#028: Gays reconciliados em Cristo

Eu sei que para alguns são apenas coincidências, para outros a prova efetiva de que Deus fala conosco. Logo que me batizei, por exemplo, e já com meus quase 13 anos, após um culto, voltando a pé para casa com minha mãe e irmã, propus no meu íntimo que Deus me desse um sinal de que era na minha (emocionalmente conturbada) vida: pedi que, ainda naquela noite, eu visse uma “estrela cadente”. Eu pretendia ficar acordado até tarde da noite observando o céu, mas, assim que firmei esse propósito em meu coração, prontamente, uma estrela desenhou um breve risco no céu. Talvez, apenas uma pequena coincidência, para meu coração, grande alívio.

Já faz quase 19 anos que me batizei, e por um bom tempo coincidências assim têm me ajudado a acreditar que, de algum modo, Deus estava no meu caminho.

Eu não tenho propriedade para afirmar que algo é ou não pecado, nem para afirmar que alguma prática pode ou não lançar, decisiva e definitivamente, no “inferno”. Quem é que pode afirmar algo assim? Quem pode afirmar que algo pode separar do amor de Cristo? Ninguém!

Eu poderia dizer: está claro na Bíblia que os adúlteros não herdarão o reino de Deus! – e, por isso, poderia tentar afirmar que quem comete adultério será lançado no “lago de fogo e enxofre”. Porém, também está escrito: quanto aos adúlteros, Deus os julgará.

Não quero dizer (tão pouco acredito) que seja uma atitude cristã, no sentido de amar a Cristo, viver adulterando à espera de um juízo brando de Deus. Só quero dizer que não está escrito “Quanto aos adúlteros, Deus os condenará”, antes que “Deus os julgará”.

Eu não posso dizer a ninguém: ser homossexual não é pecado. Também não posso dizer: Deus não abomina um casamento entre homossexuais. Tenho convicção dessas duas afirmações, com base em interpretações da Bíblia, como tento expor em meus textos – e como foi difícil chegar a essas compreensões: foram 28 anos pensando estritamente semelhante ao que aprendemos na [1]Congregação!, e foi relendo sobre predestinação (em Efésios, Romanos etc.) que pude compreender que Cristo é nossa predestinação e que nele não há judeu nem grego, não há heterossexual nem homossexual…, mas ele é tudo em todos!

Já tive muitos sinais (que poderiam também ser entendidos como coincidências) sendo [2]auxiliar de jovens e menores, quer em [3]visitas com a mocidade, quer em [4]Reuniões de Jovens e Menores… Nos últimos dois anos tenho tentado me afastar um pouco desse cargo, em parte devido à correria do trabalho e do dia a dia, mas também por não me achar digno dele, já que minha compreensão (não só, mas principalmente) quanto à homossexualidade diverge daquela implícita nos discursos e conselhos que ouvimos nos diversos serviços realizados na CCB.

Mesmo acreditando que a homossexualidade (até mesmo “na prática”), não seja pecado (embora eu não possa comprovar isso a ninguém!), quando vou aos cultos e, em especial, às RJM, minha [5]oração de comunhão sempre foi algo muito simples, também muito profundo, como: Senhor, me perdoa, sou pecador.

Hoje o peso que recai em mim nem é o fato de eu ser homossexual, mas o de ser homossexual e estar com um cargo em uma Igreja que não aceita (porque não consegue ou não quer entender) a homossexualidade como natural. Essa minha oração poderia, então, ser entendida como: sou pecador diante desta igreja, me perdoe, Senhor. Ou como: Senhor, estou em paz contigo, mas em breve não estarei com esses irmãos, tão logo souberem sobre minha sexualidade, perdoa-me escandalizá-los.

Na última RJM que fui, eu tinha certeza de que não deveria estar ali com a mocidade, tive certeza de que não deveria ter liberdade alguma na igreja, e receei [6]recitar. No entanto, ao receber o verso (Salmos 25:11) e abrir a Bíblia para conferir o texto, li: Por amor do teu nome, Senhor, perdoa a minha iniquidade, pois é grande.

Era exatamente minha oração. Coincidência, claro. Motivou-me, no entanto. Recitei.

É a minha oração e, para mim, homossexual que sou, a “iniquidade” que me veio à mente, no mesmo instante, claro, foi a minha homossexualidade. Não por acreditar estar desagradando a Deus por ser gay (não creio nisso, não mais!), mas por estar fora do padrão compreendido pela igreja como o “único aceito por Deus”.

Pergunto-me se fosse algum heterossexual que tivesse recebido esse verso, qual seria a iniquidade que viria à mente dele? Por que assumimos, nós homossexuais, que nossa sexualidade (natural e intrínseca!) é um pecado, uma abominação? Realmente acreditamos nisso ou fomos condicionados a acreditar? Nos sentimos assim, excluídos do Amor de Cristo, quando Deus nos “visita” e nos dá “sinais”? Nos sentimos rejeitados quando Deus fala, dentro de nós, “te amo”? E se nos sentimos (ao menos eu me senti diversas vezes e ainda sinto) amados por Deus, porque damos mais crédito ao que nos dizem (aberração! abominação! escândalo!) do que ao que Deus insistentemente nos afirma em Cristo (eu amo você! eu amo você! eu amo você!).

É claro que alguns vão dizer: Ele te ama, sim, mas somente se você…

Não! O evangelho não tem “se”! Temos de aprender isso ou anularemos a Graça de Deus e tornaremos em vão todo o vitupério de Cristo!

Deus prova o seu amor para conosco porque Cristo morreu por nós, mesmo nós ainda sendo pecadores e, agora, somos justificados pelo Seu sangue (conforme Romanos 5). Todas as pessoas são pecadoras, e isso não tem a ver com sexualidade. Não éramos justos (e nunca teremos condições de ser), mas por meio da Sua boa notícia de amor, ele pôde nos justificar!
É isso o evangelho de Cristo: o amor incondicional de Deus que nos amou primeiro, mesmo que nenhuma pessoa merecesse! Não existe salvação por mérito, a não ser por mérito de Cristo. Não há nada que possamos fazer para pagar nossa salvação: ela é de graça e por graça! 
Todavia, quando recebemos algo impagável e de graça, tudo que podemos fazer é sermos imensamente gratos e agradar àquele que nos agraciou. Logo, se cremos haver recebido misericórdia, resta-nos sermos misericordiosos e se cremos seguir um mestre chamado Amor Perfeito, amorosos.

Aqueles que andam odiosos, rancorosos, querendo empregar o reino de Deus apenas aos que se dizem “perfeitos” (e não são, mas mentem), na verdade, sequer entraram nesse reino, pois pouco entenderam do Amor Predestinado, Cristo. Não entram, e tentam impedir que outros entrem. Se, de fato, nós cremos em Cristo como justo e justificador e, por isso, temos condição de entrar no reino de amor, no reino dos céus, no reino de Deus… demonstremos toda a gratidão que temos pela obra redentora de Cristo e, como Ele fez, amemos a todos sem distinção, oferecendo misericórdia e perdão, tal como recebemos.

Deus amou o mundo (todo o mundo!) de tal maneira que enviou seu Filho, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna, assim, Deus enviou a salvação, não a condenação (João 3:16-17). Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não levando em conta as transgressões das pessoas, e nos encarregou da mensagem da reconciliação (1 Coríntios 5:19).

Não há nenhuma coincidência em Cristo haver padecido por todos nós!

Novo e-mail: tambemsoucristao@gmail.com
Instagram: @tambemsoucristao_gaycb
[1] Congregação Cristã no Brasil (CCB), igreja tradicional evangélica. Site oficial: congregacaocristanobrasil.org.br
[2] Jovem solteiro que auxilia nas Reuniões de Jovens e Menores, e tem cuidado pelas crianças e demais jovens visando agregá-los e, de algum modo, orientá-los fazendo uma ponte com o Cooperador de Jovens e Menores (o equivalente ao “Pastor” de outras denominações e que é responsável pelas crianças e jovens de uma determinada localidade).
[3] Reuniões de moços e moças da CCB, acompanhados de Cooperadores de Jovens e Menores, que se faz na casa de uma pessoa com intuito de cantar Hinos e de orar.
[4] Reuniões de Jovens e Menores (RJM), como o nome já diz, são reuniões com crianças e jovens solteiros, geralmente realizadas aos Domingos pela manhã.
[5] Oração particular que se faz ao chegar na igreja, sempre em silêncio e para meditação com Deus (“comunhão”) elevando apenas o pensamento em oração (não se pronuncia palavras audíveis).
[6] Nas RJM cada criança e jovem solteiro tem liberdade de recitar um verso da Bíblia, todos recitam em conjunto um verso de um mesmo capítulo, fazendo uma sequência de recitativos.
TAGS: CCB, Congregação Cristã no Brasil, LGBT, gay, lésbica, assexual, transexual, cristão.

#027: Hipocrisia nossa de cada dia

As luzes piscam, piscam. A música ruim toca na casa alheia e é impossível não escutá-la. Não há para onde fugir. É necessário sorrir mesmo ouvindo “aleluias” àquele discurso que diz: acabarei com a ideologia de gênero (sic); lutarei pela família tradicional (sic).

Lembranças e memórias também assombram. Há tempos que não chorava assim, de tristeza ou de espanto. Ódio! Raiva? Rancor! Fúria? Desespero?

Incerto é o que se passava no turbilhão de pensamentos. Memórias de tudo o que já se acreditou e que hoje não faz sentido algum. Regras, regras. Mandamentos sobre mandamentos. Sem lógica.

Dois pesos. Duas medidas. Não case com moça! – ouviu-se certa vez. Outra: vou preparar o seu casamento. E ainda uma: você faz o Ministério refletir com seus bons argumentos, precisa se casar para fazer parte dele.

Ah! Eu só quero nunca mais vincular meu nome, minha identidade, minha essência ao que pensam.

Discriminam em nome do divino. Legislam em prol de um reino que não compreendem, pondo para fora em vez de a ele agregar. Por quê? Apenas porque não toleram!

Hipócritas! – disse Jesus aos religiosos fariseus que examinavam as Escrituras acreditando que nelas havia a vida, mas que, quando a própria vida a que buscavam se manifestou, a açoitaram e crucificaram. [1]

Examinem. Examinem. Vocês também acreditam ter nela a vida, a vida eterna. Tem. Não há, no entanto, ninguém que entenda, ninguém que busque, ninguém que encontre [2]. Nem entram no reino nem permitem que outros entrem [3]. Têm zelo, é verdade. Sincero, por sinal. Sem nenhum entendimento, no entanto [4]. Coam mosquitos, engolem camelos [5].

Dizem: não toquem nisso, não provem aquilo, não manuseiem aquele outro [6]. Se questionados sobre o porquê, eloquentemente dizem: porque está escrito. Se lhes é dito “mas também está escrito assim e assim” dizem: torcem as escrituras para a própria perdição [7]. Verdade, distorcem-na para própria perdição. Não entram nem permitem que outros entrem no reino de paz. De paz. Paz!

Legislam em nome do divino. Regras que aparentam sabedoria, devoção, controle da carne, santificação – ao que entendem por santificação. Regras que satisfazem apenas a presunção humana [6] de bater no peito e dizer: eu mereço o céu porque não faço isso nem aquele outro. Ou em uma modesta “humildade”: eu não mereço o céu, é verdade, mas ao menos sou melhor do que estes que fazem abominações [8]. Sexuais, notadamente. Ódio, violência, desavença, pelejas, porfias, desafetos… são todos divinamente tolerados, registram em seu âmago.

Também é o mesmo que dizer: eu mereço que Cristo seja esbofeteado por mim, porque sou bom, sou justo, não pratico isso nem isso, veja Jesus, sou digno de que sofras por mim, pois sigo todas essas regras que disseram ser necessárias para aparentar santidade.

Amem-se uns aos outros como eu – Jesus – amei vocês [9]. Ora, convenhamos, não fazer isso, nem aquilo é muito mais fácil. Dirão: Eu amo a Deus porque me privo de muitas coisas, ainda que não tolero a muitos “próximos”. Se não ama ao irmão a que vê, como amarás ao Deus invisível? Mentiroso! [10]

Acharás fé em algum coração quando retornares, Jesus? [11] Amor fraterno e misericórdia certamente bem pouco.

Perdoa-nos e não nos impute os pecados, pois estamos cegos e não sabemos o que fazemos acreditando estar a teu serviço. Como Pedro – no ímpeto carnal e na ignorância do teu reino – disse que tu não morrerias [12], dizem que tu também não deves salvar a muitos. Segundo as regras humanas, deves salvar apenas alguns poucos que são “firmes e fiéis” aos preceitos, ainda que não ao amor cristão.

Tu ainda és refúgio e refrigério, enorme árvore na qual as aves do céu se amontoam e acham descanso [13]. És, certamente. No entanto, talvez não nos lugares em que se diz estarem reunidos em teu nome.

Fácil criticá-los. Nem tanto, mas ao menos possível. Resta-me, contudo, não esquecer de que se minha “justiça” não exceder a dos “escribas e fariseus” serei privado do reino dos céus [14].

[1] João 5:39-40

[2] Salmos 14:1-3; 53:01 e Romanos 3:10-12

[3] Mateus 23:13

[4] Romanos 10:12

[5] Mateus 23:24

[6] Colossenses 2:21-23

[7] 2 Pedro 3:16

[8] Lucas 18:9-14

[9] João 5:12; 13:34

[10] 1 João 4:20

[11] Lucas 18:8

[12] Mateus 16:22-23

[13] Mateus 13:32 e Lucas 13:19

[14] Mateus 5:20

Gay; homossexual; lésbica; LGBT; cristão; crente; evangélico; CCB.

#024: Gays, o pavor do inferno e o dom de línguas

Por muito tempo eu tive medo do inferno. Pavor. Enquanto criança nunca pensava sobre isso, mas, tão logo completei 12 anos, tive uma sequência de sonhos relativos ao fim do mundo apocalíptico que o inferno começou a me assombrar. Por isso, aos 12 anos fui batizado, pois, embora não compreendesse o Deus amor, tinha certeza de que eu não queria sofrer a danação eterna.

Depois, eu vivi 2 anos intensos, indo às visitas com mocidade, frequentando as RJM[1], orações na madrugada com meus cooperadores de jovens… Eu havia perdido o medo do inferno, e ainda não entendia o amor de Deus. Até então, eu não compreendia minha homoafetividade – que sempre esteve manifestada – e, muito menos, minha homossexualidade que começava a aflorar.

Contudo, por volta dos 14 anos – quando percebi que, de fato, minha atração não era àquela a que fui orientado, a “normal”, e quando minha sexualidade se manifestou mais intensamente – eu percebi que, sim, deveria temer o inferno. Passei a desacreditar da minha salvação. Toda vez que desejava homens[2], depois, eu caía aos prantos em oração e suplicava a Deus que não me condenasse, que não me deixasse ceder àquele sentimento.

Confesso que, nas minhas orações solitárias, sempre alcançava algum alento, algum conforto divino. Porém, como o sentimento homoafetivo é intrínseco, eu sempre retornava àquele estado de miséria espiritual: duvidava de que eu seria salvo, já que homossexual – ainda que não praticasse o ato em si, mentalmente o idealizava[3].

E isso foi um ciclo em minha vida: idealizava mentalmente situações de práticas homoafetivas, me achava indigno de ser salvo, caía em um desgosto profundo por não “agradar a Deus”[4], chorava aos pés de Deus rogando-lhe misericórdia e que me suportasse, encontrava consolo e sentia a virtude[5] e presença de Deus em mim, e logo idealizava práticas homoafetivas[6].

O que quero explicar é que eu só sentia a virtude quando me considerava um impuro, uma abominação, e chorava aos pés de Deus, clamando por sua misericórdia. Eu ainda temia o inferno e não entendia o amor de Deus por mim – ainda que, repetidas vezes, ele me dizia: Eu te amo.

Eu era muito fervoroso[7], chorava sempre na igreja, me alegrava e emocionava sentindo a presença de Deus, pois encontrava esse consolo de que eu seria salvo, sim, e as Palavras[8] me faziam compreender que Deus entendia minha condição natural e que me aceitava assim, como sou.

Em 2007, aos meus 19 anos, eu estava em uma RJM e senti a virtude muito fortemente. Na RJM da semana seguinte, Deus dizia: Semana passada você sentiu grandemente a virtude, e hoje você vai sentir ainda mais!

Confesso que eu não senti nada, definitivamente. Eu estava em paz e não senti a presença de Deus naquela RJM. Chegando em casa, porém, encontrei uma situação desagradável: uma pessoa estava possuída por um sentimento maligno e prestes a causar, mais uma vez, uma desgraça em nossa família.

Eu, então, comovido com a situação, comecei a chorar. Primeiro chorei de desespero, tentando evitar que minha irmã, ainda mocinha, percebesse aquela manifestação maligna, diabólica. Depois, comecei a chorar mais, mas um choro diferente, proveniente da alma, do coração. Foi quando eu comecei a falar em línguas[9] pela primeira vez. Eu falava em línguas e entendia algumas coisas que falava. Fisicamente eu era bem fraquinho, mas segurei aquele homem, que nos causava males emocionais, com tanta força que vi que não era minha. Falando em outra língua, eu o abracei e, depois de um tempo, ainda o abraçando e falando em línguas, aquele espírito contrário e maligno se ausentou. Houve paz.

Uma prima minha, que também estava em casa na ocasião e que há muito tempo não falava em línguas, depois, me abraçou e voltou a falar em línguas. Minha irmã, ao me abraçar, sentiu a visitação de Deus. Abraçado à minha mãe, que chegou depois e em grande desespero, anunciava-lhe em línguas e eu entendia a mensagem que eu lhe dizia.

Eu, gay, com medo e pavor do inferno, com dúvida da minha salvação (porque me sentia impuro por ser homossexual) recebi, naquele domingo, o dom de línguas e vi Deus fazer outras obras lindas.

Aquela força que recebi ao falar em línguas e sentir Deus bem de perto, durou alguns dias. Esqueci o pavor do inferno e tive paz por alguns dias. Depois disso, passei 9 meses sem falar em línguas novamente. Logo, o medo do inferno foi se manifestando. No fim daquele ano, em uma RJM, o cooperador de jovens durante a reunião, me apontou e disse a mim que abraçasse um moço, que era auxiliar de jovens junto comigo e que havia sido “selado”[10] com o dom de línguas fazia pouco tempo. Eu nunca gostei muito disso, confesso, mas o abracei e voltei a falar em línguas, pois senti a presença de Deus de maneira muito forte em mim.

A partir desse dia, eu falava em línguas mais constantemente. Agora, quando me sentia um verme, uma abominação, e orava a Deus, o consolo vinha com sua presença e com a manifestação do dom de línguas. E eu só manifestava esse dom quanto estava nesse estado espiritual de me achar indigno de salvação.

Alguns pensam que para falar em línguas tem que estar puro, ser santo e irrepreensível. Ou, ainda, que quem manifesta o dom de línguas está consagrado e perfeito diante de Deus. Minha experiência diz o contrário. Sempre que eu manifestei o dom de línguas (ou que eu sentia aquela paz e alívio espiritual) era no momento em que me percebia mais sujo, mais abominável, mais pecador.

De 2013 até 2015 eu fiquei sem manifestar o dom de línguas. Em 2015 manifestei poucas vezes, uma ou duas. Coincidentemente ou não, foi a época em que tive crises depressivas fortes e, também, a época em que eu estive mais distante de Deus – ainda que, semanalmente, eu ia à igreja mais de quatro vezes, pouco meditava nele e em seu amor.

Em 2016, um pouco antes de iniciar o blog, e quase que imediatamente após me entender e me aceitar gay, eu comecei a sentir a presença de Deus de uma maneira muito intensa e a todo o tempo. Aquela paz que eu sentia apenas por alguns instantes enquanto falava em línguas ou um pouco depois de haver falado – às vezes algumas horas, outras um ou dois dias –, passou a ser constante em minha vida. Aquele medo e pavor do inferno, de ser condenado por ser “imperfeito”, também se esvaneceram.

Eu passei a sentir aquelas virtudes – que eram momentâneas e apenas em situações de miséria espiritual, quando me sentia um verme – o tempo todo. Todo dia. Em situações inesperadas[11]. Fora da igreja. Eu deixei de me sentir um cão miserável e passei a me sentir amado por Deus. Isso trouxe-me uma enorme paz. Deu-me certeza de salvação, não por qualquer mérito meu[12], mas por exclusivo mérito de Cristo.

Hoje, eu falar em línguas não se faz tão necessário (ainda que acho uma linda manifestação), pois acredito que a finalidade deste dom, na minha vida, era me dar paz. Eu estou em paz em relação à minha salvação. Eu estou certo de que Cristo me salvou. Eu já não duvido do poder de Cristo para me salvar e o amo intensamente por fazer isso sem que eu mereça, sem que ninguém mereça.

Sim, gays falam em línguas, e são participantes de todos os dons do Espírito Santo. Quero, contudo, que saibam que nem todos falarão em línguas. E, ainda, que não falar em línguas não significa não ser selado com o Espírito. Todos que cremos em Cristo como nossa salvação somos selados pelo Espírito para nossa redenção!

Aos gays cristãos e a todos que estão com duras cargas, devido à incerteza de salvação, proponho que, em lugar de buscar este ou aquele dom, busquem a compreensão de que a salvação se recebe exclusivamente por meio do mérito de Cristo. Quando conseguirem entender isto, alcançarão uma paz e certeza de salvação que mal nenhuma chegará a tenda dos corações de vocês: estarão no reino de Deus, no “paraíso”, ainda nesta vida terrena!

Busquem os dons de Deus, sim, mas procurem aquele caminho mais excelente: o amor fraternal e incondicional como o de Cristo.

Texto escrito em resposta a um pedido anônimo que recebi no blog.

[1] Reunião de Jovens e Menores é uma reunião da Congregação Cristã no Brasil, geralmente realizada nos domingos de manhã, exclusiva às crianças e jovens.
[2] Um eufemismo para a prática da masturbação.
[3] Idem. Masturbação é um tabu.
[4] Ou seria “aos homens”?
[5] A virtude é a manifestação da presença de Deus dentro de si. Comumente, relacionada a uma emoção (choro, alegria etc.) e, ao meu entender, tem finalidade de animar, dar forças espirituais ou fazer crer estar ligado com Deus.
[6] Esse ciclo se perpetuou por 14 anos, fui liberto apenas aos 28 anos – quando, então, comecei a os textos do blog.
[7] Fervoroso é alguém que sente a presença de Deus facilmente, ao menos é nesse sentido que usei o termo.
[8] Palavra na Congregação Cristã no Brasil (CCB) é a exortação de uma passagem da Bíblia, o discurso dos pregadores, que entendemos ser inspirado por Deus – ao menos deveria ser.
[9] Falar em línguas ou o dom de línguas é uma manifestação do Espírito Santo que faz com que a pessoa, sem saber, fale em outras línguas. Em minha cidade, no interior de São Paulo, há um irmão indouto, sem estudo, e que recebeu o dom de línguas em inglês arcaico – entende-se o que ele fala. Não se trata apenas de sons inteligíveis como alguns pensam. Há de se considerar que, sim, há imitações desse dom, tanto na CCB como em outras denominações e que acabam por o banalizar. Há outras manifestações, como interpretar outras línguas, expulsar demônios, curar enfermidades…, mas a maior manifestação é o amor fraternal e incondicional.
[10] É comum dizermos “ser selado pelo Espírito Santo” para se referenciar a alguém que fala em línguas. Ser selado, entretanto, é algo mais amplo e todo o cristão, todo crente em Deus, é selado (ainda que não fale em línguas).
[11] Como descrevi no texto 21 do blog http://www.tbsoucristao.blogspot.com
[12]Entenda, ninguém merece, nem nunca merecerá, o “céu”. O estado de paz que alcança quem entra no reino de Deus não é por nenhum mérito, mas por graça. É um favor, porque ninguém merecia isso. Cada um de nós somos ruins o suficiente para entrarmos no “céu”, mas somos justificados por Cristo, que é justo e justificador. Nenhum esforço próprio nosso pode nos colocar no “céu” e é por isso que precisamos entender e aceitar que o mérito é de Cristo. Isso não significa que podemos “deitar e rolar” no que é imoral (como desafetos, inimizades, porfias, malignidades e outros frutos do desamor), mas que quando pecarmos teremos um advogado que intercede por nós e ao nosso favor: Cristo. Se dissermos que não pecamos, tornamos Cristo mentiroso – e nos fazemos hipócritas.

Tags: LGBT, lésbica, gays, homossexual, homossexualidade, cristão, crente, CCB

#022: Meu filho cristão é gay, e agora?

Embora eu não me lembre muito bem dos discursos que ouvi na CCB durante minha infância, quanto à homossexualidade, eu aprendi desde cedo que ser gay era errado, pois naquela época (a saudosa década de 90) menino usar brinco ou não jogar futebol, por exemplo, eram motivos suficientes de deboche:

– Viadinho, bichinha – diziam para os meninos que estavam fora do padrão hétero-machista.

Eu levei vinte e oito anos para começar a aceitar minha homossexualidade, para me aceitar. Quando era mais jovem, até meus 12 ou 13 anos talvez, eu tinha uma relação muito próxima e forte com minha irmã e mãe, erámos bons amigos.

Quando entendi que eu era gay e por ver, na rua e na escola, as crianças sofrerem tanto com aquelas chacotas, apenas por serem diferentes, eu temi e me escondi. Reprimi-me para não ter trejeitos, tornei-me quieto para que minha voz não me denunciasse, afastei-me cada vez mais daqueles que eu amava (embora fisicamente perto, emocionalmente eu estava distante). Eu me isolei e ninguém mais sabia quem eu era. Conheciam-me apenas pelo exterior ao ponto de eu parecer “o moço certo” para qualquer “boa moça” da igreja: tive “sucesso” em me reprimir!

Minha irmã me disse, certa vez:

– Depois que você foi morar fora por causa da faculdade, ficou muito quieto!

Ela não sabia que o real motivo era eu estar me reprimindo e sufocando demasiadamente meus sentimentos e emoções. Eu não poderia demonstrar afetividade excessiva, pois inconscientemente eu acreditava que evidenciaria, também, a minha homoafetividade.

Hoje, pela grande misericórdia de Deus, vejo-me cada dia mais perto e mais aberto com minha mãe e irmã. Contudo, sei de algumas histórias de pais e filhos, cristãos, que têm conflitos tão grandes, que travam uma guerra tão desnecessária, ferindo-se mutuamente, apenas porque os filhos são gays.

Pais, não é essa a luta que vocês têm que travar. Não é lutando e desprezando o sentimento diferente de seus filhos, gays cristãos, que vocês os “ganharão para Cristo”. Não é com ódio, rancor, ira, peleja ou quaisquer outras coisas semelhantes a essas que vocês conseguirão colocar no reino dos céus o filho gay que têm.

Eu imagino o quanto deve ser difícil para vocês aceitarem um filho gay e, mais ainda, aceitarem um filho gay que têm relações homoafetivas, afinal, pais e filhos aprendem que isso é errado, pecado e, ainda pior, abominação.

Pais, orem e vigiem por que o fim vem, mas sobretudo tenham ardente caridade uns para com os outros, porque a caridade cobrirá uma multidão de pecados (1 Pedro 4:7-8). Se, de fato a homossexualidade ou sua prática são pecados, amem seus filhos e sejam caridosos com eles, pois, assim, quem sabe Deus poderá lhes converter como vocês tanto desejam.

Eu sei que vocês, pais, padecem e sofrem quando têm um filho gay. Sofram por amor a Deus, sim, mas façam isso fazendo o bem (1 Pedro 4:19). Se vocês têm um filho gay e, por amor a Deus, sofrem, oram e jejuam, fazem votos e se privam de tantas coisas em consagração para que Deus os livre “desse mal”, vocês perderão qualquer galardão se fizerem mal ao filho gay que têm, se o colocarem para fora de casa, ou se lhe privar de amor e carinho paternais.

Pais, vocês poderão dizer coisas semelhantes a essas a seus filhos gays:

– Não vou ter comunhão com essa má obra. (Efésios 5:11);

– Não vou aprovar o que é desagradável a Deus. (Efésios 5:10); ou

– Não serei companheiro dos filhos da desobediência. (Efésios 5:7).

Alguém também poderá tentar convencer vocês a não amarem seus filhos gays citando muitos versos da Bíblia que, ironicamente, é a fonte de amor supremo. Pais, ninguém vos engane com palavras vãs porque é sobre estes que vem a ira de Deus (Efésios 5:6). Lembrem-se de que aquele que corrompe ou que torna incompreensível a Palavra de Deus – o amor incondicional chamado Cristo – não deve ser ouvido por vocês.

Pais, tomem cuidado para que da boca de vocês saia apenas o que for bom e de edificação aos seus filhos gays, cristãos ou não, e que ouvem vocês. Jamais entristeçam o Espírito Santo de Deus e, por isso, toda a amargura, ira, cólera, gritaria, blasfêmias ou malícia não estejam na relação de vocês com seus filhos, pois os cristãos devem ser benignos e misericordiosos uns para com os outros, perdoando como Deus perdoou a cada um em Cristo (Efésios 4:29-32).

É importante que os filhos gays honrem seus pais, amando-os. Certamente! E vocês, pais, não devem provocar a ira dos seus filhos, mas criá-los na doutrina e na admoestação do Senhor (Efésios 6:1-4).

Ora se a doutrina do Senhor não se tratar de amor incondicional, se ela não se tratar de tolerância para com os “fracos”, se a admoestação não for com benignidade, bondade e afeição, não, não poderemos dizer, pais, que vocês são cristãos, porque o fruto do Espírito está em toda bondade, justiça e verdade (Efésios 5:9).

Pais, se de fato é a homossexualidade um pecado, vocês, que são espirituais, devem encaminhar o filho gay que têm com espírito de mansidão, olhando para vocês mesmos a fim de que vocês não deixem de ser cristãos. Além do mais, levem a carga de seus filhos e cumpram a lei de Cristo, amando-os incondicionalmente (Gálatas 6:1-2).

#019: O fariseu, o publicano e o gay

Que eu sempre fui gay, não é novidade. Eu sempre soube, embora demorei para aceitar (se é que já aceitei).

Foi mais ou menos assim: brincava mais com meninas (a proporção de primas era maior que a de primos, não tive muita escolha), me dava muito bem com elas. Depois, queria muito um amigo, bem amigo. Aí percebi que achava os meninos muito mais bonitos que as meninas. Na verdade, achar menina bonita parecia errado. Já “mocinho”, batizado, e muito ativo na igreja, rejeitava e fugia de qualquer ideia de namoro com alguma irmãzinha (ainda tenho que fugir, na verdade, as pessoas não se cansam em querer arranjar casamento, mas tenho me frustrado menos com isso, até me divirto.)

Bom, quando moço não teve jeito, vi que realmente eu gostava mais de moço, que eles me atraíam muito mais. Eles me atraíam na verdade, enquanto as moças eram boas amigas e só.

Acontece que fui hipócrita por muito tempo, e isso porque eu era extremamente ignorante, não tinha nenhum conhecimento. Ao tentar me entender, como moço crente “exemplar” que eu era (e talvez ainda eu seja), era impossível conciliar minha sexualidade “anormal” com minha religiosidade, absolutamente, “normal”.

Primeiro eu rejeitei minha sexualidade (como se as forças carnais fossem suficientes para isso). Depois que vi que não tinha como rejeitar (afinal, nasci assim), passei a tentar entender o que Deus poderia querer de mim, já que Ele havia depositado uma fé enorme em eu coração e, também, uma sexualidade divergente do padrão sexual aceito entre cristãos.

A primeira ideia que me veio à cabeça, embora eu não pudesse acreditar completamente nela, era a de que eu nunca me relacionaria e, assim, poderia “julgar” os que se entregaram à “carnalidade”.

Eu pensava assim, perdoem-me.

Eu pensava que Deus “precisava” de mim para que, no último dia, Ele pudesse dizer aos gays que se relacionaram: Olhem, esse meu servo sentia o mesmo que vocês, mas por amor a mim, rejeitou sua sexualidade e, por isso, vai se alegrar no meu reino.

É vergonhoso, muito, mas eu pensei assim. Não acreditava muito, mas era a única forma que eu conseguia conciliar minha sexualidade com minha religiosidade.

É como se eu batesse em meu peito, olhasse para o céu e falasse: Deus, meu Senhor, graças te dou porque eu não sou como os demais pecadores, os demais homossexuais, não me entrego à carnalidade.

Eu dou graças a Deus que hoje, por meio de uma situação esmiuçou essa minha hipocrisia, eu tenho orado: Tem misericórdia de mim, porque sou pecador.

E oro assim não porque eu sou gay. Não. Oro porque percebi que ninguém, jamais, é digno do reino de Deus. Percebi que ninguém pode bater no peito e dizer: não sou pecador.

É verdade que em Jesus não somos pecadores, mas isso não significa que seremos perfeitos.

Percebo que minha sexualidade, fora do “padrão”, não veio para que eu condenasse os demais gays, mas para que eu me fizesse humilde, amasse o diferente e, graças a Deus, pudesse desfrutar do Seu reino desde essa minha vida terrena.

Eu não consigo imaginar o crente religioso que eu seria, se fosse exatamente quem sou, mas heterossexual. Eu só pude entender que Deus ama o diferente, porque eu mesmo provei desse amor, mesmo sendo homossexual.

Foi minha condição sexual que me fez mudar de uma oração como a do fariseu*, para uma oração como a do publicano, tão odiado e desprezado dos judeus que se sentiam superiores, pois confiavam em si mesmos, crendo que eram justos. Jesus disse a estes: o publicano em sua humilhação, por Deus será exaltado, enquanto que o fariseu, por seu orgulho, será humilhado.

É claro que há gays que exaltam-se a si mesmos, ou heterossexuais que são humildes. Não é a sexualidade que determina isso, claro que não.

Mas eu posso dizer que Deus ama a todos, com muita certeza, porque eu mesmo sei que ele me ama (ele me disse e me confirmou muitas vezes, continua me confirmando, sempre). Sei que ele me ama, mesmo eu sendo o que sou, porque Ele eliminou meu orgulho e resplandeceu em mim o seu amor.

Minha oração tem sido essa: tem misericórdia de mim, pois não sou justo. E mais esta: permita que todos oprimidos e cansados, que são perseguidos e desamparados espiritualmente apenas porque sentem exatamente o que eu mesmo sinto, possam conhecer o teu grande amor, que possam se achegar a ti, independentemente do que os religiosos dirão, e estejam, enfim, contigo em teu reino. Amém.

Deus rejeita os soberbos, orgulhosos, mas dá graça aos humildes.

Humildade nada tem a ver com sexualidade. Sejamos, portanto, humildes para receber a preciosa graça de Deus.
*Texto baseado em Lucas 18:9-14
Nos textos há poucas referências à comunidade LGBT, falo mais em “gays” porque é o que eu passo. Espero que todos possam entender, no entanto, o quão amados são por Deus, e que essa compreensão possa gerar bons frutos de humildade e de outros características de quem tem o Espírito Santo em si. 

#017: O homossexual deve viver sozinho?

Já ouvi conselhos em Reuniões de Mocidade, dizendo: Se você, moço, não gosta de moça, não se case com uma. E outros mais, dizendo: se você percebe que o seu desejo sexual não é o “natural”, contenha-se, pois Deus te ama mesmo assim, esteja entre nós, e contenha-se, contenha-se. E, também: o casamento que aceitamos é o entre um homem e mulher, como é desde o princípio.

Eu, no entanto, recorro a essa mesma lógica, de usar as coisas como eram no princípio, e relembro que, no princípio, Deus criou o homem para ser vegano e adepto do nudismo, além de, parece-me, solitário, já que no princípio não havia quem estivesse “como que diante dele”, pois Deus fez os animais, o macho e sua fêmea, e determinou que Adão lhes desse nomes e, por isso, por algum tempo, houve apenas Adão.

Essa ideia, de que o homem deveria se despojar de tudo, até mesmo das relações afetivas, é defendida por Paulo, que recomenda aos cristãos de Coríntios guardarem a virgindade, evitando o casamento*. Ele defende isso argumentando que o solteiro cuida melhor das coisas do Senhor e, assim, pode se dedicar inteiramente à Deus. É claro que essa regra deveria estar inserida em um contexto que fizesse muito sentido, possivelmente alguma perseguição que inviabilizasse a manutenção e união das famílias.

Entretanto, respondendo aos coríntios, que ficaram tão preocupados com o celibato proposto (é, muitos cristãos heterossexuais ficaram apavorados com essa ideia de não fazer sexo, nem constituir família, afinal, quem é que pode conter os desejos sexuais por amor ao Senhor?), Paulo dizia:

– Ora, se vocês não podem receber este mandamento, não o recebam, pois eu apenas queria poupar vocês de algumas tribulações, mas não é bom que, por não ser casado e ter necessidade disto, um homem cristão ande inflamado, desejando as mulheres que vê pelas ruas desta cidade promíscua, e onde há diversas prostitutas cultuais que inflamam os desejos carnais. Se for para andar assim, inflamado, desejando relações sexuais porque não se é casado, é melhor que se case e, saibam, não há nenhum pecado nisto, mesmo que eu havia dito: “não se case”.

Novamente, relembro que, ao olhar para o solitário Adão, Deus disse a si mesmo: não é bom que o homem esteja só, farei para ele uma mulher, uma companheira que seja como ele e que o complete. É verdade que Ele criou Adão e, depois, Eva. Mas, junto desse casal, criou toda a diversidade que contemplamos na humanidade. Inseriu no código genético desse casal tudo aquilo que nos define.

A recomendação ao celibato, de Paulo, por ser algo impossível e terrível para muitos, caiu em desuso para que os cristãos não vivessem inflamados com a sensualidade, por não poderem nunca se entregarem aos desejos, mesmo que dentro da moralidade de um casamento.

Igualmente, embora Deus no início criou apenas o homem, logo viu que não era bom o homem viver sozinho, mas que deveria ter uma companhia que o entendesse, que estivesse com ele em todos os momentos e para “serem, ambos, dois em uma só carne”. E, sobre isto, é claro que não significava sexo, mas que ambos se completariam emocional e espiritualmente (como já ouvi em diversas Reuniões de Mocidade).

Nós, gays cristãos, no entanto, ainda que somos criaturas de Deus, em semelhança a Adão, tendo as mesmas necessidades sexuais, afetivas e emocionais que os demais cristãos, somos impedidos tanto de conter nossos desejos sexuais, pois nos proíbem o casamento (o que contribui para que vivamos inflamados em nossos desejos) e, como se não bastasse isso, somos doutrinados a viver na solidão, mesmo Deus havendo dito, desde o princípio: Não, não é bom que o homem esteja sozinho.

Creio que no momento em que Deus disse isso, ele olhasse para o coração de muitos de nós, gays cristãos, impedidos de todas as formas de ter, à vista de todos, uma relação sincera de afeto e carinho. Não, não é bom que o homem viva sozinho, foi o que Deus disse, desde o princípio.


*É interessante como uma recomendação bastante clara, como essa, passe “despercebida” hoje em dia, ainda que a ela seja dedicado todo um capítulo (1 Coríntios 7), enquanto que apenas dois versos de Levíticos (que já deveriam estar em desuso, conforme explicado na carta aos Gálatas) ou dois capítulos descontextualizados (Gênesis 19 e Romanos 1) ainda oprimam a tantos de nós! A esperança é uma vida com Cristo, independente da fé das demais pessoas, produzindo os frutos de amor para com todos!


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#009: Não nascemos assim

Eu não nasci assim. Não escolhi nada.
Se eu pudesse, escolheria o caminho fácil. O caminho que todos querem, afinal, assim, não sofreria tanto.
Eu não nasci assim. Eu não escolhi nada.
Eu nasci saudável, corado e chorão. Não escolhi nada. Se pudesse, escolheria o mais fácil, aquilo dentro do padrão.
Mas, eu não nasci, assim. Não escolhi. Mas nasci. E isto me definiu. Não foi minha escolha. Mas me definiu.
Eu seria mais um hipócrita, se tivesse tido escolha, se tivesse seguido a orientação padrão. Seria hipócrita porque me sentiria perfeito, predileto e eleito.
Mas, porque eu não nasci assim, me senti tão imperfeito, tão miserável, tão abominável (e por tanto tempo) que tive que recorrer à muita misericórdia.
Ei, se eu não fosse gay, seria hipócrita. Acreditaria ser perfeito, não teria chorado para ser aceito. Mas eu não nasci assim, convertido. E, também, não escolhi ser escolhido. Deus me elegeu. Assim, como sou, eu.
Agora, resta ser um escândalo, um anômalo. Mas são anomalias que engendram o conhecimento. É o diferente que faz (re)pensar  os padrões. É aceitar o miserável que traz à luz a hipocrisia.
Eu não nasci assim, não. Não nasci cristão. Isso eu tive que aprender. E eu aprendi com algo que não escolhi ser. Aprendi humildade e misericórdia, porque precisei delas.  Entendi o amor de Deus, porque precisei dele.
Se dependesse dos homens, a mim me restaria inferno e escuridão, mas como dependia de Deus, restou-me graça e salvação. Eu não nasci assim, mas hoje sou cristão.

Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Sem linguagem ou fala, ouvem-se a sua voz em toda a Terra. Salmos 19:2


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