratado como abominável – embora Jesus afirma, em uma hipérbole, que este é digno do inferno. Também não se lança no inferno aqueles que são desleais nos contratos, infiéis, detratores, caluniadores, maldizentes. Aliás, por graça de Deus, é comum ouvir discursos e Palavras que nos estimulam a ter paz e paciência com todos os homens, mesmo com esses infiéis. Mas quando se trata da homossexualidade a irmandade – e alguns não poucos irmãos do Ministério – propagam um discurso diferente, em que o amar essas pessoas parece se tornar tão abominável quanto ser um homossexual.
Eu realmente não espero que o Ministério leve adiante a questão: é a prática da homossexualidade pecado ou não?
No entanto, é urgente que os irmãos do Ministério, às vésperas da Assembleia, reflitam que a vida de centenas ou milhares de jovens está nas mãos dos irmãos e do que os irmãos discursam e propagam nos púlpitos e que a irmandade recebe como sendo a voz do próprio Deus.
Tenho muito que falar, mas não quero fazer isso por escrito.
Coloco-me à disposição para conversarmos sobre o tema e tentar impedir que vidas materiais se percam e, por que não, possibilitar que esses jovens tenham a vida espiritual e paz em Deus, por meio da graça de Cristo, que nos abraçou e amou imerecidamente.
Com muitas preocupações, e com todo o respeito e carinho que tenho pelos irmãos,
João ********* 
São Paulo, 21 de março de 2018. Contato: *********@gmail.com


Carta entregue pessoalmente, em 2018 e um pouco antes da Reunião Geral de Ensinamentos (RGE), a um irmão ancião dentre os mais antigos da capital de São Paulo. Respondeu-me com um e-mail, demonstrou-se interessado em conversar pessoalmente, porém, até hoje (5/8/2019) , ainda não consegui isto.

#027: Hipocrisia nossa de cada dia

As luzes piscam, piscam. A música ruim toca na casa alheia e é impossível não escutá-la. Não há para onde fugir. É necessário sorrir mesmo ouvindo “aleluias” àquele discurso que diz: acabarei com a ideologia de gênero (sic); lutarei pela família tradicional (sic).

Lembranças e memórias também assombram. Há tempos que não chorava assim, de tristeza ou de espanto. Ódio! Raiva? Rancor! Fúria? Desespero?

Incerto é o que se passava no turbilhão de pensamentos. Memórias de tudo o que já se acreditou e que hoje não faz sentido algum. Regras, regras. Mandamentos sobre mandamentos. Sem lógica.

Dois pesos. Duas medidas. Não case com moça! – ouviu-se certa vez. Outra: vou preparar o seu casamento. E ainda uma: você faz o Ministério refletir com seus bons argumentos, precisa se casar para fazer parte dele.

Ah! Eu só quero nunca mais vincular meu nome, minha identidade, minha essência ao que pensam.

Discriminam em nome do divino. Legislam em prol de um reino que não compreendem, pondo para fora em vez de a ele agregar. Por quê? Apenas porque não toleram!

Hipócritas! – disse Jesus aos religiosos fariseus que examinavam as Escrituras acreditando que nelas havia a vida, mas que, quando a própria vida a que buscavam se manifestou, a açoitaram e crucificaram. [1]

Examinem. Examinem. Vocês também acreditam ter nela a vida, a vida eterna. Tem. Não há, no entanto, ninguém que entenda, ninguém que busque, ninguém que encontre [2]. Nem entram no reino nem permitem que outros entrem [3]. Têm zelo, é verdade. Sincero, por sinal. Sem nenhum entendimento, no entanto [4]. Coam mosquitos, engolem camelos [5].

Dizem: não toquem nisso, não provem aquilo, não manuseiem aquele outro [6]. Se questionados sobre o porquê, eloquentemente dizem: porque está escrito. Se lhes é dito “mas também está escrito assim e assim” dizem: torcem as escrituras para a própria perdição [7]. Verdade, distorcem-na para própria perdição. Não entram nem permitem que outros entrem no reino de paz. De paz. Paz!

Legislam em nome do divino. Regras que aparentam sabedoria, devoção, controle da carne, santificação – ao que entendem por santificação. Regras que satisfazem apenas a presunção humana [6] de bater no peito e dizer: eu mereço o céu porque não faço isso nem aquele outro. Ou em uma modesta “humildade”: eu não mereço o céu, é verdade, mas ao menos sou melhor do que estes que fazem abominações [8]. Sexuais, notadamente. Ódio, violência, desavença, pelejas, porfias, desafetos… são todos divinamente tolerados, registram em seu âmago.

Também é o mesmo que dizer: eu mereço que Cristo seja esbofeteado por mim, porque sou bom, sou justo, não pratico isso nem isso, veja Jesus, sou digno de que sofras por mim, pois sigo todas essas regras que disseram ser necessárias para aparentar santidade.

Amem-se uns aos outros como eu – Jesus – amei vocês [9]. Ora, convenhamos, não fazer isso, nem aquilo é muito mais fácil. Dirão: Eu amo a Deus porque me privo de muitas coisas, ainda que não tolero a muitos “próximos”. Se não ama ao irmão a que vê, como amarás ao Deus invisível? Mentiroso! [10]

Acharás fé em algum coração quando retornares, Jesus? [11] Amor fraterno e misericórdia certamente bem pouco.

Perdoa-nos e não nos impute os pecados, pois estamos cegos e não sabemos o que fazemos acreditando estar a teu serviço. Como Pedro – no ímpeto carnal e na ignorância do teu reino – disse que tu não morrerias [12], dizem que tu também não deves salvar a muitos. Segundo as regras humanas, deves salvar apenas alguns poucos que são “firmes e fiéis” aos preceitos, ainda que não ao amor cristão.

Tu ainda és refúgio e refrigério, enorme árvore na qual as aves do céu se amontoam e acham descanso [13]. És, certamente. No entanto, talvez não nos lugares em que se diz estarem reunidos em teu nome.

Fácil criticá-los. Nem tanto, mas ao menos possível. Resta-me, contudo, não esquecer de que se minha “justiça” não exceder a dos “escribas e fariseus” serei privado do reino dos céus [14].

[1] João 5:39-40

[2] Salmos 14:1-3; 53:01 e Romanos 3:10-12

[3] Mateus 23:13

[4] Romanos 10:12

[5] Mateus 23:24

[6] Colossenses 2:21-23

[7] 2 Pedro 3:16

[8] Lucas 18:9-14

[9] João 5:12; 13:34

[10] 1 João 4:20

[11] Lucas 18:8

[12] Mateus 16:22-23

[13] Mateus 13:32 e Lucas 13:19

[14] Mateus 5:20

Gay; homossexual; lésbica; LGBT; cristão; crente; evangélico; CCB.

#018: Por que ainda estou no "armário"?

Tenho me mantido “no armário” por tanto tempo por temer abalar a fé daqueles que me cercam e que tanto amo. Essas pessoas, entretanto, mal podem imaginar que a cada dia roubam um pedaço de nós, roubam um fôlego, uma esperança. Elas não imaginam que a cada dia podem matar um pouco de nós, se não o nosso desejo de viver, ao menos a nossa fé e confiança.

Hoje ouvi, sem querer, da pessoa que mais me ama neste mundo, um diálogo simplificado a seguir:

– Ele já até é assumido.
– Tudo está desandando, é o fim dos tempos!
– E não se pode falar nada, tem que aceitar.
– Porque qualquer coisa, que se diz, é preconceito.

Aquela frase* “Antes de dizer o ‘amém’ na igreja, lembrem-se que uma criança está te ouvindo” não poderia ter sido mais autêntica, mais real. Senti e ouvi, mais uma vez, esse “amém” tenebroso ecoando em mim.

Essas pessoas que me cercam (e não falo de pessoas que propagam ódio, não, pois a estas tenho ignorado, mas falo de pessoas que amam e servem a Deus em muita sinceridade) não podem compreender o peso que tem o “amém” que falam, não só na igreja, mas no dia a dia, a todo instante. Elas não imaginam que, do lado delas, pode haver uma “criança” ouvindo aquele “amém” irracional.

Há um tempo venho querendo escrever um texto de mais confiança, de mais ânimo, um texto que resolvesse nossos questionamentos, nosso desespero e luta por aceitação, por compreensão. Que resolvesse ao menos nosso anseio para sermos ouvidos. Não consigo, perdoem-me.

Porém eu sempre posso lhes dizer que, para cada peso que colocam sobre mim, eu sinto um refrigério de Deus que me dá paz. Eu queria poder fazer com que todos, héteros e homossexuais, pudessem sentir essa paz! E tudo que eu posso dizer é que encontrei essa paz lendo a Bíblia, mas rejeitando os pré-conceitos que eu tinha. Eu não pude achar um verso se quer que condenasse os que amam a Deus e as pessoas, e que têm os frutos do Espírito, que se resumem na mansidão e amor.

A Bíblia não condena essas pessoas, mas diz que elas são salvas. Aliás, todo e qualquer discurso de ódio ou intolerância que ouvirmos, podemos ter muita certeza de que não está apoiado, legitimamente, na Bíblia. Jesus desconstruiu esses discursos de hipocrisia e marginalização do diferente, e qualquer “amém” que não seja com entendimento, e para agregar, não pode ser chamado “culto racional”.

É por isso que sinto uma paz e confiança imensa e, ao ouvir esse “amém”, já não choro por mim, mas por lembrar que, diariamente, há “crianças” ouvindo discursos que as aniquilam, pouco a pouco.

Foi “em nome de Deus” que conseguiram instaurar discursos mortíferos, assim como Paulo perseguia e matava cristãos em nome de Deus. Ele tinha muito zelo, mas nenhum entendimento. Os cristãos se escondiam e refugiavam nas cavernas, eu me escondo no “armário”, ao menos por um pouco mais de tempo, rogando forças e luz para agir em defesa do nome de Deus. Confesso, contudo, que na maioria das orações, simplesmente suplico: Ora, vem, Senhor Jesus.

Refugiem-se em Cristo, é ele que sempre nos defende. Se você nota possuir obras do Espírito Santo (aquelas de amor, tolerância e misericórdia para com todos), não seja aniquilado pelos discursos de intolerância, ainda que sejam proferidos em nome de Deus, pois, como está escrito: eles têm zelo de Deus, mas sem nenhum entendimento.

PS: quando digo “estou no armário por temer abalar a fé das pessoas”, não estou a dizer que os assumidos (como eu serei em breve) não respeitam essa mesma fé. No armário ou não, somos incompreendidos pelos cristãos tradicionais. Só permaneço sem me assumir para ter voz entre aqueles que nunca me ouviriam se soubessem sobre minha sexualidade. O texto não responde a pergunta do título, mas esta é uma indagação do tipo: vale a pena estar no armário?

*Frase do filme: Orações para Bobby (2009).
Um filme sobre um jovem cristão gay e sua mãe devota.
Recomendado a todo cristão de fé irracional, pois fé e razão não deveriam se opor.

#013: Um gay que não diz "amém"

Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e também é a prova daquilo que não se vê. E, ainda, a fé é morta se não produzir frutos de salvação.
De nada adianta ter fé em Cristo, se as obras produzem frutos de perdição para si mesmo ou, pior, para outros que provam desses frutos. Na verdade, não se tem a fé se assim for.
Arriscaria dizer que todo o gay cristão, que todo o gay que nasceu em um lar cristão tradicional, já desejou amarga e desesperadamente a morte. Eu já a desejei muitíssimo, embora nunca pensei em suicídio, mas sempre roguei e supliquei que Deus findasse o meu viver. Pedia isso porque sabia que ele não me “curaria” ou não expulsaria de mim esse “espírito contrário”.
Eu não sou doente, irmãos. Sou sadio! Também não sou endemoninhado. Sou cristão! Também não sou um “assanhado”. Tenho o temor do Senhor! Tenho o Espírito Santo em meu coração e minhas obras testificam isso, ainda que eu seja bastante imperfeito, elas são de cristão, pois, no que eu posso, produzem e anunciam a salvação. Não posso ser endemoninhado se anuncio a graça e amor de Deus, inclusive, e apenas quando me solicitam por haver necessidade, em cima do púlpito da CCB e em reuniões de evangelização.
Irmãos, amo vocês. Mas não pude falar o “amém” na igreja no feriado passado, no dia da Independência. O irmão dizia: “Se há algum homossexual entre nós, saiba que nós o amamos, e procure o Ministério para conversar, pois você pode se livrar disso, dessa enfermidade demoníaca. Ofendi alguém mocidade? Eu disse algo que ofendesse alguém?”. O primeiro coro de “amém” não foi muito forte. Então o irmão questionou novamente, encorajando um coro de “amém” mais intenso. E houve.
Veja, irmãos queridos, é claro que vocês nos amam, pois o amor do cristão é sem distinção. Se houver diferença, já não é amor, ao menos, não aquele amor cristão.
Irmãos, não critico esse conselho. Sei que foi de bom coração e por zelo da Obra de Deus, à maneira que vocês a compreendem. Mas sim, eu me senti ofendido e não disse o “amém”. Até desejei parar de congregar, ainda que sinto Deus em mim. Desejei imensamente nunca mais estar na igreja, para não ser esse “escândalo” e para que os irmãos possam estar em paz, pastoreando apenas as ovelhas dentro do padrão. Assim, os irmãos não teriam preocupações comigo ou com outros que não podem se colocar neste padrão. Contive as lágrimas por sentir essa rejeição. Só não levei adiante essa tristeza, porque no último hino Deus me visitou. Dizia o hino: “Estou com Jesus, meu Senhor … sei que tudo está sob as ordens do meu rei!”.
Lembrem-se, irmãos amados, que Paulo defendia a Obra de Deus, matando os cristãos. Deus amou a Paulo e ao zelo que ele tinha, certamente. Mas Paulo pelejava com os olhos do entendimento entenebrecidos. E causou ruínas. Até que as escamas, figurativamente, lhe caíram dos olhos.
Os irmãos não podem, perdoem-me dizer, mas não podem aconselhar “venham conversar com o Ministério da igreja que lhes daremos direcionamento”. Irmãos, somos cristãos, dê-nos esse direcionamento a partir do púlpito. E não é por arrogância nossa, não é. Explico: muitos de nós são tímidos, outros temem perder a liberdade na igreja. Estamos escondidos e não queremos nos expor, porque sabemos e temos pavor da perseguição que iremos passar, o desprezo e discriminação que teremos que suportar.
Semana passada, um escreveu sobre isso: Estava feliz e com desejo de voltar a congregar, mas foi barrado pela irracionalidade do preconceito de muitos dentro da igreja. De muitos, não de todos!
Ontem, recebi mensagem de um moço de longe, dizendo que se mataria. Ainda não me respondeu, mas aconselhei que não fizesse isso. Porém, o que são as minhas palavras, um reles amigo virtual, diante de todo o juízo da irmandade que lhe rodeia?
Precisamos sim de orientação, irmãos. Porque se a graça é graça, ela nos abraça também. E nós, parece-me, somos os que mais precisamos dessa graça. Somos as “prostitutas”, “ladrões”, “endemoninhados” e “leprosos” dos tempos modernos.
Vão nos dizer: “façam como as prostitutas da época de Jesus, que pararam de se prostituir”. Ou, ainda: “façam como os ladrões da época de Jesus, que pararam de roubar”. Mas, se somos de fato enfermos ou endemoninhados, como muito ouvimos, precisamos que nos digam o mesmo que Jesus disse aos leprosos amaldiçoados: “Sê limpo”. E que essa “cura” seja imediata, instantânea, como eram as de Jesus.
Eu serei o primeiro a querer provar dessa cura, caso algum irmão possua esse dom, e me garantam que esse dom haverá sempre e eternamente, para curar nas gerações futuras.
No entanto, se a fé dos irmãos não for suficiente para remover essa “enfermidade”, instantaneamente, perdoem-me, mas não poderão dizer, jamais, “não peques mais”, pois seria como dizer a alguém que tem frio “não tenha mais frio, vá e se aqueça” e não lhe dar o vestido, ou ao faminto “não tenha mais fome, vá, tenha fé, farte-se” e não lhe dar o pão. O apóstolo Tiago diz que a fé destes, que dizem “aqueçam-se e se alimentem”, mas não provêm as vestes ou pão, é morta, vã, e inútil.
Não nos digam: “curem-se”. Também não nos digam: “não se entreguem a esse sentimento”. Mas, se de fato é enfermidade, se, de fato, é algo que não é natural, digam-nos: “venham e lhes curaremos instantaneamente pelo poder da fé, da nossa fé”.
Se a fé de vocês não é assim, perfeita e poderosa, não nos digam simplesmente: “parem de sentir o que sentem”. Muito desejamos isso, e não conseguimos. Eu não consegui. Já recebi algum milagre e muitas promessas, mas em nenhuma Palavra ouvi Deus dizer: “eu vou te libertar dessa sua ‘enfermidade’ hoje”. E em nenhum momento se quer senti algum alívio das dores dessa “enfermidade”.
A fé, entretanto, é o meu firme fundamento. Não vejo, mas por ela estou certo de que vivo no reino de Deus. Não vejo, mas desfruto desse reino imensamente, pois, após uma conversão plena, sinto paz em tudo, e com todos.
Deus abençoe os irmãos pela preocupação conosco.

Orem para que Deus nos tire as escamas e vejamos claramente o quanto a homossexualidade, o quanto o amor sincero entre dois “iguais” é uma abominação. Mas, ao menos singelamente, questionem-se também se vocês não possuem, de algum modo, uma visão turva sobre este assunto, pois, saibam, estão matando cristãos.


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#009: Não nascemos assim

Eu não nasci assim. Não escolhi nada.
Se eu pudesse, escolheria o caminho fácil. O caminho que todos querem, afinal, assim, não sofreria tanto.
Eu não nasci assim. Eu não escolhi nada.
Eu nasci saudável, corado e chorão. Não escolhi nada. Se pudesse, escolheria o mais fácil, aquilo dentro do padrão.
Mas, eu não nasci, assim. Não escolhi. Mas nasci. E isto me definiu. Não foi minha escolha. Mas me definiu.
Eu seria mais um hipócrita, se tivesse tido escolha, se tivesse seguido a orientação padrão. Seria hipócrita porque me sentiria perfeito, predileto e eleito.
Mas, porque eu não nasci assim, me senti tão imperfeito, tão miserável, tão abominável (e por tanto tempo) que tive que recorrer à muita misericórdia.
Ei, se eu não fosse gay, seria hipócrita. Acreditaria ser perfeito, não teria chorado para ser aceito. Mas eu não nasci assim, convertido. E, também, não escolhi ser escolhido. Deus me elegeu. Assim, como sou, eu.
Agora, resta ser um escândalo, um anômalo. Mas são anomalias que engendram o conhecimento. É o diferente que faz (re)pensar  os padrões. É aceitar o miserável que traz à luz a hipocrisia.
Eu não nasci assim, não. Não nasci cristão. Isso eu tive que aprender. E eu aprendi com algo que não escolhi ser. Aprendi humildade e misericórdia, porque precisei delas.  Entendi o amor de Deus, porque precisei dele.
Se dependesse dos homens, a mim me restaria inferno e escuridão, mas como dependia de Deus, restou-me graça e salvação. Eu não nasci assim, mas hoje sou cristão.

Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Sem linguagem ou fala, ouvem-se a sua voz em toda a Terra. Salmos 19:2


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#007: Os cristãos estão mortos

Quando falo que também sou cristão, não digo que vou à uma igreja que usa a Bíblia como referência. Isso não é ser cristão. Cristão não é estar associado à uma organização religiosa fundamentada na Bíblia. Tão pouco é acreditar que houve um homem chamado Jesus, que deu vários exemplos de bondade para seguirmos.
Os cristãos estão mortos.
Ser cristão é mais do que se espelhar nas boas obras do mestre Jesus. É carregar o mesmo sentimento de Cristo em si.
Ora, Deus em sua majestade divina, em seu trono de santidade, se rebaixou à altura da sua criação para resgatá-la da consequência das suas escolhas.
Deus, em um ato de demonstração de amor, apresentou-se a nós como um filho puro e inocente (tal como uma criança) à ser entregue em resgate de pessoas horríveis.
Ora, talvez por uma pessoa boa alguém ouse morrer para a salvar.
Duvido, porém, que por um marginal assassino, por um estuprador, por um político corrupto, ou por qualquer outro tipo de pessoa desprezível alguém ouse trocar a pena para os colocar em liberdade.
É esse o sentimento de Cristo, pagar a culpa de malfeitores para salvá-los. Não apenas livrá-los da pena das suas escolhas. Convertê-los pela demonstração de Seu amor.
Erra quem se diz cristão e se acha menos pecador que um assassino, ou que um estuprador.
Ser cristão é desejar que aquela que parece ser a pior pessoa do mundo seja feliz em Cristo.
Os cristãos estão mortos. Mortos sufocados pela hipocrisia, decapitados pela ignorância do mistério de Cristo (que é tornar a unir tudo e todos, nos céus e na terra). Estão sendo mortos crucificados em seu egocentrismo (amantes de si mesmos) que aniquila o único sacrifício, a única paixão, o único ato que une tudo e todos.
Os cristãos estão mortos. Mas Cristo vive. E suplico a Deus que Cristo viva em mim. Creio que ele não me negará o Espírito de Cristo, aquele distinto sentimento de amor sem distinção. Seja cristão!

O mistério de Cristo é 
tornar a reunir tudo e todos, 
nos céus e na terra.
 (Efésios 1:9-10)


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#006: O espírito da homossexualidade

O espírito da homossexualidade é assombroso. Tenebroso. Sombrio. Doentio. Um espírito. Não é sentimento, não é carinho, não é compreensão. Pura, e maligna, atração.
Não produz afeto mútuo, apenas leviandade, sensualidade. É o espírito da homossexualidade.
Eu não entendo. Ontem tive que ouvir uma dessa: “Fulana de tal? Ih! Ela tem o espírito do lesbianismo” (sic). Isso em uma reunião acerca de coisas espirituais, falando sobre a necessidade de visitar uma mocidade enfraquecida, que já não congrega mais. Um irmão ignorante (no sentido de sem conhecimento mesmo) foi quem soltou essa.
Nesses momentos é bom “estar no armário”, não ser assumido. Dá para defender sem acharem que você está tomando partido. Eu não tomo partido. Faço-me de desentendido para os que nada entendem. Defendo o oprimido. O não compreendido. Não fico sentido com a ofensa da ignorância, mas também não dá para deixar passar.
O irmão, na verdade, disse que deveriam visitar a Fulana sim, mas, que ela tinha o espírito da homossexualidade. Ranzinzei: “Se é espírito, então é só orar que expulsa fácil! Claro que não é espírito!”. Mas tive que ouvir, baixinho, do que estava ao meu lado: “Isso daí, é falta de cinta!”
Tudo verdade. É o espírito da homossexualidade.
Só não consigo entender, como posso ter tanta paz com Deus, amá-Lo tão intensamente, senti-Lo e percebê-lo o tempo todo, o dia inteiro (e isso sem exagero). Como posso senti-Lo em meu coração, falo com muita sinceridade, se eu também tenho esse tal espírito da homossexualidade, contrário a qualquer santidade?
Queria que fosse espírito, ou que fosse uma doença, ou safadeza mesmo. Assim teria a certeza de que alguém de mim o expulsaria, ou que a mim me curariam, ou me converteriam, temos dons espirituais com essas funções, bastaria utilizá-los!
Mas nunca vi dom que tire afeto, que mude afeição sincera.

Até Deus não quis expulsar de mim o tal espírito, e não quis me curar. Mas, de tanto para isso eu chorar, Ele me disse somente: “Isso é da minha vontade, e é para a minha glória”. E, outra vez, disse também: “Eu te amo, Eu te amo e Eu te amo, segue-me!”. E, então, Ele me converteu inteiramente.

Ainda tenho o tal “espírito” da homossexualidade, mas junto, em meu coração, uma certeza inteira, completa, da minha conversão e vocação. Eu também sou cristão.
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