#029: Carta a um irmão ancião [2]

Queridos irmãos,

Venho expor, brevemente, um assunto que merece muito tempo de discussão e reflexão. Justamente por ele nunca ser questionado, ouvimos algumas afirmações simplistas, porém que acarretam grandes desastres na vida de muitos. Do púlpito – lugar que estimamos e que, às vezes, chegamos a considerar como sendo de onde procede a voz de Deus – têm saído palavras que corroem e destroem o sentimento e a vida de muitos jovens, moços e moças cristãos. Uma destruição invisível, que passa despercebida ou que é ignorada.

Falar sobre mim talvez seja em vão, ainda possuo vida e, por grande misericórdia de Deus, nunca cheguei a pensar em me matar, ainda que já amargamente desejei a morte a fim de não sair dos padrões e doutrina da igreja.

Aliás, jamais me dirigirei aos irmãos e ao Ministério com intuito de mudar qualquer coisa da compreensão do Evangelho que os irmãos tenham. Não é esse o caso.
Quando nasci minha mãe já congregava e logo se batizou, a família do meu pai já era da CCB, e ele batizou apenas em 2008. Tenho quase 30 anos e, na minha meninice já possuía diversos indícios de que eu escaparia do padrão heteronormativo. Senti a virtude pela primeira vez e também fui batizado aos 12 anos e, desde então, nunca mais usei bermuda, nunca mais andei sem camiseta. Nunca ouvi música “mundana”, nunca idolatrei time de futebol. Dia 18 agora fez 11 anos que recebi o dom de línguas, quando uma perturbação maligna precisou ser expulsa de minha casa. Minha mocidade foi sempre dedicada em servir a Deus e fazia isso ocupando todo meu tempo dentro da CCB: sou auxiliar de jovens há 15 anos, músico oficializado, sempre ajudei nas escolinhas musicais e fui instrutor por alguns anos, auxiliei na Administração e também o Ministério confiou deixar em minhas mãos, com a ajuda de Deus, o atendimento de cultos de evangelização na Fundação CASA e também em diversas Reuniões de Jovens e Menores em que o cooperador de jovens estivesse ausente.
Ainda sou solteiro e a pressão para que eu me case nunca cessa. Com quase 30 anos já estou fora do padrão da igreja, pois é aconselhado aos moços que se casem antes disso. Meu antigo cooperador de jovens me disse, quando eu tinha uns 27 anos: Você está perdendo tempo, com sua idade eu já tinha 2 filhos! Em uma Reunião de Mocidade, já com 28 anos, o ancião dizia: se o moço tem 26, 27 anos e não casou, tem algo errado.

Também em uma Reunião de Mocidade, há algum tempo, um ancião aconselhava: moço, se você não sente atração por mulher, procure um médico, se você tem vergonha vá a uma cidade longe, mas procure orientação de um profissional. Em 2014, eu estava com depressão, sabia o motivo, mas não dizia a ninguém. Sem querer, passei por uma psicóloga e ela me aconselhou: esqueça religião, se você é homossexual, seja você!

Outro irmão, em Reunião de Mocidade dizia: um irmãozinho veio me pedir ajuda, porque ele olhava para moços sem camisa e não conseguia conter seus desejos. E completava: moço se você sente isso, não se case com moça, não arruíne a vida dela. Ele não falou ter ajudado o irmãozinho homossexual, apenas se preocupou em que nós homossexuais não arruinássemos a vida de ninguém, parece pouco importar que nossa própria vida esteja ou que seja arruinada.
Como se não bastasse, recentemente, aqui na capital, um dos anciães mais antigos disse em uma Reunião de Conselhos que nós – homossexuais que tentam ser cristãos – poderíamos nos achegar ao Ministério após o culto para conversar. Disse também que o “homossexualismo” se trata de “uma enfermidade demoníaca e diabólica” que “assola o povo”.
Alguns desses discursos vêm em tom de deboche. Outros enraizados em um preconceito ou até em ódio dissimulado em zelo. Há aqueles que são sinceros, sim, porém sem muito esclarecimento sobre o assunto.
Como se já não fosse difícil ouvir do púlpito que somos “endemoninhados”, doentes, ou sem temor a Deus, em nossos lares esses discursos se repetem e com menos reflexão ou sensibilidade. Minha mãe, sem saber da minha condição enquanto homossexual, disse, certa vez: é o fim dos tempos mesmo, o mundo está “empesteado” de homossexuais. Eu não sei qual é a visão dela em relação à homossexualidade, e nem como ela vai reagir quando souber que o filho amado e dedicado dela é uma “peste”. Mas eu sei bem onde ela aprendeu isso, pois o convívio dela é entre a irmandade e não assistimos TV. Praticamente toda orientação e instrução que ela tem do assunto são provenientes do que ela ouve na igreja.
Tenho mantido contato com moços e moças da CCB e que são homossexuais, aqui na capital, do interior de São Paulo e de alguns outros estados. Não são poucos os relatos de que os familiares os rejeitaram, não porque tivessem relações sexuais ditas imorais, mas apenas e simplesmente porque se viram com sentimentos homossexuais. Nossos conhecidos e familiares cristãos, membros da CCB, por tanto ouvirem que somos uma abominação, nos rejeitam, nos excluem e tentam nos fazer acreditar que somos de fato uma aberração. Somos a pior abominação de todas perante Deus, como um primo (muito crente e espiritual) me disse certa vez, logo que me batizei, e que me causou tormentos e sofrimentos no mínimo até os meus 28 anos.
Como se não bastasse a rejeição de quem nos ama, muitos jovens homossexuais, por também crerem pia e irrefletidamente no que sai dos púlpitos, veem na morte uma saída. No fim do ano passado um moço de 18 anos me contatou e ele estava disposto a se suicidar, pois ele mesmo acreditava que estava possuído de um espírito maligno. Com o tempo ele se entendeu, porém sua mãe continua reforçando e crendo nisto e, por vezes, ele desanima a ponto de, novamente desejar a morte.
Ainda essa semana, uma moça de uns 23 anos, que foi minha aluna em 2012, também homossexual, relatou que seu irmão, um mocinho de cerca de 15 ou 16 anos, se suicidou a pouco tempo, justamente pela repressão que sofria por se entender homossexual.
Cada vez que um jovem me contata para falar suas dores, seus pavores ou anseios pela morte eu me sinto incapaz de salvá-los, de convencê-los a viver, de incentivá-los a viver em Cristo, fonte de vida e paz. Mas essa foi a primeira pessoa que me disse sobre alguém que chegou ao ponto de se matar porque não se enxergou dentro dos padrões da igreja – já que homossexual, ainda que não praticante –, porque não compreendeu que poderia ser digno de salvação por mérito de Cristo e, ainda, porque foi rejeitado pela irmandade e incompreendido pela família.
Como eu disse, estou expondo muito brevemente o assunto e gostaria que ele fosse melhor refletido. Eu sinto o peso da morte desse jovem e o peso da vida amargurada e longe de Cristo – fonte do amor e vida verdadeiros – que outros tantos têm. Eu gostaria que cada um dos irmãos do Ministério sentisse esse peso também. A vida desses jovens e a perda dela está nas mãos de cada um de nós que permitimos que discursos de ódio, de preconceito ou de incompreensão de algo tão delicado sejam proclamados em nome de Deus.
É verdade que há um consenso de que a prática homossexual é pecado e nem questiono isso, pois não é o importante nesse momento.
Na CCB aquele irmão que se ira ou xinga outro não é tratado como abominável – embora Jesus afirma, em uma hipérbole, que este é digno do inferno. Também não se lança no inferno aqueles que são desleais nos contratos, infiéis, detratores, caluniadores, maldizentes. Aliás, por graça de Deus, é comum ouvir discursos e Palavras que nos estimulam a ter paz e paciência com todos os homens, mesmo com esses infiéis. Mas quando se trata da homossexualidade a irmandade – e alguns não poucos irmãos do Ministério – propagam um discurso diferente, em que o amar essas pessoas parece se tornar tão abominável quanto ser um homossexual.
Eu realmente não espero que o Ministério leve adiante a questão: é a prática da homossexualidade pecado ou não?
No entanto, é urgente que os irmãos do Ministério, às vésperas da Assembleia, reflitam que a vida de centenas ou milhares de jovens está nas mãos dos irmãos e do que os irmãos discursam e propagam nos púlpitos e que a irmandade recebe como sendo a voz do próprio Deus.
Tenho muito que falar, mas não quero fazer isso por escrito.
Coloco-me à disposição para conversarmos sobre o tema e tentar impedir que vidas materiais se percam e, por que não, possibilitar que esses jovens tenham a vida espiritual e paz em Deus, por meio da graça de Cristo, que nos abraçou e amou imerecidamente.
Com muitas preocupações, e com todo o respeito e carinho que tenho pelos irmãos,
João ********* 
São Paulo, 21 de março de 2018. Contato: *********@gmail.com


Carta entregue pessoalmente, em 2018 e um pouco antes da Reunião Geral de Ensinamentos (RGE), a um irmão ancião dentre os mais antigos da capital de São Paulo. Respondeu-me com um e-mail, demonstrou-se interessado em conversar pessoalmente, porém, até hoje (5/8/2019) , ainda não consegui isto.

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