#041: Mulheres, homossexuais e Jesus?

Assim que se iniciaram as Reuniões para crianças na minha cidade, realizadas aos sábados e durante o horário de culto, eu ainda era auxiliar de jovens e, como sempre gostei de falar e conversar sobre Bíblia, acabei ficando responsável por uma turma de crianças. Nós tínhamos organizado elas em duas turmas: de 4 ou 5 anos até 10 em uma sala, no prédio anexo da central da minha cidade, e acima de 10 anos em outra sala. Eu ficava com essas mais jovens, e até alguns mocinhos e mocinhas de 13 ou 14 anos a frequentavam, embora fosse recomendado que estes participassem dos cultos.

Em determinado sábado, junto a uma amiga a quem sempre amei de coração e que também era auxiliar de jovens na época (já faz uns 4 anos isto, eu acho), em determinado sábado estávamos iniciando uma dessas Reuniões para crianças. Eu gostava que todos participassem e tentava dar liberdade tanto para a auxiliar quanto para as crianças, apesar de me sentir um pouco limitado devido a tradição que temos de que o varão é que deve dirigir qualquer serviço.

Um dos meninos presentes, então, sugeriu que lêssemos o evangelho segundo Mateus, no capítulo 1.

Confesso que eu quis fugir daquela leitura. O que eu poderia falar para crianças sobre uma lista de nomes? Eram nomes importantes, eu sei, mas a maioria de pessoas desconhecidas, de reis por mim ignorados (com exceção de dois ou três, talvez). Mas, cada detalhe da Bíblia é belíssimo e surpreendente!

Como eu não poderia fugir daquela leitura, propus às crianças que lessem o capítulo; em voz alta, cada uma leu um verso da genealogia de Jesus, segundo Mateus. Acompanhando a leitura, percebi que, entre nomes de tantos homens, aparecia o de algumas mulheres, como se fossem exceções àquela lista de patriarcas.

E, ainda, não eram quaisquer mulheres, eram mulheres “problemáticas”, “desajustadas” quanto à norma, quanto ao padrão. Ao menos quanto ao nosso padrão moderno do que é ser ajustado, santo e puro.

GELDER, Aert de. Tamar and Judah. 1667.

Uma delas, Tamar, sabiamente ludibriou o próprio sogro, Judá, e teve relações sexuais com ele, a fim de gerar descendentes (e fazer justiça para si mesma). Outra, Raabe, sequer era de Israel, estrangeira, e, como se isso fosse pouco, também é descrita como prostituta. O evangelho menciona também Rute, outra estrangeira (além de viúva e pobre, qualidades demais para ser facilmente desprezada!). Outra, Betseba, foi abusada sexualmente por um rei amado, Davi; abusada ou, quem sabe, pode ter sido conivente com o ato sexual fora do casamento (o que acho improvável, uma vez que ficou destacado que ela chorou a morte do esposo, assassinado pelo rei, e porque também está escrito que Deus se desagradou unicamente de Davi, o amado!). Enfim, por último aparece Maria, a virgem, que hoje cremos como santa e pura (e, de fato, deveria ser!), mas que na época da primeira gestação deve ter suportado infâmias e injúrias, já que estava inexplicavelmente esperando um filho; creio que, talvez, suportou injúrias até a morte de cruz de seu primogênito, ou melhor, até sua ressureição deve ter carregado uma má fama como a de quem fez sexo fora do casamento e que deveria ser apedrejada, no mínimo, segundo os costumes e leis.

Contudo, e para mim o mais bonito de tudo isso: foi por meio da geração dessas mulheres “problemáticas” (que, à sua época, creio, não seriam vistas como santas ou como puras e, menos ainda, como dignas de ser ascendência de Cristo), foi por meio da geração delas que nasceu o único santo, puro e perfeito: Jesus.

Essas mulheres não estão na genealogia à toa! Deus, por meio de um Mateus, por certo, queria e quer mostrar que, embora judeus se achassem os escolhidos e únicos prediletos de Deus (e como ainda hoje muitas pessoas se acham assim!), Deus sempre manifestou interesse por aqueles que rompem a lógica e os padrões, e por aqueles socialmente rejeitados, e por aqueles marginalizados, por todos os demais excluídos.

Deus sempre os amou; amou de tal maneira que, como uma parábola viva, preparou que os antepassados do Seu próprio filho fossem os mais desajustados e imperfeitos, porque em Deus não há acepção de pessoas.

Para mim, a história do povo de Israel (chamado, antes, Jacó, e que não tinha, por natureza, o direito da eleição, da primogenitura) é uma parábola viva de como Deus ama a todos e de como ele rejeita a sabedoria humana, de como ele rasga toda e qualquer predileção e, assim, de como ele prefere aquilo que alguns chamam “loucura”… De como ele despreza os nobres e os sábios e os entendidos e os próprios supostos escolhidos, mas elege aqueles que (perante os olhos dos que supõem deter o coração e a mente de Deus) são feitos como se fossem os mais desprezíveis, os mais vis e os mais abomináveis.

Quando alguns me dizem “Gay e cristão? Loucura!”, imagino que estes também ousariam dizer, enquanto não compreendessem os desígnios de Deus:

– O Cristo, filho da ardilosa? Geração da prostituta? Filho da estrangeira? Primogênito da mãe solteira? Loucura!

Acontece que Deus rejeitou as coisas sábias e elegeu a loucas mesmo! Deus predestinou, desde antes a fundação do mundo, a salvação por graça e por amor aos desajustados e aos excluídos; predestinou desde sempre o escândalo e a loucura chamados Cristo.

Não à toa, creio, está escrito: os últimos é que serão os primeiros.

Aqueles que os religiosos colocariam por último no céu (se é que os colocariam) estes é que são os primeiros a desfrutar a graça divina no coração, ainda que escutem, repetidamente:

– Louco! Deus ama, mas…

Eram os últimos, pois, se a justiça de Deus fosse como a dos homens, que espera algo em troca, sabem que jamais poderiam retribuir o favor divino; sabem que, ainda que quisessem e tentassem renunciar a si mesmos, seriam uns fracassados, pois por sua natureza, assim como Jacó, seriam excluídos. E, agora, são os primeiros, pois sabendo que não podem retribuir a Deus mudando quem são, o amam, pois foram amados primeiro, sendo quem são, como são.

Foto de Kinga Cichewicz (@all_who_wander), Unsplash.


Tags: Homossexualidade, Lésbica, Gay, Bissexual, Transexual, Travesti, Intersexual, Assexual, LGBT, LGBTIA, LGBTQIA+, Congregação Cristã no Brasil, CCB.

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