#016: Crônicas de um casal gay cristão

Eram jovens e se amavam. Sonhavam com os dias em que venceriam todo o preconceito daqueles que tanto amavam. Concordaram em assumir aquele amor um pelo outro e, também, em declarar o amor que tinham às pessoas que os chamavam “abomináveis”.

Tocavam-se apenas com apertos de mãos e fraternos abraços. Privaram-se de quaisquer outros contatos. Olhavam-se, dia após dia, através das janelas de suas casas, vizinhas.

De manhã um buscava pão e leite para entregar na porta do outro e poder lhe dizer, discretamente: “Bom dia, amo você”. Saíam para trabalhar quase no mesmo horário, indo pelo mesmo caminho, mas em carros diferentes porque, além de se amarem, amavam os que lhes chamavam “infames, miseráveis”.

À tarde, quando chegavam, sentavam-se no banco da rua, à porta de suas casas, e tinham longas conversas, falando de Deus e do Seu amor, ali à vista de todos. Por vezes, arriscavam tocar hinos em seus instrumentos ali no quintal mesmo, baixinho para não incomodar, e com o portão de grades aberto para não escandalizar.

Ao anoitecer, quando já não se podia ficar na rua, cada um ia para sua casa, vizinha uma da outra, tomavam seus banhos, vestiam seus pijamas, olhavam-se uma última vez, da janela, e acenavam o “boa noite, durma com Deus, amo você”.

Privavam-se tanto assim “apenas” porque amavam aqueles que lhes chamavam “profanos”.

Não poderiam ter ministérios em suas igrejas, tradicionais. Mas, aos finais de semana, iam visitar os velhinhos que reclamavam, sempre, sentirem-se sozinhos. Logo cedo, todo sábado, faziam uma caminhada, lado a lado, apenas para que encontrassem alguém a quem pudessem dizer: “Deus te ama!”. Davam-se ao luxo de almoçarem juntos aos domingos, sempre em lugares públicos para que ninguém se escandalizasse neles. Ainda assim os chamavam, não poucas vezes, “repugnantes sodomitas”.

Viviam assim sozinhos, vizinhos, lado a lado. Mas se reconfortavam em se avistarem pela janela de suas casas e, em meio àquela solidão aparente, sabiam que ali, bem próximo, estava aquele amor ardente.

Viveram assim tentando não causar nenhum escândalo, ainda que muitos se sentiam escandalizados neles, por estarem sempre juntos, mesmo à vista de todos. Era de se desconfiar!

Viveram assim sem se tocarem, não fosse o aperto de mão e abraços fraternais, ou o ósculo santo no fim de cada culto.

O amado adoeceu, não havia quem cuidasse dele. Ambos tinham um ao outro, mas viviam como que sozinhos, apenas por amar as demais pessoas que os abominavam. Adoeceu, de dores e pavores. Já não poderia viver sozinho.

Não haveria mal algum cuidar do amado, assim, tão debilitado. Não hesitou. No quarto do enfermo instalou mais uma cama. Logo tiveram seu primeiro contato íntimo, pois teve que lhe dar banhos, pentear os já ralos cabelos, barbear cuidadosamente o rosto pálido… Tomaram seus primeiros cafés da manhã juntos: o pão com o leite e doses de comprimidos. Passaram as primeiras noites e madrugadas juntos, sem temores: mudava-o de posições para não criar feridas na pele tão ofendida. Podiam e precisavam, enfim, estar juntos, um para o outro.

E viveram dias assim, sem dar motivos de escândalos aos outros, que tanto amavam e, dos quais, as injúrias rotineiras perdoavam.

Novamente, separaram-se. Não houve cerimônia religiosa alguma no funeral, pois era um profano. Não, não houve quem o velasse, senão o amado e dois ou três curiosos que ali passaram, menearam a cabeça com indignação e, desabafando, mencionaram algo sobre aquilo ser o esperado “castigo divino”.

Estiveram tanto tempo separados fisicamente, mas ligados por aquele amor sincero que, para eles, não se cumpriu o “até que a morte os separe” e, na mesma casa, dia após dia, o resistente enamorado, sobrevivia sempre anunciando o reino divino a todo marginalizado, ainda que continuasse a ser chamado “profano”.

Enfim, puderam estar novamente reunidos. E, por terem usado de tanta misericórdia, perdão e compaixão com todos, avistaram, naquele eterno reinado, muitos que lhes haviam difamado. Juntos estiveram assim, unidos em amor, para sempre.


Nota: o texto visa uma crítica, pois, independente do que façamos, se somos assumidamente homossexuais, parece que sempre somos vistos como uma abominação ou, no mínimo, com desconfiança, ainda que decidamos não nos relacionar. É claro que se pode ser feliz sendo gay e cada um deve buscar essa felicidade, seja em um relacionamento estável ou numa renúncia completa da própria sexualidade (ou de qualquer outra maneira que cada um achar apropriado vivenciar sua sexualidade). Não defendo nem sustento que LGBTs devem renunciar a própria sexualidade, mas admiro aqueles que conseguem fazer isso por querer preservar a fé das demais pessoas.


Tags: CCB; gay; homossexual; homoafetivo; cristão; crente; Congregação Cristã no Brasil; LGBT; homo ccb.

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