#039: Gays são escândalo para a Obra?

É mister que venham os escândalos!

Essa afirmação bíblica me causou estranheza por vários anos. Mister é sinônimo de essencial, necessário.

É essencial que venham os escândalos, disse Jesus.

Acredito que minha dificuldade em entender essa simples afirmação se manteve por anos porque minha compreensão sobre o que é um escândalo era tendenciosa demais.

Hoje, eu entendo que, no contexto de Mateus 18, de Marcos 9 e, implicitamente, de Lucas 10, o significado de escândalo não seja aquele com o qual nós, da CCB (e acho que a maioria dos cristãos), estamos acostumados a ouvir ou falar. (Recomendo a leitura desses três capítulos mencionados).

Parece-me que quando dizemos escândalo, nos referimos àquele que não permaneceu santo, que não se manteve puro, que não se conservou perfeito.

Falar “fulano escandalizou a Obra!” significa que alguma pessoa saiu dos parâmetros de santidade esperado pela irmandade, pela igreja. Ou, melhor dizendo, significa que alguém não conseguiu mais dissimular a própria humanidade, de modo que os erros acumulados tornaram-se públicos e o pecado, escancarado.

É interessante que rejeitamos dizer “temos pecados” – é que na CCB só cometemos erros, falhas ou faltas; pecado? jamais! -, é como se mentira, fofoca ou coisas semelhantes não fossem pecados também (ignoramos que esses “pequenos erros” geram grandes destruições fazendo, inclusive, muitos se afastarem do Caminho!).

Assim, não causa escândalo à Obra aquele que conseguir mostrar, aos olhos dos outros, que é puro o suficiente para ser aceito e acolhido entre os irmãos, nem aquele que é santo o bastante para desfrutar de toda e qualquer liberdade de expressão nos cultos, tão pouco aquele que é demasiadamente perfeito para ser salvo.

Acontece que essa compreensão de escândalo e o que dela se implica (que alguns são perfeitos) é absolutamente anticristo! Ela anula completamente o sacrifício de Cristo, pois faz perder o sentido da Graça, isto é, da misericórdia que anula a dívida impagável.

Várias vezes perguntei a amigos e conhecidos da CCB: você tem certeza da sua salvação? A resposta sempre foi um não titubeante. Isso porque nós não reconhecemos que somos salvos por Cristo, mas acreditamos, lá no fundo, que somos salvos por nossas boas obras: “SE eu for firme e fiel até o fim, serei salvo!”, acostumamos dizer.

Ou é impossível ser santo, perfeito e puro e, por isso, precisamos de Cristo ou Cristo é inútil! Em outras palavras: ou somos todos um escândalo, ou há quem possa ser perfeito e Cristo morreu em vão.

Então, para elaborar algo que dissimule essa dicotomia, os cristãos hierarquizam pecados. Chamam alguns de falhas, outros de erros, outros de desobediências. Depois destes, listam alguns aos quais classificam como pecados e outros, abominação.

É por isso que nos cultos ou em nossas orações particulares sempre pedimos “perdoa as nossas falhas”. Reconhecemos que, às vezes, e apenas às vezes, falhamos e não conseguimos ser inteiramente perfeitos, mas acreditamos que estamos perto disso ou, no mínimo, que somos melhores que muitos outros. (É claro que, objetivamente, não é isso que pensamos ao orar, mas, associando às nossas ações e crenças diárias, é isso que estamos dizendo, sim!).

Escândalo, no senso comum, é aquilo que foge aos parâmetros de perfeição. Escandaliza todo aquele que seguia um padrão de “santidade” e, em algum momento, deixa de seguir tal padrão.

Mas, no contexto de Mateus 18, parece-me ser mais plausível entender o escândalo como:

  1. todo aquele ou tudo aquilo que faz afastar pessoas de Cristo (escândalo que segrega);
  2. o próprio Cristo (escândalo que agrega).

Em resumo, os capítulos mencionados centram-se na discussão: quem é o maior no reino dos céus?

Tal questionamento, por si só, demonstra que quem o fez, ou o faz, ainda não compreende Cristo. Sobre esse pensamento de hierarquia, de posicionamento do “mais crente” para o “menos crente” ou do “mais merecedor” para o “menos merecedor” Jesus diz: quem não for como um menino nem entra no céu! E diz: o maior é aquele que se faz servo dos outros!

Em relação a se fazer como um menino, e como podemos já ter ouvido em pregações, a grande virtude da criança é o perdão. Elas brigam entre si e, dali um instante, estão brincando juntas novamente, como se nada tivesse acontecido e como se não tivesse divergências entre elas.[1]

Talvez não à toa Jesus fale sobre a necessidade do perdão nesses capítulos. Ele explica que cada um é salgado com fogo, isso é, purificado, mas que se não houver paz uns com os outros, essa purificação é sem nenhum sabor, de nenhum proveito (o sal fica insulso).

Quando questionado: então quantas vezes devo perdoar meu irmão? Sete?, como se essa fosse uma quantidade de perdão absurda, Jesus acrescenta: Não, querido! mas 70 vezes 7!

Dessa resposta, no mínimo, precisa ficar claro que o amor, a misericórdia e o perdão de Deus são muito maiores do que podemos imaginar!

Ainda querendo hierarquizar ou, até mesmo, segregar, os discípulos se incomodam com umas pessoas que falavam de Jesus, mas não o seguiam, ao menos não como os discípulos incomodados seguiam. Jesus simplesmente diz para deixar tais pessoas em paz, afinal, quem não é contra é a favor.

Por fim, e para mim as parábolas que possuem mensagem mais nítida no contexto dos capítulo, Jesus fala sobre as 100 ovelhas e sobre o credor incompassivo.

Ao falar que ele não admite apenas 99 ovelhas, mas que quer todas as 100, associando isso ao escândalo, para mim fica esclarecido que, nesse contexto, escândalo é tudo aquilo que faz uma ovelha, ainda que uma só, se desgarrar. Escandaliza quem faz alguém se afastar de Cristo. Escandaliza aquele irmão ou irmã que não aceita alguma pessoa na igreja e a faz se desgarrar. Escândalo é um cristão fazer uma pessoa perecer na fé, escândalo é um crente fazer qualquer outra pessoa acreditar ser indigna de salvação e de misericórdia. Parece-me, leia e julgue por si mesmo, que é a esse escândalo que Jesus se refere.

Talvez por isso a parábola do credor incompassivo esteja nesse contexto também. Parece-me ser a prática que tendemos ter: somos perdoados de uma enorme e impagável dívida (impagável!); com o tempo, nos adaptamos a determinados padrões e, logo, esquecemos do anulamento da nossa dívida; então, quando vemos outras pessoas que não seguem nossos padrões, nossos costumes, mas dizem amar Jesus, esperamos que paguem centavo a centavo, exigindo-lhes que sejam perfeitos, que sejam irrepreensíveis e que sigam nossas tradições!

Contudo, se querem os cristãos continuar dizendo que é a homossexualidade pecado, deveriam passar a orar da seguinte maneira: assim como perdoou minha impagável dívida, Jesus, perdoa a dos homossexuais. E, dessa oração, deveria resultar práticas de aconchego aos que são diferentes, para que nunca se desgarrem do rebanho.

O que fazem os cristãos está, contudo, longe disso. Permanecem como escândalos (que segregam) mediante o sacrifício de Cristo!

Se haver gays na igreja ofende os heterossexuais cristãos, estes deveriam, de coração, perdoar-lhes. Perdão como o de Cristo, que não lança em rosto a falta, mas que ama indistintamente. Aos que não conseguem sequer suportar gays na igreja, cabe a leitura dos versos 33 ao 35 de Mateus 18.

Se, como dizem alguns cristãos, ser gay indica um estado de perdição, então Cristo veio para os gays, sim, porque ele veio para os perdidos e é nos perdidos que ele tem o maior prazer!

Não se pode deixar de notar, ainda, o sentido de escândalo como sinônimo do próprio Cristo.

Cristo foi um escândalo, uma rocha de tropeço aos que confiavam na lei, nas regras impossíveis de se seguir. Quando Cristo convida todos os pobres, todos os cansados e oprimidos a se juntarem a ele e, mais, quando ele abre os braços e morre ou, melhor, ressuscita, Cristo se torna loucura. Ele, ao se fazer maldição na cruz, foi escândalo e loucura! Um escândalo para agregar a todos!

Jesus escandalizou todo o sistema religioso, que segregava, excluía e oprimia, pois disse: vinde a mim, vós, vinde todos! Vinde e eu vos aliviarei!

Tenho por mim que, já desde esse sermão de Mateus 18, Jesus também profetizava sobre si mesmo: o escândalo Cristo é necessário, mais ai daquele homem por quem o escândalo vem. Ai de Jesus! Seria melhor que morresse de uma vez, atirado ao mar, do que suportar o martírio do escândalo, não a dor exatamente, mas todo o escárnio, zombaria, desafetos. Odiaram o Amor.

Os escândalos que agregam, como foi Cristo, são necessários, pois fazem com que as pessoas repensem a própria fé, avaliem o quanto ela está calcada no amor ou o quanto está alicerçada em vãs convicções de meritocracia espiritual.

É um enorme problema ser um escândalo que segrega, que afasta de Cristo. Contudo, se ser gay causa algum escândalo para a Obra, creio que é porque demonstra que a igreja não está abraçando a todos, que não se agrega a todos os pequeninos, que se faz distinção daqueles que não podem seguir Jesus como prega ser necessário.

Que o fato de ser gay-escândalo promova alguma renovação da compreensão de Cristo de modo que entenda-se, de uma vez por todas, que Cristo é sinônimo de Amor indistinto e por todos, porque Cristo é exclusivamente Amor, 70 vezes mais do que poderemos imaginar!

A releitura de Lucas 10:56 é conveniente: Jesus não veio para destruir as almas, mas para salvá-las, mesmo as daqueles que não o recebem e que o rejeitam, que rejeitam o Amor e a Graça.

“Perdoa minhas dívidas assim como eu perdoo aos meus devedores”.

[1] A pureza da criança também está em não fazer distinção de nenhum tipo, seja de gênero, de cor, de classe social, ou mesmo de condição sexual. Para aprender essa distinção, ela precisa passar por terrível tortura psicológica a fim de que assimile as tradições do patriarcado!

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