#030: Carta aberta enviada ao Conselho de Anciães da CCB

Em 24 de março de 2019, enviei uma carta ao Conselho de Anciães da CCB, via e-mail. Acredito que ela resume meu posicionamento atual, em relação a diversos aspectos sobre a homossexualidade e o sistema religioso em geral, embora minha experiência religiosa seja restrita às práticas da CCB.

Com o tópico de ensinamento 10*, da 84ª Reunião Geral de Ensinamentos da CCB, realizada  em abril de 2019, ficou claro e documentado o quanto necessitamos de orientações de amor e acolhedoras, próprias de cristãos legítimos.

Se você conhecer irmãos do Ministério que, aberta ou implicitamente, no mínimo não nos lancem no inferno sem ao menos refletir um pouco sobre o peso que suas palavras possuem (por serem do Ministério e disseminadores de “verdades” “legítimas”), fique à vontade para enviar essa carta a eles.

Você pode ler a carta baixando o PDF aqui:

Tudo o que Deus fez é bom e nada é recusável, se recebido com gratidão (1 Timóteo 4: 4). Além disso, tudo foi feito por meio d’Ele e para Ele; sem Ele nada subsiste (Romanos 11:36; Colossenses 1:16-17 etc.). Não há condenação para os que estão em Cristo, e a prova de que estamos em Cristo são as obras de amor, aqueles frutos DO Espírito em nós! O amor é a prova da salvação, pois não há ninguém que ame e não seja nascido de Deus (1 João 4:7 etc.).


*texto 31 do blog


Tags: LGBT, homossexualidade, gay, lésbica, transexual, cristão, CCB, Congregação Cristã no Brasil.

#029: Carta a um irmão ancião [2]

Queridos irmãos,

Venho expor, brevemente, um assunto que merece muito tempo de discussão e reflexão. Justamente por ele nunca ser questionado, ouvimos algumas afirmações simplistas, porém que acarretam grandes desastres na vida de muitos. Do púlpito – lugar que estimamos e que, às vezes, chegamos a considerar como sendo de onde procede a voz de Deus – têm saído palavras que corroem e destroem o sentimento e a vida de muitos jovens, moços e moças cristãos. Uma destruição invisível, que passa despercebida ou que é ignorada.

Falar sobre mim talvez seja em vão, ainda possuo vida e, por grande misericórdia de Deus, nunca cheguei a pensar em me matar, ainda que já amargamente desejei a morte a fim de não sair dos padrões e doutrina da igreja.

Aliás, jamais me dirigirei aos irmãos e ao Ministério com intuito de mudar qualquer coisa da compreensão do Evangelho que os irmãos tenham. Não é esse o caso.
Quando nasci minha mãe já congregava e logo se batizou, a família do meu pai já era da CCB, e ele batizou apenas em 2008. Tenho quase 30 anos e, na minha meninice já possuía diversos indícios de que eu escaparia do padrão heteronormativo. Senti a virtude pela primeira vez e também fui batizado aos 12 anos e, desde então, nunca mais usei bermuda, nunca mais andei sem camiseta. Nunca ouvi música “mundana”, nunca idolatrei time de futebol. Dia 18 agora fez 11 anos que recebi o dom de línguas, quando uma perturbação maligna precisou ser expulsa de minha casa. Minha mocidade foi sempre dedicada em servir a Deus e fazia isso ocupando todo meu tempo dentro da CCB: sou auxiliar de jovens há 15 anos, músico oficializado, sempre ajudei nas escolinhas musicais e fui instrutor por alguns anos, auxiliei na Administração e também o Ministério confiou deixar em minhas mãos, com a ajuda de Deus, o atendimento de cultos de evangelização na Fundação CASA e também em diversas Reuniões de Jovens e Menores em que o cooperador de jovens estivesse ausente.
Ainda sou solteiro e a pressão para que eu me case nunca cessa. Com quase 30 anos já estou fora do padrão da igreja, pois é aconselhado aos moços que se casem antes disso. Meu antigo cooperador de jovens me disse, quando eu tinha uns 27 anos: Você está perdendo tempo, com sua idade eu já tinha 2 filhos! Em uma Reunião de Mocidade, já com 28 anos, o ancião dizia: se o moço tem 26, 27 anos e não casou, tem algo errado.

Também em uma Reunião de Mocidade, há algum tempo, um ancião aconselhava: moço, se você não sente atração por mulher, procure um médico, se você tem vergonha vá a uma cidade longe, mas procure orientação de um profissional. Em 2014, eu estava com depressão, sabia o motivo, mas não dizia a ninguém. Sem querer, passei por uma psicóloga e ela me aconselhou: esqueça religião, se você é homossexual, seja você!

Outro irmão, em Reunião de Mocidade dizia: um irmãozinho veio me pedir ajuda, porque ele olhava para moços sem camisa e não conseguia conter seus desejos. E completava: moço se você sente isso, não se case com moça, não arruíne a vida dela. Ele não falou ter ajudado o irmãozinho homossexual, apenas se preocupou em que nós homossexuais não arruinássemos a vida de ninguém, parece pouco importar que nossa própria vida esteja ou que seja arruinada.
Como se não bastasse, recentemente, aqui na capital, um dos anciães mais antigos disse em uma Reunião de Conselhos que nós – homossexuais que tentam ser cristãos – poderíamos nos achegar ao Ministério após o culto para conversar. Disse também que o “homossexualismo” se trata de “uma enfermidade demoníaca e diabólica” que “assola o povo”.
Alguns desses discursos vêm em tom de deboche. Outros enraizados em um preconceito ou até em ódio dissimulado em zelo. Há aqueles que são sinceros, sim, porém sem muito esclarecimento sobre o assunto.
Como se já não fosse difícil ouvir do púlpito que somos “endemoninhados”, doentes, ou sem temor a Deus, em nossos lares esses discursos se repetem e com menos reflexão ou sensibilidade. Minha mãe, sem saber da minha condição enquanto homossexual, disse, certa vez: é o fim dos tempos mesmo, o mundo está “empesteado” de homossexuais. Eu não sei qual é a visão dela em relação à homossexualidade, e nem como ela vai reagir quando souber que o filho amado e dedicado dela é uma “peste”. Mas eu sei bem onde ela aprendeu isso, pois o convívio dela é entre a irmandade e não assistimos TV. Praticamente toda orientação e instrução que ela tem do assunto são provenientes do que ela ouve na igreja.
Tenho mantido contato com moços e moças da CCB e que são homossexuais, aqui na capital, do interior de São Paulo e de alguns outros estados. Não são poucos os relatos de que os familiares os rejeitaram, não porque tivessem relações sexuais ditas imorais, mas apenas e simplesmente porque se viram com sentimentos homossexuais. Nossos conhecidos e familiares cristãos, membros da CCB, por tanto ouvirem que somos uma abominação, nos rejeitam, nos excluem e tentam nos fazer acreditar que somos de fato uma aberração. Somos a pior abominação de todas perante Deus, como um primo (muito crente e espiritual) me disse certa vez, logo que me batizei, e que me causou tormentos e sofrimentos no mínimo até os meus 28 anos.
Como se não bastasse a rejeição de quem nos ama, muitos jovens homossexuais, por também crerem pia e irrefletidamente no que sai dos púlpitos, veem na morte uma saída. No fim do ano passado um moço de 18 anos me contatou e ele estava disposto a se suicidar, pois ele mesmo acreditava que estava possuído de um espírito maligno. Com o tempo ele se entendeu, porém sua mãe continua reforçando e crendo nisto e, por vezes, ele desanima a ponto de, novamente desejar a morte.
Ainda essa semana, uma moça de uns 23 anos, que foi minha aluna em 2012, também homossexual, relatou que seu irmão, um mocinho de cerca de 15 ou 16 anos, se suicidou a pouco tempo, justamente pela repressão que sofria por se entender homossexual.
Cada vez que um jovem me contata para falar suas dores, seus pavores ou anseios pela morte eu me sinto incapaz de salvá-los, de convencê-los a viver, de incentivá-los a viver em Cristo, fonte de vida e paz. Mas essa foi a primeira pessoa que me disse sobre alguém que chegou ao ponto de se matar porque não se enxergou dentro dos padrões da igreja – já que homossexual, ainda que não praticante –, porque não compreendeu que poderia ser digno de salvação por mérito de Cristo e, ainda, porque foi rejeitado pela irmandade e incompreendido pela família.
Como eu disse, estou expondo muito brevemente o assunto e gostaria que ele fosse melhor refletido. Eu sinto o peso da morte desse jovem e o peso da vida amargurada e longe de Cristo – fonte do amor e vida verdadeiros – que outros tantos têm. Eu gostaria que cada um dos irmãos do Ministério sentisse esse peso também. A vida desses jovens e a perda dela está nas mãos de cada um de nós que permitimos que discursos de ódio, de preconceito ou de incompreensão de algo tão delicado sejam proclamados em nome de Deus.
É verdade que há um consenso de que a prática homossexual é pecado e nem questiono isso, pois não é o importante nesse momento.
Na CCB aquele irmão que se ira ou xinga outro não é tratado como abominável – embora Jesus afirma, em uma hipérbole, que este é digno do inferno. Também não se lança no inferno aqueles que são desleais nos contratos, infiéis, detratores, caluniadores, maldizentes. Aliás, por graça de Deus, é comum ouvir discursos e Palavras que nos estimulam a ter paz e paciência com todos os homens, mesmo com esses infiéis. Mas quando se trata da homossexualidade a irmandade – e alguns não poucos irmãos do Ministério – propagam um discurso diferente, em que o amar essas pessoas parece se tornar tão abominável quanto ser um homossexual.
Eu realmente não espero que o Ministério leve adiante a questão: é a prática da homossexualidade pecado ou não?
No entanto, é urgente que os irmãos do Ministério, às vésperas da Assembleia, reflitam que a vida de centenas ou milhares de jovens está nas mãos dos irmãos e do que os irmãos discursam e propagam nos púlpitos e que a irmandade recebe como sendo a voz do próprio Deus.
Tenho muito que falar, mas não quero fazer isso por escrito.
Coloco-me à disposição para conversarmos sobre o tema e tentar impedir que vidas materiais se percam e, por que não, possibilitar que esses jovens tenham a vida espiritual e paz em Deus, por meio da graça de Cristo, que nos abraçou e amou imerecidamente.
Com muitas preocupações, e com todo o respeito e carinho que tenho pelos irmãos,
João ********* 
São Paulo, 21 de março de 2018. Contato: *********@gmail.com


Carta entregue pessoalmente, em 2018 e um pouco antes da Reunião Geral de Ensinamentos (RGE), a um irmão ancião dentre os mais antigos da capital de São Paulo. Respondeu-me com um e-mail, demonstrou-se interessado em conversar pessoalmente, porém, até hoje (5/8/2019) , ainda não consegui isto.

#002: Carta a um irmão ancião

Saudações, irmão Fulano. Perdão incomodar o irmão, mas gostaria de saber se eu poderia ligar amanhã de manhã (no horário mais conveniente para o irmão), se assim o Senhor me der forças, para conversarmos 5 minutinhos. Sei que isso é inoportuno e que os irmãos do Ministério são bem instruídos a não dar crédito a mensagens como essa [anônimas, não me identifiquei, embora disse minha região e primeiro nome].

No entanto, não escrevo para o irmão a fim de criticar alguém ou de falar qualquer outra coisa que traga demérito à Obra. Escrevo no desespero e na esperança de que o Senhor possa te dar alguma luz e, assim, me auxiliar com um conselho na caminhada. Também peço que o irmão não compartilhe o conteúdo do que vou escrever a seguir, ao menos não de forma a dizer aos conservos do ministério detalhes (meu nome, região etc.). Embora acredito ser importante todo o ministério saber de casos como esse, para que possa aconselhar a mocidade, pois é um mal que, querendo acreditarmos ou não, assola a mocidade.

Meu nome é J., sou da região tal, embora more e trabalhe fora. Batizei aos 12 anos. Sou auxiliar de jovens há muito tempo e músico oficializado. Fui instrutor de música e sou selado [com o dom de línguas]. Perante a irmandade e o Ministério, no trabalho e em todos lugares, tenho o que se pode entender por um bom testemunho, nunca dei nenhum tipo de escândalo na Obra, em sentido algum. Sempre muito comportado, quieto e tido por muitos como um moço “exemplar”, quer nas coisas de Deus, quer nas demais. De forma alguma digo isso tudo para me vangloriar, mas para que de alguma maneira o irmão possa entender um pouco.

Embora todos me vislumbrem com essas e outras boas qualidades, idealizadas para todos os moços cristãos, não me vejo de maneira alguma digno de levar esse “bom nome”. Também não vejo condições de permanecer com os cargos ou responsabilidades a mim atribuídos [na igreja]. Tenho uma guerra interior, na qual estou praticamente sendo derrotado. Um sentimento que, aos olhos de qualquer um, se eu falasse que possuo, aniquilaria todas as qualidades que a mim me são atribuídas, ainda que em essência eu permanecesse o mesmo. Eu gostaria de ter entregado todos os cargos, ido embora para alguma cidade distante, para que, caso eu “caia”, não cause escândalo à Igreja. E esse é o meu maior temor, causar escândalo e transtornos para a irmandade e ministério. Eu creio em Deus, tenho convicção da fidelidade da Palavra e das promessas, tenho uma boa compreensão da Graça.

Mais uma vez, não falo por vangloria ou vaidade, o irmão nem me conhece (embora já nos saudamos em algumas RM), não faria o menor sentido. Falo segurando o choro, e porque não conseguiria explicar por telefone. É claro que o conselho que poderia vir do irmão seria algo como “Não peque” ou “Fica firme em Deus”. E acredito fielmente nisso. Porém, já não sei mais como o fazer. Creio que todos temos pecados, e sempre tendo a acreditar que não faz sentido algum escalar o grau de pecado. Pecado é pecado, e isso nos coloca e impõe a necessidade da Graça de Deus. A guerra que eu travo todos os dias, o irmão pode ter imaginado, é contra meus afetos, sentimentos contrários à “natureza original”, homem – mulher, mas que não foram escolha minha. Sentimentos relacionados à homossexualidade.

Já chorei inúmeras vezes aos pés do Senhor para que ele me limpasse, me livrasse, me guardasse da tentação, e Ele sempre o fez, até hoje tem o feito. Buscando a Palavra, não poucas vezes Ele disse “Você não quer ser assim, me pede pra te mudar, mas isso é pra minha glória”. [trecho suprimido, algumas obras particulares]. Outra vez, buscando a Palavra questionando se o Senhor me amava, mesmo sendo impuro como me sentia (e me sinto) o Senhor iniciou dizendo “Eu te amo, eu te amo, eu te amo” e continuou a exortação […].

O que quero expor, é que ainda que me sinta em extrema fraqueza e mais perto do pecado, o Senhor continua dizendo que me ama, ou que mesmo que eu caia Ele me levantará.

Embora esses sentimentos que expus para o irmão sempre estiveram presentes, desde minha meninice, também já me apaixonei e afeiçoei por moças/irmãs. […] mas como poderia lhes propor qualquer relacionamento tendo também atrações contrárias a natureza “original”? Tenho 30 anos, não sou casado. A pressão da irmandade, a cobrança de todos quanto a isso, a espera para que eu me case… se eu tivesse sido levado por tudo isso, poderia ter arruinado não só minha vida, como a de alguma moça. Já ouvi diversos conselhos, corretos mas incompletos, do tipo “se o moço não gosta de moça, não case”. Corretíssimo, mas e a pressão da irmandade (e do próprio ministério) àqueles moços que já estão “passando da idade” e não casaram? E que conselho se daria a esses jovens que, sendo moços não sentem atração por moças e também não são “eunucos”, isto é, têm atração homoafetiva.

Irmão, não escrevo para desafiar o irmão e tão pouco o ministério. Não tenho essa intenção e nunca terei. Amo a Obra de Deus em sua essência, e a igreja [como instituição] como a mensageira dessa Obra e Graça. Também não escrevo para que “mudem a doutrina”. Mas irmão, como eu posso permanecer na igreja? Como eu, possuindo um sentimento tão abominado pelo próprio povo, posso continuar a “servi-los” [com os cargos que possuía]?

Sei que deve ser incompreensível para o irmão e a qualquer outra pessoa que não sinta isso, mas o próprio apostolo Paulo disse que “não se contendo, case e não peque”. Mas isso para um homem com mulher e vice-versa. E como eu, não me contendo, posso não pecar sem “casar”.

Pode ser que esse sentimento possa ser causado ora por disfunções biológicas, ora por possessões demoníacas, ora por concupiscências e promiscuidade. Mas também pode ser tão “natural”, tão pessoal, tão real que eu não consiga associá-lo a nenhuma dessas situações. Sou saudável, sou crente e já senti o Espírito do Senhor e ainda sinto, embora pela fraqueza as vezes me distancio. Não sou e nunca quis ser promíscuo, nunca namorei moça alguma (ainda que também possuísse esse sentimento [afetivo, pois sexualmente, não]), nunca fui a uma festa ou qualquer coisa semelhante durante a faculdade. […] Pode ser que me torne promíscuo, e deseje todos que passam à minha frente, querer sair com esse e aquele, mas isso só porque nunca poderia assumir um compromisso [considerado pela igreja] “anormal”.

Irmão, não estou dizendo “despecalizem” a homossexualidade. Normalizem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tornem isso comum e não pecaminoso. […] Por minha vontade, defenderei a doutrina em sua essência e que ela não deve ser mudada até o fim da minha vida. Direi até o fim, ainda que em algum momento eu a fira, que a doutrina é verdadeira e válida e que eu quem sou pecador.

Nem sei porque escrevi tudo isso, também não sei se o irmão ainda está lendo. Não espero um conselho do que eu deveria fazer, se realmente, mais uma vez, mudar de cidade e abandonar tudo, congregar “à paisana” só para ouvir a Palavra e não criar vínculo com a igreja (irmandade) a fim de evitar possíveis escândalos. Sei que seria inadequado e inconveniente o irmão dizer “faça isso” ou “não faça aquilo”, porque assim como eu o irmão não deve ter muitas respostas e, ainda, não poderia dar um conselho a menos que o Senhor te revelasse.

Busquei a Palavra ontem e a resposta foi “ainda que caia, levantarei… porque o justo cai sete vezes, e sete vezes é levantado”. Não tenho certeza se foi comigo, mas chorei muito. Coisa que há tempo não fazia. Chorei por ter esperança, mas também por estar em desespero da desesperança. O Senhor me quer na Igreja? O Senhor me abandonaria às minhas paixões carnais, e ainda assim me aceitaria? O Senhor me entregou às imundícias e me abandonou às paixões infames? Eu não quero ter conhecimento de Deus e por isso ele me entregou a esse sentimento perverso para que eu faça coisas que não convém? Por ter esse sentimento, ser homossexual (ainda que lutando contra ele), estou cheio de iniquidade, fornicação, malícia, avareza, maldade, inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade, sou murmurador, detrator, aborreço a Deus, injurio, sou soberbo, presunçoso, invento mal, desobedeço pais, sou néscio, infiel, sem afeição natural, irreconciliável e sem misericórdia? Conheço o juízo e erro e consinto que os demais também errem? Irmão, sem me vangloriar, mas não me vejo digno de nenhum desses vícios ou desvirtudes.

Como usar esse texto bíblico [Romanos capítulo 1] para condenar todos aqueles que, sendo tentados diariamente, constantemente, não podem casar e também não podem se conter, ainda que sejam cheios de amor para com o próximo e amem a Deus? Amar a Deus acima de todas as coisas é conseguir deixar todos os vícios imediatamente?

Irmão, não espero que digam “vocês podem casar sim, vivam juntos e no temor”. Mudar a doutrina é um escândalo ainda maior que errar nela. Mas que (boa) orientação se poderia dar a esses jovens que, como eu, estão rodeados por uma tão grande tentação? Verdade que Deus dá o escape. Mas, irmão, parece não haver escape. Há horas que parece que o laço está demasiadamente amarrado. Há momentos que se deseja a morte, a fim de que não se desagrade a Deus. Mas Deus não dá a morte como escape. Ainda não deu. E não falo de suicídio, de maneira alguma. De certo o Senhor pode ter um escape melhor.

Jó desejou a morte e Deus não deu o que ele “desejava e esperava”. Deu coisa melhor. Eu não vejo nada melhor para mim. Viver mais 30, 40, 50 ou até 60 anos vazio. Sem poder compartilhar os sentimentos com alguém. Sem poder amar alguém. Eu não sou eunuco, gostaria de me fazer eunuco para o Senhor, mas não consigo.

Ainda que o sentimento sexual me fosse tirado, desejaria ter alguém do meu lado, ter uma família [não viver sozinho]. Como isso poderia me ser dado? Eu já acreditei que, em algum momento, o Senhor fosse me libertar desse sentimento, mas que glória haveria para Deus em mim? E porque ele me libertaria se não libertou diversos outros seus servos com o mesmo “mal”? O que deveria eu fazer? Procurar uma igreja que aceitasse a minha condição?

Eu amo a CCB [Congregação Cristã no Brasil], vivo nela e por ela. Poderia viver sentindo a Graça e misericórdia de Deus sem ir à CCB? Talvez. Mas é lá que aprendi a servi-Lo, a amá-Lo. Amo a irmandade, as crianças, a mocidade. Amo anunciar que Cristo vai voltar, que não é loucura ter fé nisso. Amo dizer que Ele perdoa todo tipo de pecado e que a todos quer salvar. Mas não consigo acreditar que eu, que anuncio esse tão grande amor, possa obter de fato o perdão e a salvação [porque seria rejeitado pela irmandade por não estar nos padrões].*

Ainda que o pecado eu não tenha “consumado”, já tive tantos desejos “sujos”. Tantas imaginações abomináveis. Já me sinto como se o tivesse consumado. Não vejo sentido o Senhor me salvar só porque não consumei e condenar todos os demais que consumaram. Se eu nunca consumar não será por força minha!

Tinha muito mais que falar, muitas coisas que gostaria de conversar. Ou ao menos chorar no ombro de algum irmão cheio de Luz. Não o posso fazer presencialmente, embora tenho muita afeição pelo Ministério da minha cidade, mas creio que eles não estariam preparados para isso. Muito menos para aceitar que eu seja “assim” também. E o escândalo teria se dado. Por isso recorri ao irmão.

Se o Senhor o fizer sentir de dizer algo a mim, bendito seja o Seu nome. Se Ele te der alguma luz ou fizer sentir de levar aos conservos do Ministério, e eu algum dia ouvir boas orientações [ensinamentos] à irmandade e à mocidade, sobre qualquer assunto [em relação a isto], louvado seja Deus.

No entanto, não se preocupe em me responder. Não se preocupe em levar adiante qualquer assunto que expus, amargamente. Não sei porque escrevi ao irmão.

Irmão, perdoe-me.

Deus te abençoe pelo tempo despendido.

Com sinceridade em Cristo Jesus.


Observação: O irmão me respondeu amorosamente, mas, sem dar respostas (compreendo-o). Disse que as respostas para minhas indagações estavam no próprio texto desta “carta”. E também disse que tem orado diariamente por mim. Serviu-me de consolo!

*Pouco tempo depois de haver enviado essa carta, eu compreendi com mais profundidade o amor de Cristo em mim e por mim, por nós. Hoje vivo na plenitude da Graça de Cristo, com a certeza da minha salvação, não que eu seja perfeito, mas compreendi que, por Cristo, fui aceito mesmo sendo homossexual.



Tags: CCB; gay; homossexual; homoafetivo; cristão; crente; Congregação Cristã no Brasil; homo ccb.