#021: Gays e anjos

Eu fui batizado aos 12 anos. Batizei-me, pois senti a virtude pela primeira vez e não resisti. Sentia que eu precisava me batizar, pedi como sinal um hino que não tocou antes do batismo, mas tão logo saí das águas.
Não muito tempo depois, poucos meses, eu voltava da igreja a pé com minha mãe e uma dúvida enorme, um medo e pavor de ser condenado – por pensar que eu poderia não permanecer na fé devido aos meus sentimentos – me assombravam. O culto havia sido maravilhoso, mas eu não tinha certeza da minha salvação. Como criança que eu ainda era, pedi um sinal. Com o pensamento em Deus eu meditei: “Se eu serei salvo, se Tu me ama, permita que ainda esta noite eu veja um cometa“. Ao mesmo tempo que pensava eu me propunha ficar a noite acordado olhando para as estrelas a fim de ver se receberia esse sinal, se eu veria algum cometa. Porém, instantaneamente avistei o risco de um no céu. Eu contive a alegria.
Infelizmente a gente não fica criança a vida toda e as lutas vão se transformando. Aceitei-me gay, gay cristão. Fiz o blog, comuniquei-me com outros moços e moças LGBTs. Tentei ajudar alguns a se entenderem e a me entender também. E novamente uma dúvida me amedrontava: estaria indo contra os preceitos de Deus?
Com esse medo, e pensando em recuar com tudo o que eu já havia feito, em janeiro de 2018 pedi um sinal. Havia perdido minha carteira na segunda-feira no final da tarde, em São Paulo, numa rua movimentada e cheia de andarilhos e, na manhã da terça-feira seguinte eu senti a falta dela. Voltando ao mercado (onde eu a havia usado pela última vez) pedi: “Senhor, sei que não mereço e que sou indigno de pedir qualquer coisa, mas se eu de fato não estou lutando contra sua Obra, permita que eu encontre essa carteira antes de entrar no serviço”. Não a achei. Fui para a empresa e, ao entrar na recepção o telefone tocou e era alguém me procurando: haviam encontrado minha carteira e queriam devolvê-la. Um homem, com roupa surrada, uma enorme mochila nas costas veio trazê-la a mim, na porta da empresa, tendo a encontrado cerca de 2 km dali. “Deus é comigo!”, entendi.
Que fraco que sou. Poucos dias depois eu desfaleci nessa fé. Em fevereiro eu conversava com uma moça lésbica da CCB e lhe dava alguns conselhos. Mas os conselhos que eu havia dado não eram bem aqueles que ela ouviria na igreja. Eu me atribulei por isso e pensei: como é que eu posso estar indo tão contra o discurso que eu aprendi ser o certo?
Eu não lhe dizia que ela poderia se relacionar como e com quem bem quisesse, mas afirmava que Deus a amava como ela era, e que não precisaria mudar seus sentimentos para ser aceita.
Eu também estava querendo namorar, o que seria uma ruptura muito grande em minha vida, pois se quer era assumido.
Ela e eu, segundo tudo o que aprendi em quase 30 anos, deveríamos mudar nossas vidas, nossas atitudes, nossas opções sentimentais (como se fosse possível). Deveríamos mudar para estarmos no padrão que, dizem, Deus determinou.
Realmente fiquei bastante preocupado com o que eu havia dito e pensei, não muito refletidamente, que deveria parar com todo esse discurso que vai de encontro com o que eu aprendi na igreja: Será que eu realmente deveria me enquadrar, deveria rejeitar meus sentimentos?
Fui aonde eu deveria ir (já com duas semanas de atraso) e, ao sair daquele estabelecimento, um homem no portão, com roupa surrada e sem olhar para mim, assim que fiquei de costas a ele, disse-me: Você é evangélico, né?
Se ele tivesse falado qualquer outra coisa eu não teria dado muita atenção, talvez lhe desse alguma moeda, no máximo (embora eu não tivesse nenhuma). Mas, por um instante eu pensei em toda minha vida cristã e não soube responder, a mim mesmo, aquela pergunta tão difícil.
Não tinha certeza se eu era “evangélico”, eu não me sentia enquadrado em nenhuma igreja. Sinto-me bem e tenho apreço pela Congregação. Contudo, eu não sabia dizer se era “evangélico” ou não, porque me sentia diferente, já que tantas vezes ouvi dizer “gay é abominação”. 
Timidamente, respondi: Sim. 
E, então, ele pediu que eu lhe fizesse uma oração, ao que perguntei sem entender: Aqui?
Confesso que se ele me pedisse que fosse ali eu faria a oração, sim. Ele, no entanto, disse coisas que me fizeram chorar, que me emocionaram: “Você é da Congregação, né? Estou aqui em São Paulo há 14 dias e hoje vim aqui, nesse portão, nem sei o que é aqui. Já era para você ter vindo aqui bem antes, né? Mas você não sabe porque deixou para vir apenas hoje! Você tem um brilho diferente. Não muda. Não muda!”.
Eu não acredito muito que ele fosse um anjo celestial, mas todas as circunstâncias me fazem crer que, sim, ele foi um anjo, um mensageiro de Deus. E a mensagem que ele me trouxe foi: Não mude.
Ele disse isso quando qualquer pessoa cristã tradicional, a quem eu expusesse minha vida, minha sexualidade, me diria: “muda, se prive” ou “volte atrás e pare com tudo isso, fique quieto em seu canto que quem sabe Deus terá misericórdia de você!” etc.
Contudo, “Deus é comigo!”, eu entendi.
Eu ainda não tenho respostas, mas creio nos sinais, nas pequenas coisas que Deus faz e move para me fazer saber que sou por aceito Ele e que tudo está sob as ordens dele.
Preciso, entretanto, lembrar-me que não devo mudar, jamais, pois devo amar a Deus e a todas as pessoas, sentimento e virtude que senti naquele dia ao ser abraçado por aquele anjo.
— 
Leia também o texto 4: Um anjo de Deus em minha vida
https://tbsoucristao.blogspot.com.br/2017/06/um-anjo-de-deus-em-minha-vida.html


4 respostas em “#021: Gays e anjos

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